Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Por um radinho de pilha - Capítulo 1

25 de setembro de 2008

 

 Seu José adorava ir ao estádio aos domingos. Do alto de seus quase 60 anos, aquela era, na semana, talvez a única oportunidade de ficar um pouco sozinho. Um momento só dele. Momento em que poderia até se dar ao luxo de filar um cigarrinho escondido e entregar-se ao prazer das baforadas.

Sua única companhia era seu velho e bom radinho de pilha. Chegava cedo, escolhia um bom lugar, ligava o aparelho e o ajeitava cuidadosamente ao seu lado. Gostava de ouvir os comentários prévios à partida. Arrumava os óculos e, sorrateiramente, procurava ao redor algum rosto conhecido, algum linguarudo que pudesse entregá-lo à Dona Zuleika, que não sabia que ele gostava de queimar um tabaquinho vez ou outra. Barra limpa, tirava o maço da pochete de curvim preto, riscava um fósforo e “puffffff” – lá se ia a primeira das quinze longas e deliciosas fumaçadas, acompanhada de uma relaxada nas pernas, uma esticada nos dedos dos pés já livres das sandálias.

Pois foi durante o jogo do tricolor contra o Vila Nova que seu velho companheiro de futebol viveu seus últimos momentos. As águas de março, aquelas que fecham o verão, fizeram-se presentes. Tão presentes que pareciam ter vindo todas de uma só vez. Chovia a cântaros, pingos gigantescos, daqueles que machucam o cocoruto. Pior era ver que seu radinho não escapava ileso. De nada adiantava protegê-lo debaixo da camisa do time. Era feita com um tecido novo que não segurava o suor. Só que não segurava a chuva também. Boas eram aquelas antigas, de puro algodão. Molhavam inteiras, ficavam pesadíssimas, grudadas na barriga, delatavam a silhueta do umbigo peludo, mas faziam barreira para a água.

Num último esforço para salvar o aparelho do naufrágio, escalou cadeiras acima até a área coberta, onde ficavam os banheiros e a lanchonete. Já estava lotado de gente e, claro, de vendedores de sorvete, cerveja e amendoim. Deste último, ainda levaria para casa uma queimadura na camiseta como lembrança, já que o cara mantinha os pacotinhos num balde metálico com carvão aceso, para manter a quentura. Buscou um lugar aqui, espremeu-se um pouquinho ali, mas não conseguia furar o bloqueio. Ouviu o último suspiro do rádio, a voz do locutor como se falasse com a boca cheia de guaraná e biscoito de polvilho. E a subsequente morte. Já era. Não funcionava mais. Tentou acionar o botão de liga e desliga repetidas vezes, numa última esperança de ressucitá-lo, mexeu no volume, mudou de estação. Nada…

Foi quando o tricolor partiu para o ataque e, num lance rápido, Adãozinho marcara um golaço. Daqueles de se esperar para ver no Fantástico como o gol da rodada, narrado por Léo Batista. E foi um tal de torcedor pulando feito louco para comemorar o gol, amendoim voando para tudo que era lado, o titio do sorvete dando caixotadas em todo mundo, molecada dando bifa na bandeja de cerveja para molhar a torcida só de sacanagem.

Espremido num canto, mas feliz da vida, entusiasmado pelo golaço que levaria seu time ao terceiro lugar - isolado - no campeonato, Seu José acompanhou a torcida e começou a pular também. Maço de cigarros numa das mãos, rádio na outra. Não demorou muito para alguém mais estabanado dar um cutucão em seu braço, justamente no que segurava seu fiel escudeiro, que partiu num vôo solitário, em câmera lenta, rumo ao chão de concreto, algumas fileiras abaixo. No trajeto, ainda se deu ao luxo de quicar num encosto de cadeira, embora não suficiente para amortecer a queda e a iminente quebra.

Com o impacto, as últimas esperanças de levar o rádio para o Luisão, zelador do prédio onde morava, dar uma olhada e tentar consertá-lo foram junto com a água, enxurrada abaixo. Estava aos pedaços. Era fratura exposta, com seus fios e transistores jogados ao relento, à mercê das gotas malignas. Seu José acompanhara a queda com os olhos descrentes e, mesmo torcendo para que nada acontecesse de pior, sabia que aquela seria a derradeira troca de olhares entre eles.

(continua…)

 

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