Meus particulares campeonatos-relâmpago
18 de novembro de 2008
Eles chegam sem avisar. Supreendem-me e, quando dou por mim, estou no meio de uma competição maluca, sem prêmios, troféus ou medalhas. Apenas o sentimento de missão cumprida ou o desgosto por não ter conseguido atingir o objetivo.
Sim, falo dos meus próprios campeonatos-relâmpago (e, nesse momento, arrisco-me a ser chamado de louco, insano, doidivanas, mas e daí?).
Dirigo meu carro por uma via qualquer. Estou tranquilo, nada acontece. Assobio a música do rádio. Batuco no volante. Ouço até os passarinhos cantando pela redondeza. Quando avisto, logo à frente, um farol aberto. É o gatilho para a competição. Penso comigo: ‘preciso passar pelo farol antes que ele mude para amarelo, sem acelerar ou brecar’. Prendo a respiração. Os pássaros, agora, são completamente ignorados. Um titio desavisado aproveita a chance para atravessar a rua. Eu resmungo: ’sai, titio, sai… SSAAAAIII’. Nos instantes finais, um pedido: ‘não muda agora, não muda… por favor… está quase’. E a realização: ‘Passei! He he he! Urrúúú’.
E volto a batucar placidamente no volante, satisfeito por ter conquistado praticamente um índice olímpico. Como se nada tivesse acontecido.
Esses campeonatinhos se estendem a todas as categorias possíveis. No metrô, por exemplo. Passo pela catraca e ouço um trem se aproximando. Logo penso: ‘descer as escadas e entrar no último vagão, sem correr’. E apresso o passo. Quase uma marcha atlética. Mas sem correr. O trem chega à estação. Uma enfermeira lendo mais um parágrafo de Julia - aqueles livretos comprados em banca de jornal - caminha vagarosamente, sem imaginar que um maluco tem uma tarefa árdua a cumprir. O coração palpita. Desvio da moça vestida de branco dos pés à cabeça. O trem pára. Alcanço a escadaria e desço de dois em dois degraus. As portas abrem. Agora é a parte mais difícil, livrar-me dos usuários que vêm no contra-fluxo. Tomo a faixa da direita, limpo o suor da testa. Penso: ’segura a peruca… segura… estou chegando". A campainha toca. Só mais um segundo. Quando as portas esboçam reação e começam a fechar, eis que pulo por entre as duas e, vencedor, olho orgulhoso para os usuários. Um ar trinfante no rosto - mesmo que ninguém saiba o que acabou de acontecer.
No supermercado. Faço minhas compras e vou ao caixa. Pego uma fila qualquer. Olho para as filas ao lado e, em segredo, elejo um adversário. Como regra, esse oponente tem que ter o mesmo número de pessoas que eu à frente. Ganha quem conseguir passar pelo caixa, pagar, colocar as compras empacotadas no carrinho e sair em direção ao estacionamento. Não existe um adversário específico. Pode ser uma moça com roupa de academia, o carrinho recheado de produtos diet, light, frutas, saladas, granola e água de côco. Pode ser um senhor gorducho com cervejas, carnes, sal grosso e carvão. Ou uma senhora lutando para manter as duas crianças quietas enquanto equilibra os trinta e dois produtos de limpeza diferentes na esteira do caixa. Normalmente, essa competição eu perco. Sempre escolho uma fila na qual o casal à minha frente insiste em passar dois ou três cartões de débito e, ainda, pagar a diferença em dinheiro.
No futebol. Recebo a bola na área, ainda no campo de defesa. Sem que nenhum jogador do meu time, ao menos, imagine o que está para acontecer, viro-me para o ataque, um campo inteiro à minha frente. Respiro fundo e penso: "driblar todos os jogadores e chegar até a outra área". Só lá poderei tocar para algum companheiro. E parto. Esse é mais um exemplo de competição perdida logo na largada, dada a minha - digamos - restrita habilidade com a bola nos pés. Isso quando não há um agravante: perco a bola já para o primeiro oponente, que limpa a jogada e marca o tento. Além de perder o meu campeonatinho, sou indicado - à força - para ir para o gol.
É. Relendo este texto, acho que sou meio maluco mesmo. Pelo menos, garanto, é diversão na certa, ajuda a passar o tempo (principalmente no trânsito caótico das grandes cidades), não tem contra-indicação, não solta as tiras, não prejudica ninguém e - o melhor - você escolhe competidores, modalidades e regras. Essa última, pondendo ainda ser alterada DURANTE o campeonato, sem que tenha que levar o assunto ao STJD.
Abraços.

