Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Guia bem (mal) humorado das profissões - 20

11 de agosto de 2008

 

SECRETÁRIAS

 

Por questão de (sua) sobrevivênvia, lembre-se: ela são as pessoas mais importantes na hierarquia da empresa (e acreditam seriamente que sejam MESMO!). Qualquer tipo de comunicação com o presidente precisa invariavelmente passar pela aprovação prévia delas. Lêem todos os e-mails, cartas, memorandos, mesmo que nenhum deles lhes interesse. Sempre dão pitacos no seu trabalho, mesmo que não entendam bulufas daquilo. É bom agradá-las de tempos em tempos, elogiando suas roupas e sapatos, o penteado e (quiçá) a nova tintura. Levar um chocolatinho, então, acompanhado de um elogio à forma física delas, será para ela melhor que um filme água com açúcar ou o último capítulo da novela. Jamais ouse esquecer a data de aniversário delas, caso contrário aquela reunião urgente será marcada para dali umas 23 semanas. Sabem de tudo o que está rolando. Se você sair da linha, receberá um olhar fulminante de reprovação, daqueles “eu sei o que você aprontou, rapaz…”. Extremamente hábeis, ao mesmo tempo em que digitam um texto em alemão, ouvem música clássica, retocam a maquiagem, reservam vôos e controlam a agenda de seus chefes. E com apenas UMA das mãos. Têm posturas impecáveis, sempre com as costas retas. Pode reparar!

 

Em nome dos pais…

7 de agosto de 2008

 

Talvez eu tenha meus defeitos como pai.
Certamente tenho. Vários.
Talvez tenha errado em alguns momentos com atitudes inesperadas, por vezes incorretas.
Exageradas - quem sabe?
Talvez em outras tantas tenha acertado, sem saber muito o por quê do acerto.
Puro instinto? Talvez.

Ser pai é um pouco assim. Principalmente quando é o primeiro filho. Erramos muito, eu erro todo dia, num louco processo mútuo de aprendizado.

Homem é bicho besta, acha que sabe tudo, que controla, manda, desmanda, faz e acontece. Até que um nanico resolve aparecer na vida dele. E o tal controle vira de pernas para o ar, da noite para o dia. Peça para o cara enfrentar um Mastim Napolitano feroz só na base da bofetada, vestindo não mais do que uma sunga, mas jamais ouse pedir para que ele dê banho num bebê. Principalmente se você for daquelas esposas sacanas o suficiente para ficar ao lado, olhando e comentando cada gesto. Vai levar o cara à loucura.

Lembro-me bem da primeira vez que minhas habilidades como "pai recente" foram testadas. Na maternidade, eis que a enfermeira estende-me uma fralda novinha, cheirosinha, e pede gentilmente: "troque seu filho". Ao que se seguiu minha (óbvia) resposta: "Trocar? Por que? Eu gosto dele. Não quero outro, nao.". Claro que ela não entendeu a piada - ou fez que não entendeu - empurrou a fralda com mais força e disse, com uma calma cativante, enquanto seu olhar atravessava meus olhos e furava a parede atrás de mim: "A-GO-RA". Troquei.

Converso com alguns marinheiros de primeira viagem. O frio na barriga é comum a todos. O receio de assumir esse frio também. Como se, por serem homens, não pudessem ficar assustados com algo novo, desconhecido. Pior, algo que vai acompanhá-los para o resto da vida.

E é nesse ponto que entra o problema real. "Para o resto da vida" é algo assustador para nós, homens.

Futebol, por exemplo, dura, quando muito, cento e vinte minutos, se tiver prorrogação, mais um pouco para penalidades. Namoro de escola, algumas semanas, quem sabe uns meses. Campeonato Brasileiro, oito meses. Jogos Olímpicos, um mês. Carro novo uns quatro, cinco anos (se agradar). Pringles e Coca-Cola, meia hora no máximo. Filme água com açúcar, umas duas horas. Se for Titanic, três horas e meia, mas você fica um bom tempo torcendo para o DiCaprio se afogar, o que faz o filme voar. Está vendo? Começo, meio e FIM. FIM!

É complicado, eu sei bem. Mas é apaixonante. O mais engraçado é que não há muito como explicar. É preciso sentir, ver, cuidar, trocar, dar banho, ensinar, abraçar, acariciar, colocar de castigo, rir, gargalhar, se emocionar, rolar no chão, fazer guerra de macarrão, medir febre, para se ter alguma idéia da dimensão, da força que liga um pai ao seu filho. Não importa como você faz, é importante fazer. Dar bronca dói mais em nós mesmos do que neles. Mas é necessário. E fazer bagunça escondido, como se por alguns instantes você pudesse voltar à infância e aprontar, é impagável.

Há pais que são certinhos, fazem apenas o que as esposas mandam e não arriscam nada. Há outros que se viram bem e até ousam fazer comida. Uns são amigos dos filhos, outros são mais distantes. Há os extremamente protetores, como também há os que não demonstram qualquer tipo de proteção e entendem que os machucados e band-aids fazem parte do aprendizado. Existem os que viajam por semanas e lidam bem com a saudade, outros que sofrem até mesmo por terem que ir à padaria comprar pão. E, não há dúvida, muitos são aqueles que misturam um pouco de tudo. Acho que estou nessa última. Acho.

Se você se encaixou numa dessas categorias e não gostou muito, fique tranquilo. Nenhuma delas é mais certa ou mais adequada. Assim como cada um gosta mais de uma cor ou de outra, torce para um time ou outro, a forma com que você lida com seus filhos é apenas uma preferência. É o jeito que você se sente mais confortável, é a forma que você entende ser a melhor para criá-lo, certo?

Então relaxe, dê banho no garoto, troque a fralda, ria, brinque, dance. Aproveite muito cada momento em que você se pegar sozinho com ele. Tenho certeza de que será inesquecível.

Louca essa vida, não é mesmo?

Feliz Dia dos Pais!

Guia bem (mal) humorado das profissões - 19

 

COMENTARISTAS ESPORTIVOS

 

Nunca dirigiram sequer o time de anões da Vila Matilde, mas juram conhecer todas (repito, TODAS!) as táticas e estratégias possíveis dentro das quatro linhas. Sempre discordam das alterações dos técnicos. Na maioria das vezes, dizem exatamente aquilo que os telespectadores estão vendo (e, sendo assim, não precisariam ouvir de outra pessoa). Afirmam que todo time precisa de um ou outro atleta como reforço e, quando chega algum, dizem que não era “bem aquele” que solucionaria o problema de vez. Adoram ver 137 vezes o replay do lance em que o juiz marcou impedimento, de 19 ângulos diferentes, só para provar que o cara errou. Metem o pau num jogador, mas quando este é o convidado especial do programa, pedem autógrafo para os filhos e os vizinhos. Para todo o jogo apontam um favorito, mas deixam em aberto, caso esse time não entre com a mesma “pegada” de sempre. Ou seja, eles nunca têm um favorito de verdade.

Guia bem (mal) humorado das profissões - 18

5 de agosto de 2008

 

MARQUETEIROS

 

São publicitários que não conseguiram vagas em agências de propaganda e, para não darem o braço a torcer, dizem que preferem muito mais a vida corporativa. Mentira. São também os maiores enroladores e cascateiros que existem. Sabem que o produto do concorrente é muito melhor, mas jamais confirmarão isso, mesmo sob tortura chinesa. Inventam as maiores ladainhas para tentar arrancar um pouco mais de verba da diretoria, mas nunca têm exito. Seus maiores inimigos são os Diretores Financeiros que, de propósito, dizem que não entendem nada de conceitos de Kotler e querem saber de números – exatamente por saberem que marqueteiros não sabem resolver nem as quatro operações básicas de matemática. Usam siglas complicadíssimas, como GRP e 4Ps, que nem mesmo eles sabem explicar. Abusam de clichês que precisam, invariavelemente, ser acompanhados pelas explicações, porque soltos não querem dizer absolutamente nada (ou tudo) como “agregar valor”. Amam de paixão um terno “risca de giz” com camisa azul e gravata rosa. Entre os favoritos do navegador de internet constam: Apple, Caderno 2, CNN (só para fazer graça), Google maps e a coluna do José Simão.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 17

1 de agosto de 2008

 

Psicólogos

 

Adoram Freud, coisa que nem ele mesmo explica. Acreditam piamente que os sonhos das pessoas, por mais bestas e inofensivos que sejam, são, não verdade, a “satisfação alucinatória de um desejo sexual infantil reprimido”. Juro. Pode perguntar a qualquer um deles. Se você ousou sonhar com uma lata de leite condensado, é porque deve morrer de tesão pelo logotipo da Nestlé (desde criancinha), pelo frio do metal ou, quem sabe, pelas curvas da embalagem. Concordo, é sexy mesmo. Vejo várias pessoas se esfregando em latas de leite condensado nas gôndolas dos supermercados. Pare de rir, é sério! Tirando os profissionais que atuam nas áreas de Recursos Humanos das empresas, sempre imagino um psicólogo sentado numa poltrona de couro com acabamento capitonê, afundado, pernas cruzadas, bloco de anotações no colo, caneta Bic numa das mãos, óculos moderninho na outra, mordiscando a ponta da haste. Enquanto o paciente, aquele louco (só pode ser louco) deitado no divã, divaga sobre sua vida, suas manias, seus fracassos, suas vitórias, o profissional da poltrona faz rabiscos, intercalando comentários como “interessante” ou “muito interessante”. Você, o paciente, imagina que ele esteja fazendo análises profundas sobre sua personalidade mas, na verdade, o que ele está fazendo é tentando entender como o Daniel Azulay conseguia fazer, de um rabisco qualquer na lousa, um carro-conceito.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 16

31 de julho de 2008

 

CANTORES DE MÚSICA SERTANEJA

 

Esses sim, ao contrário dos jogadores de futebol, são uns coitados. Sua namoradas, esposas, amantes, periquitos e porquinhos-da-Índia os abandonam sem dar quaisquer satisfações. Afundam-se facilmente em crises de depressão e passam a duvidar do verdadeiro significado do amor, o qual os faz sofrer alucinadamente, muito bem expressas em (todas) suas músicas. Sempre vêm em bando, digo, em duplas, formadas normalmente com primos franzinos, lá nas infâncias sofridas, entre as colheitas de cana e arroz. O menos desafinado canta mais alto. O outro canta sempre baixinho, porque não há Cristo que aguente uns decibéis a mais daquele cara. Adoram brilho e franjinhas penduradas nas jaquetas, combinando com as mesmas calças jeans que usavam aos doze anos de idade (aquilo deve doer um bocado). Obrigatoriamente, um tem que tocar violão. Se os dois aprenderem, então, é sucesso garantido. Em algum momento, devem tentar carreira solo.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 15

30 de julho de 2008

 

JOGADOR DE FUTEBOL

 

Um coitado sem sorte na vida. Acorda todo Santo dia, vai jogar bola, é famoso, ganha mais dinheiro que banqueiro, vive cercado de mulher bonita, fica hospedado em hotel de primeira classe quando está em concentração e, apesar de tudo isso, se acha injustiçado. Tudo porque não consegue entender as vaias da torcida (que ingratos, não?) quando ele arremata a jogada com um chute de bico, indo a bola parar aos pés do Kilimanjaro. Acha que jornalista faz pergunta esdrúxula, mas só sabe responder com três ou quatro frases de efeito: “o time jogou bem”, “fizemos o que o professor mandou”, “futebol é uma caixinha de surpresas”, e “importante foi conquistar o três pontos”. É o maior consumidor de carros importados, cordões de ouro e óculos escuros gigantescos. Promete que jamais deixará o time mas, sempre que arruma uma boquinha na Europa, passa a reclamar que não há mais clima e que sair é a melhor solução para todos. Os mais desenvoltos viram técnicos ou, com sorte, comentaristas.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 14

29 de julho de 2008

 

MOTOBOYS

 

Crêem que os carros são pilotados sob trilhos e que não podem, de forma alguma, mudar de pista. Imaginam que os poucos motoristas que têm vida própria são Thundercats e possuem visão além do alcance. Têm mira a laser e acham que espelhos retrovisores arrancados dos carros contam pontos no PlayStation. Jamais fazem revisão em suas motos porquem não podem perder tempo. Devem ser aficcionados pela novela das 6, já que voam desesperados para casa quando dá o horário. Se você também é motoqueiro, está com pressa, mas dá azar de encontrar um motoboy passeando, azar seu. Ele jamais dará passagem e não está nem aí para você. Chega a ponto de batucar um pagode no guidão. Agora, se você estiver passeando com sua moto e um motoboy grudar atrás de você, saia da frente o quanto antes. Ou sai, ou ele vai passar literalmente por cima. E seja o que Deus quiser, mano.

 

Quando cai a ficha…

25 de julho de 2008

 

Noites atrás, recebo uma mensagem de email. Era minha esposa dizendo que, dada a correria do dia, não conseguiria chegar em casa em tempo de render a babá do nosso filhote. Já passava das oito da noite e ela teria ainda duas reuniões pela frente. Trabalho novo, oportunidade de crescimento profissional, aquele sentimento de que "tenho que provar" que a escolha do chefe, dentre tantos outros candidatos, foi acertada. E é justo. Profissional das mais competentes, merece e muito o momento positivo na carreira. Tem mais é que aproveitar mesmo.

Dado o recado, e como o final do meu dia permitia, arrumei minhas coisas, desliguei o computador e fui para casa. Seria eu a render a babá, o escolhido do dia a brincar e rolar com o Gabriel, até que desse 22 horas e o colocasse na cama. Três anos de idade. E o horário-limite é esse. Não tem negociação. No dia seguinte, é "dia de branco" (de onde será que vem essa expressão?) e todos precisam acordar cedo.

Minutos depois de chegar em casa, a babá se despede e ficamos nós dois. Eis que ele pega um brinquedo que eu não conhecia – uma caixa com inúmeras peças de madeira em cores e formatos diferentes – e a vira no chão. Li na lateral da caixa que aquelas peças, quando corretamente montadas, tornavam-se uma casinha – com janela e porta. Ele me pediu para ajudá-lo a montar e assim o fiz, ambos largados no chão da sala, ao som de “Monstros S.A.” no DVD.

Foi quando algo muito bacana aconteceu. Enquanto montávamos a casinha, perguntei como havia sido o dia dele, se tinha brincado na escolinha, se divertido, se tinha visto o amiguinho. Aquele papo careta de pai interessado na vida do filho. Aquele papo que, depois de certa idade, é bom evitar, para não ouvir resmungos dos adolescentes… Ele ia respondendo meio com um gesto com a cabeça, meio falando sem olhar para mim e prestando uma atenção danada na atividade. De repente, percebendo que eu não estava lá ajudando tanto quanto deveria, pegou a minha mão e disse: “Papai, você também é meu amiguinho. Ajuda aqui.”

Talvez me faltem palavras para expressar o que senti na hora, mas vou tentar: sabe aqueles filmes em que, quando algo impactante acontece, o mundo desacelera, quase pára, as pessoas se movimentam lentamente, e a personagem principal parece perdida numa outra dimensão, apesar de estar ali mesmo? Ao mesmo tempo, um frio gostoso mas estranho percorre as costas. É engraçado, mas você fica perdido. Completamente.

Não sei quanto tempo durou a sensação (o que importa?). Só sei que, daquele momento em diante, a relação pai-filho foi estendida a um patamar diferente, maior. Permaneci olhando para ele, incrédulo. Um misto de orgulho, de conquista, de felicidade, com um frio danado na barriga. E ele ali, descobrindo onde encaixar a próxima peça, sem saber o tsunami que tinha causado com uma simples frase. É engraçado perceber que aquele menino nanico me via não somente como um “simples” pai, mas me via (e vê) como um amigo. Caiu a ficha: quando você tem um amigo, amigo mesmo, de verdade, não importa a distância, seja ela medida em metros ou horas. Será sempre seu amigo. Muitas vezes, basta um telefonema, um e-mail, e todas aquelas sensações, aquelas aventuras que viveram juntos, vêm à tona. E a relação entre pais e filhos deveria sempre ser baseada em amizade, em respeito mútuo, em diversão, descobertas. Porque é exatamente isso o que acontece com os pais. Eles DESCOBREM um monte de coisas novas quando passam pela experiência de ter filhos.

Assim será com ele: meu filho, para o resto da vida. E, melhor ainda, meu grande (ainda nem tanto, porque ele é nanico) amigo.

Amo você, filhote.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 13

23 de julho de 2008

 

ECONOMISTAS

Assim como os corretores de seguros, são os caras mais secadores e pessimistas que existem. Toda manhã criam uma nova teoria, na qual o mundo entrará em colapso, as economias emergentes desaparecerão, as potências mundiais virarão deserto. Nunca acontece. Acham que até mesmo os fenômenos da natureza, como terremotos e erupção de vulcões são causados por forças macroeconômicas que, na verdade, querem desestabilizar o câmbio e causar inflação. Sabem de cabeça o preço do pão francês e o quilo da farinha (em dólar). Só não lembram o aniversário da esposa, a não ser que coincida com a crise da Rússia. Metódicos, têm em planilhas de Excel o número médio de passos necessários para comprar pão de queijo no boteco da esquina, comparado com o tempo gasto para a atividade. Se quiser deixá-los completamente perdidos, basta roubar o caderno de Economia do jornal que assinam.

 

« Posts mais novosPosts mais antigos »

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://mickeyamaral.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.