Por um radinho de pilha - final
17 de outubro de 2008
Sentou-se nos banquinhos de madeira no centro do corredor. Abriu a pochete, puxou o maço, filou um cigarrinho – estava longe de casa e precisava dar um tempo para os miolos – acendeu e, enquanto soltava a primeira baforada, tirou os pés dos 752. Os dedos já estavam latejando. Precisavam de uma esticadinha. “Ahhh, que sensação boa!”. O cara que inventou o sapato certamente não tinha a menor idéia de como era bom tirá-los.
Já estava um pouco cansado e não podia mais demorar. Dona Zuleika não o esperaria para almoçar. Achava absurdo que um velho aposentado se atrasasse para algum compromisso. E almoços eram compromissos. Para ela, mas eram. Como podia chegar ao ponto de perder uma manhã inteira, faltar ao dominó com os amigos na pracinha, deixar as pombas famintas por não terem recebido lascas de pão amanhecido, para procurar – e não achar – um rádio? Imagina, então, se a vitrola quebrasse e precisasse comprar uma nova?
Tomou novamente o circular Penha-Tietê. Desceu a duas quadras de casa e muito atrasado para o almoço. Já passava da uma e quinze. Dona Zuleika estaria com um bico enorme. Bico de pelicano. Respirou fundo. Resolveu passar na padaria do Seu Manoel para tomar um golinho da “marvada” e só depois encarar o diabo de bóbes no cabelo.
Pediu “dois dedinhos” para o copeiro e passou a comentar com o chapeiro a jornada do dia. Contou em detalhes as aventuras. Contou indignado sobre o tal de MP-não-sei-o-quê. Falou sobre o tal Jair e, só depois de o chapeiro explicar, entendeu que o cara trazia contrabando do Paraguai. Sorte dele não ter comprado, senão além de ficar sem almoço, ainda seria capaz de levar umas boas bofetadas. Ia ter que dormir no chão da sala.
O chapeiro, conhecido como Bahia, havia feito um curso por correspondência, daqueles que vinham anunciados nos gibis antigos, e entendia alguma coisa de eletrônica. Seu José não perdeu tempo. Em menos de cinco minutos, foi até em casa, ignorou Dona Zuleika, largou sapato, calça e camisa num canto do quarto, vestiu a bermuda surrada, a sandália de couro marrom e desceu de volta para a padoca. Sentou-se no mesmo banquinho e entregou os pedaços ao chapeiro.
Bahia deu uma boa olhada. Pediu para o Tonhão, outro copeiro, fazer as vezes dele na produção dos sanduÃches. Pegou uma faca sem ponta, remontou o aparelho e ligou. Seu José só olhava, perna esquerda chacoalhando nervosamente. Ainda bem que tinha tirado o 752. O dedinho estava quase preto de tão doÃdo. Mas o velho companheiro não havia dado sinal de vida.
Inconformado, Bahia abriu a gaveta e sacou uma lanterna. Usava a dita cuja para encontrar tomates, alfaces e queijo prato quando as chuvas de verão interrompiam o fornecimento de energia. Abriu a tampa, virou-a para baixo e pegou as pilhas. Trocou com as do radinho. Mirou o dedo no botão de ligar, olhou para o Seu José e desferiu:
- Agora é a hora da verdade. Faça figas, Seu Zé.
Ligou. Ouviram o locutor do programa vespertino anunciando a troca da torradeira da Dona Ana, do CangaÃba, pelo aparelho de ginástica abdominal passiva novo, na caixa, do Tavares, morador da Vila Medeiros. Entreolharam-se. Seu José abriu um sorriso agradecido. Estava feliz, com lágrimas nos olhos. Seu amigo havia ressucitado. Passou a acreditar que aquilo era um sinal divino de que o tricolor finalmente voltaria a ganhar o campeonato. Do outro lado do balcão, Bahia dava graças a Deus por ter finalmente utilizado aquele conhecimento do curso de correspondência para alguma coisa.
O problema eram as pilhas. Somente as pilhas. Haviam acabado, já estavam até enferrujadas. Quando caiu no estádio, as peças se soltaram porque o rádio era velho, mas nenhuma delas havia quebrado.
No momento seguinte, sentiu que o urso estava com uma vontade enorme de voltar para casa e fazer a festa a noite toda com a Dona Zuleika.


Comentário por Henrique — 22 de outubro de 2008 (13:04)
Ainda bem que no final deu tudo certo, e nao tomou bronca da patroa.
Comentário por Zé Maria — 30 de outubro de 2008 (18:47)
Beleza, Amaral, contista de mãos cheias. Parabéns.