Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Por um radinho de pilha - Capítulo 3

1 de outubro de 2008

 

Saltou do circular Penha-Tietê na porta do shopping. Mais alguns passos e estaria dentro daquele mundo de lojas, daquele universo do consumismo. Roupas, livros, calçados, bolsas, perfume, farmácia…

- Mas cadê a loja que vende rádio?

Continuou andando e, depois de passar pela praça de alimentação, avistou um balcão onde uma moça bem maquiada gentilmente sorria para os transeuntes enquanto lixava as unhas. Na frente, uma placa onde lia-se “Informações”. Meio sem graça – odiava o primeiro contato com alguém que não conhecia – aproximou-se e perguntou:

- Mocinha, posso pedir uma informação?

- Claro, senhor. Afinal, este é um balcão de “informações”, como pode notar pelo que está escrito na placa. Em que posso ser útil?

- He he! É verdade… Desculpe. É que meu radinho de pilha quebrou e queria comprar um novo. Andei metade do prédio e não encontrei uma loja sequer que venda rádio. A senhorita saberia…

Fora interrompido por um discurso pronto, certamente desenvolvido por algum assistente pós-graduado em Marketing de relacionamento, cidadão que fica fechado numa sala com ar condicionado e jamais ouviu esse blábláblá sendo declamado ao vivo, para saber o quão irritante é.

- Rádios e eletrônicos em geral o senhor encontrará na seção Diamante do nosso shopping, onde as melhores lojas do ramo estão à sua disposição, com promoções imperdíveis. O senhor está na seção Rubi, que liga a praça de alimentação às lojas de material esportivo. Para ir à seção Diamante, volte três corredores, vire à direita, siga até a loja de brinquedos, entre à esquerda. É no final do corredor. Obrigada e o Shopping Pedras Preciosas agradece sua visita. Tenha uma ótima compra. E não perca os lançamentos do cinema. Na compra de dois ingressos, a pipoca doce é grátis.

Estava mais confuso agora. Resolveu andar um pouco mais, pela outra metade do prédio. Uma hora haveria de topar com uma loja de eletrônicos. Não tinha pressa. Ainda eram dez e pouco e Dona Zuleika não servia o almoço antes da uma.

De repente, logo ali, no final do corredor, encontrou não uma, mas quatro (repito, QUATRO) lojas de eletrônicos. Todas abertas, só para ele. Ao entrar na primeira, um dos vendedores logo se aproximou, oferecendo ajuda. Seu José, educado, respondeu o já famoso:

- Só estou olhando, obrigado!

Continuava seus passos, olhos vidrados nos rádios enormes com caixas maiores ainda, etiquetas com vários números dependuradas nas laterais dos aparelhos. Percebeu que o vendedor o seguia. Dava um passo, o cara também. Parava, o cara também. Olhava para ele, recebia um sorriso. Encabulado, repetiu:

- Obrigado, mas estou só olhando.

- Pois o senhor fique à vontade. Se precisar de ajuda, qualquer ajuda, meu nome é Orlando, está bem? OR-LAN-DO – ofereceu-se, repetindo o nome pausadamente, como se Seu José tivesse algum problema de audição ou cara de bobo para não entender.

E, óbvio, não poderia perder aquela piada.

- Obrigado, mocinho. Se eu precisar, juro que chamo você. FER-NAN-DO, não é? – Questionou, sorriso maroto no canto da boca.

- OR-LAN-DO! Estarei por perto, OK? Se precisar, já sabe: OR-LAN-DO.

 

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1 Comentário »

  1. Comentário por Henrique — 2 de outubro de 2008 (17:04)

    Oi,
    e ai cara quanto tempo hein? Tem aparecido la no juma99, to sentindo falta do seus coments. Essa historia ta muito boa, to curioso para saber o final.
    Abçs Henrique

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