Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Pirulitos e a vida.

23 de dezembro de 2008

 

 

Era um dia comum. Apenas mais um, entre tantos outros, tantos iguais.
Sol quente, pessoas circulando às pressas, atentas apenas aos seus afazeres, desatentas aos semelhantes.
Ninguém se importa com os outros, são somente outros. Que sigam seus caminhos. E não atrapalhem o meu. É o que pensam, é como agem.

Vejo um senhor caminhando pela rua. Rosto simpático, olhos e pele claras, bochechas rosadas. Cabelos brancos como neve, barba rala e também alva. Calças largas, sapatos e cintos pretos, camisa sóbria. Leva um discreto par de óculos pendurados por uma fina corrente ao pescoço. Caminha tranquilamente, cumprimentando a todos. Distribui pirulitos às crianças, sorrisos aos adultos. Sorrisos contagiantes, diga-se.

Figura que se diferencia da multidão. Figura que chama a atenção. Páro por alguns instantes para observar. O mundo que espere. Algo inusitado está acontecendo.

Ele continua sua caminhada. Com a mesma tranquilidade. Sempre.

Chega até mim. Coloca os óculos, cruza os olhos com os meus. Olhos azuis que irradiam paz. Estende-me a mão. Cumprimenta-me.
Retribuo, calado. Sem palavras, na verdade. Apenas admiro, sem reação.
Busca na sacola um pirulito, volta a olhar-me nos olhos e diz:

- Tome, meu filho. É seu. Você só queria parar por alguns instantes, não era isso? Queria pensar na vida. Agradecer a quem o ajudou. Pedir perdão a quem feriu. Doar-se mesmo que por breves momentos a quem precisa. Acertar alguns rumos. Eis aqui o seu tempo. E, de quebra, tem sabor de framboesa!

Os pensamentos se misturaram. A confusão tomou conta. A única pergunta que consegui fazer:

- Papai Noel?

Seguiu-se um leve sorriso, seus olhos agora mais brilhantes. Sua mão agora em meu rosto, morna, terna. E a resposta:

- Basta acreditar, filho. Basta acreditar….

E seguiu seu caminho.

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(Feliz Natal a todos!)

 

Algo que seja eterno

10 de dezembro de 2008

Era como se um vazio invadisse o momento. Um misto de incômodo e silêncio. Horas haviam se passado desde que aquela palavra começou a ecoar entre meus pensamentos: ETERNO. A todo custo, buscava encontrar algo que traduzisse, de forma definitiva, aquela palavra. Fácil? Veremos.

As opções eram muitas, vários objetos à minha volta… nada ETERNO.

O vazio lá, aumentando, como aumentava a minha vontade de resolver aquela questão de uma vez por todas.

Resolvi agir. Ou reagir. Passei a procurar, no meio das minhas coisas, a tal tradução definitiva.

Comecei pelo meu baú de brinquedos antigos.
Soldados, bonecos, forte-apache, carrinhos de ferro.
Autorama, gibis antigos com as páginas já amareladas.
Velhos boletins dos primeiros anos de escola.
O primeiro modelo de vídeo-game – nem ligava mais.
E seus joysticks já devorados pelo cachorro.
NADA.

Virei para o armário.
Eram camisas, calças, sapatos, tênis.
Até aquela velha camiseta, já rasgada de tanto usar.
Um moletom surrado – e delicioso – que uso para dormir,
naquelas noites em que nem a manta dá conta do frio.
E outras tantas roupas que há muito não uso.
(e as quais doarei na próxima Campanha do Agasalho…)
NADA.

Apelei.
Liguei o computador.
Entre tantos programas, aqueles últimos lançamentos.
Até mesmo nas ferramentas de ajuda.
Deveria encontrar algo.
Quem sabe na tal da internet?
NADA. Nem em configurações, nem em painel de controle.

Ops! Na casinha do cachorro. É isso. Como deixei passar?
Tomei algumas lambidas – claro!
Mas precisava ser rápido.
Atirei a bolinha para me livrar dele.
Revirei a casinha. Na água, no meio da ração.
NADA. Será que o danado havia devorado esse tal de ETERNO também?

Fui para a cozinha. Despensa aberta, olhos de lince.
É um. É dois. É três. Atacar!
Lata de achocolatado para um lado, pacote de biscoitos para o outro.
Meus prediletos, aliás.
Duas ou três latas de leite condensado – Hummm, leite condensado!
Empilhei alguns pacotes de macarrão.
NADA.

Não disse que não ia ser fácil?
Quase impossível.
Mesmo assim, não desisti.
Tinha que encontrar em algum lugar algo que fosse realmente ETERNO.

Fui para sala. Gaveta de DVDs e CDs.
Entre tantos títulos diferentes, ao menos um, iria me ajudar.
E foi um tal de filmes para lá, shows para cá, games espalhados no sofá.
Pelo menos encontrei aquele velho walk-man, com uma fita K-7 dentro.
Há anos que nem me lembrava mais dele.
NADA.

Passei a achar que ETERNO não existia.
Era invenção de gente maluca.
Já havia procurado em todos os lugares.
Todos os cantos possíveis.
Não existia.
Definitivamente.

Exausto, joguei meu corpo no sofá.
Coloquei os fones do walk-man e, sem pretensão alguma,
Apertei o “play”.
Sensacional! Uma fita com músicas que havia gravado,
para uma menina da 6a. série que paquerei por anos a fio.
Para começar a viajar do sofá de volta à minha infância,
foi um piscar de olhos.

Aquelas manhãs frias em que a mamãe me acordava para eu ir para a escola.
E eu debaixo do cobertor, quentinho, pedia: “Mais cinco minutos, pu favô!” – ela deixava.
O café quente, mesa posta, uniforme pronto e passado.
Um beijo de “boa aula”.
Até o puxão de orelha pela nota vermelha em Geografia.
(mas por que eu tinha que saber algo sobre os Montes Urais?)
As festinhas de Dia das Mães e Dia dos Pais…
Eu me fantasiava e ensaiava para muito para fazer bonito.
Até que me saía bem (mas ficava com uma vergonha danada!)
Aquele cafuné quando a gripe brava me pegava…
Com chá quente e bolachas. E a bronca no dia seguinte por andar descalço no chão frio!
Aquele beijo tarde da noite, quando meu pai chegava exausto do trabalho.
E eu fingia que estava dormindo – mas não estava, não! Confesso.
Aquele abraço gostoso quando me formei na 8ª. série.
Abraço que consigo sentir ainda, até hoje. É só fechar meus olhos…
O presente surpresa no Natal.
Meu prato predileto num almoço de domingo.
Um sopro delicado no Mertiolate ardido borrifado no ralado do joelho.
A risada contida quando tirei aquele bigodinho ridículo pela primeira vez.
A torcida declarada na época de vestibular.
E a festa divertida por eu ter passado.

Espere um pouco.
Que estranho… começo a achar que encontrei algo ETERNO!

Por que hoje, pensando bem, somos nós que fazemos tudo que nossos pais um dia fizeram.
Mas por nossos filhos.
Eles que, certamente, um dia farão por nossos netos.
E que farão pelos nossos bisnetos…

ENCONTREI!

Era tão simples! Estava tão na cara.

ETERNO é o amor que os pais sentem pelos filhos.
ETERNO é o carinho que dedicamos aos nossos pimpolhos.
ETERNA é a atenção que nos dão mesmo quando não precisamos (ou achamos que não)
ETERNA é a amizade deles que temos tão perto de nós, e para sempre.
ETERNA é a gratidão que nós, filhos, hoje temos a oportunidade de demonstrar.

ETERNO é o NOSSO amor por vocês, nossos pais, nossas mães, nossos verdadeiros amigos!
ETERNO é o nosso sincero MUITO, MAS MUITO OBRIGADO POR TUDO! De coração.

Dos seus ETERNOS filhos, netos, bisnetos…..
(p.s.: Alguém aí pode me dizer o que são os tais Montes Urais ? Não sei até hoje…)

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