Por um radinho de pilha - CapÃtulo 5
9 de outubro de 2008
Correu para a loja seguinte. Estava com dor de cabeça, tamanha a surra de palavras que havia levado. Mudaria a estratégia. Haveria de perguntar logo de cara, para o vendedor mais próximo da entrada da outra loja, se tinha aquele – somente aquele e mais nada agregado – equipamento. Avistou uma moça gordinha, a calça do uniforme deveria estar uns dois números abaixo do manequim dela, camisa branca com o logo da empresa no bolso, cabelo enrolado num cóque preso por uma caneta Bic sem tampa.
- Bom dia, moça! A senhora teria, por acaso, rádios de pilha para vender? PI-LHA! Sem MP-não-sei-o-que, sem negócio de “ternécs” para baixar música. Nada disso. Só um radinho simples. Tem?
- Olha, vovô – retrucou, sem ao menos olhar para o cliente. Pergunte ao rapaz da seção de rádio, está bem? Eu trabalho com lavadoras. Não sei se tem ou se não tem o que o senhor precisa. Também não faço questão de saber. Gente mais inconveniente, viu? Não se tem sossego num lugar desses, não?
Claro que não havia entendido nada, novamente. Só fez pedir desculpas e seguir loja adentro. Tudo o que sabia era que precisava procurar alguém da seção correta, porque a meiga moça da entrada da loja havia rosnado isso no começo da resposta. Sem opção, entrou. Deu uma nova olhada para a porta, para garantir que o Rottweiller de uniforme estava longe.
- Que doida!
Encontrou a tal seção e, logo ao lado, atendendo um casal, um rapaz que parecia mais simpático e de bem com a vida. Parou ao lado para ouvir a conversa, disfarçando, como se estivesse analisando outro produto qualquer. O cara respondia aquilo que era perguntado. Nem mais, nem menos. Só apresentava novas opções se os clientes perguntassem. Dava desconto e dividia qualquer equipamento em dez vezes. Era a sorte grande. Esperou até que o casal saísse satisfeito com o negócio que haviam acabado de fazer, comprando um sistema de som que só na caixa caberia um Fusca de tão grande.
Aproximou-se. Estava com medo, dada a experiência anterior com o ser raivoso na entrada. Quando percebeu o sorriso na face do rapaz, tomou coragem e perguntou:
- Moço, veja se pode me ajudar. Meu radinho de pilha quebrou e, agora, preciso comprar um novo. Mas é só radinho mesmo, AM-FM, e de pilha. Para ouvir no estádio, sabe? Em dia de jogo. Não precisa ter mais nada. Só rádio. O senhor tem? Tem?
- Bom dia, senhor…?
- José.
- Ótimo! Seu José, meu nome é Carlos. Veja se entendi: o senhor precisa de um rádio pequeno, daqueles que a gente coloca no ouvido e escuta os lances, não é? De preferência, precisa ser pequeno, para caber no bolso da camisa.
- Isso mesmo! Finalmente encontrei alguém que sabe do que eu estou falando.
- É, Seu José. Saber eu sei mas, infelizmente, não tem esse aparelho aqui na loja, não. As empresas agora lançam uns equipamentos estranhos, sabe? Cheios de frescura. Tudo digital. Mas se o senhor quiser…. chega mais….
Puxou Seu José pelo ombro, levando-o vagarosamente para um canto onde não havia outros vendedores.
- É o seguinte, Seu José. Eu tenho um primo que pode arrumar esse aparelho para o senhor. Baratinho. Peço as opções para ele, o senhor escolhe, paga – tem que ser adiantado e em dinheiro – e em uma semana, no máximo, o senhor terá o seu rádio novinho em folha, pronto para ir ao estádio. O que acha?
- Seu primo trabalha aqui?
Seguiu-se uma risada alta do vendedor, surpreso com a pergunta. Logo após, o complemento:
- Nãããooo, Seu José. O Jair, meu primo, negocia equipamentos eletrônicos IM-POR-TA-DOS, para pessoas que procuram sempre pelos melhores produtos. Assim com o senhor. Inovação. Top de linha. Tudo de primeira.
- Ah, entendi! Então devo procurá-lo na seção de importados, é isso?
- O senhor é realmente engraçado, viu Seu José? Deixa eu explicar melhor. Eu tenho um primo, entendeu? O Jair. Ele faz viagens ao exterior e, quando alguém distinto como o senhor precisa de algum eletrônico, ele compra lá fora e traz para cá. Aí a pessoa recebe um aparelho novinho, que nem saiu no Brasil ainda. E mais barato que os eletrônicos dessa loja aqui. Só vantagem, está vendo?
- Mas esse seu primo vai de avião?
- Não, não. Ele morre de medo de avião. Então vai de ônibus. É mais seguro, sabe?
- Mas de ônibus não demora muito? Não entendo muito de Geografia, mas os Estados Unidos são longe para caramba.
- E quem disse que precisa ir para os “estêites” para comprar produto bom, Seu José? Ele vai aqui no Paraguai mesmo, que é mais perto e tem muita variedade. Bem mais rápido, mais barato. Bate e volta.
- Mas ele dá nota fiscal? Porque o produto tem garantia, não tem?
- Nota, não, mas garantia tem, Seu José. A garantia sou eu. Se der problema, é só trazer o rádio para mim que levo para o Jair e peço para ele trocar. Sem demora. Rapidinho. E aí? Negócio fechado? Posso ligar para ele?
- Sei, não. É que a minha senhora é capaz de ficar brava comigo. Ela é toda certinha. Conta os centavos. Se eu não levar a nota, vai achar que gastei o dinheiro com alguma outra coisa. Depois, é um mês inteiro ouvindo bronca. Vou dar mais uma volta, está bem? Muito obrigado.
- Sem problemas, seu José. Leve aqui o meu cartão. Se quiser, é só ligar no meu celular. Negócio bom e para poucos, hein?
Ainda não havia entendido direito se o tal de Jair trabalhava naquela loja. Mas sabia que, se comprasse sem nota, estaria frito. Dona Zuleika o assaria junto com as batatas do almoço. E o serviria para a família, com molho madeira e uma maçã na boca.


Comentário por Henrique — 10 de outubro de 2008 (11:40)
Ate onde a odisseia do Seu jose vai hein?
Abçs Henrique