Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Por um radinho de pilha - Capítulo 2

29 de setembro de 2008

 

O tricolor venceu o jogo. A chuva passou. O radinho tinha virado história. Agora era hora de acender mais um cigarrinho, o último do final de semana, recolher os escombros do amigo e voltar para casa. Havia decidido que não voltaria para o estádio sem um novo rádio. E compraria um logo no dia seguinte, quando passaria no banco para sacar a aposentadoria e aproveitaria para ir ao shopping. Várias lojas no mesmo lugar que vendiam rádios, TVs e aquelas outras coisas estranhas com caixa de som para todo lado, chamadas “rômi-tíati”, se não estava enganado. Haveria de encontrar um novo companheiro de futebol. Fácil, fácil.

No dia seguinte levantou cedo, tomou banho, barbeou-se, vestiu sua melhor calça com pregas, camisa bege com regata branca por baixo, calçou um 752 da Vulcabrás e foi tomar café. Checou a página de esportes e lá estava seu honroso tricolor, firme e forte, na terceira posição. E isolado. Fabuloso.

Dona Zuleika já preparava o feijão na panela de pressão. Bobes no cabelo cobertos por um lenço florido, blusa de rendas gastas pelo tempo, calça de moleton cinza-mesclado e um par de chinelos de borracha que, por serem baixinhos, ajudavam a melhorar a circulação das pernas. Pelo menos era o que tinha ouvido falar naqueles programas matutinos só para mulheres. Sentiu que o marido a encoxara no fogão e dera-lhe um beijo no rosto. Ele estava feliz. Quando o time ganhava, tentava fazer a festa à noite, cheio de graça para a esposa. Quando perdia, virava para o lado e roncava como um urso. Naquela noite, apesar do time ter vencido, o urso dormiu ao lado dela. Não entendeu muito, mas também como não estava a fim de inventar uma desculpa esfarrapada para não ter que virar janta, abriu a 37ª. edição de Julia, comprada na banca da esquina e leu algumas páginas até dormir. Na manhã seguinte, o urso ainda roncava, quando se levantou para prender os bobes.

Depois do beijo no rosto, Seu José avisou Dona Zuleika que iria procurar um novo radinho. Ali ficou claro porque o urso pôs pijama e deitou-se ao lado dela em noite de gala do tricolor. Ele não conseguia ficar sem aquele treco. Se tivesse percebido isso antes, teria ela mesma jogado a tralha pela janela quando, quinze anos atrás, o tal time vencera o campeonato. Seu José ficou impossível. Queria jantar Dona Zuleika a cada quinze minutos de tanta alegria. E ela querendo dormir, porque teria aula de ponto-cruz logo cedo. E o urso ali, sem pijama, saltitante e no cio.

A caminho do ponto de ônibus, Seu José assobiava o hino do tricolor enquanto pensava nas possibilidades da nova aquisição: um modelo que tivesse ventilador acoplado, para se refrescar numa tarde de sol escaldante; ou um modelo à prova d’água, aí não se preocuparia mais com as chuvas de verão; ou daqueles com gavetinha para guardar objetos pequenos, como seu maço de cigarros e o dinheiro da condução; quem sabe encontraria um já com ventilador acoplado, à prova d’água e com a gavetinha porta-objetos. Como aquele velho 3 em 1 que ostentava na sala de casa: toca-fitas, vitrola e rádio, no mesmo equipamento. Incrível! Onde a tecnologia vai parar?

 

Por um radinho de pilha - Capítulo 1

25 de setembro de 2008

 

 Seu José adorava ir ao estádio aos domingos. Do alto de seus quase 60 anos, aquela era, na semana, talvez a única oportunidade de ficar um pouco sozinho. Um momento só dele. Momento em que poderia até se dar ao luxo de filar um cigarrinho escondido e entregar-se ao prazer das baforadas.

Sua única companhia era seu velho e bom radinho de pilha. Chegava cedo, escolhia um bom lugar, ligava o aparelho e o ajeitava cuidadosamente ao seu lado. Gostava de ouvir os comentários prévios à partida. Arrumava os óculos e, sorrateiramente, procurava ao redor algum rosto conhecido, algum linguarudo que pudesse entregá-lo à Dona Zuleika, que não sabia que ele gostava de queimar um tabaquinho vez ou outra. Barra limpa, tirava o maço da pochete de curvim preto, riscava um fósforo e “puffffff” – lá se ia a primeira das quinze longas e deliciosas fumaçadas, acompanhada de uma relaxada nas pernas, uma esticada nos dedos dos pés já livres das sandálias.

Pois foi durante o jogo do tricolor contra o Vila Nova que seu velho companheiro de futebol viveu seus últimos momentos. As águas de março, aquelas que fecham o verão, fizeram-se presentes. Tão presentes que pareciam ter vindo todas de uma só vez. Chovia a cântaros, pingos gigantescos, daqueles que machucam o cocoruto. Pior era ver que seu radinho não escapava ileso. De nada adiantava protegê-lo debaixo da camisa do time. Era feita com um tecido novo que não segurava o suor. Só que não segurava a chuva também. Boas eram aquelas antigas, de puro algodão. Molhavam inteiras, ficavam pesadíssimas, grudadas na barriga, delatavam a silhueta do umbigo peludo, mas faziam barreira para a água.

Num último esforço para salvar o aparelho do naufrágio, escalou cadeiras acima até a área coberta, onde ficavam os banheiros e a lanchonete. Já estava lotado de gente e, claro, de vendedores de sorvete, cerveja e amendoim. Deste último, ainda levaria para casa uma queimadura na camiseta como lembrança, já que o cara mantinha os pacotinhos num balde metálico com carvão aceso, para manter a quentura. Buscou um lugar aqui, espremeu-se um pouquinho ali, mas não conseguia furar o bloqueio. Ouviu o último suspiro do rádio, a voz do locutor como se falasse com a boca cheia de guaraná e biscoito de polvilho. E a subsequente morte. Já era. Não funcionava mais. Tentou acionar o botão de liga e desliga repetidas vezes, numa última esperança de ressucitá-lo, mexeu no volume, mudou de estação. Nada…

Foi quando o tricolor partiu para o ataque e, num lance rápido, Adãozinho marcara um golaço. Daqueles de se esperar para ver no Fantástico como o gol da rodada, narrado por Léo Batista. E foi um tal de torcedor pulando feito louco para comemorar o gol, amendoim voando para tudo que era lado, o titio do sorvete dando caixotadas em todo mundo, molecada dando bifa na bandeja de cerveja para molhar a torcida só de sacanagem.

Espremido num canto, mas feliz da vida, entusiasmado pelo golaço que levaria seu time ao terceiro lugar - isolado - no campeonato, Seu José acompanhou a torcida e começou a pular também. Maço de cigarros numa das mãos, rádio na outra. Não demorou muito para alguém mais estabanado dar um cutucão em seu braço, justamente no que segurava seu fiel escudeiro, que partiu num vôo solitário, em câmera lenta, rumo ao chão de concreto, algumas fileiras abaixo. No trajeto, ainda se deu ao luxo de quicar num encosto de cadeira, embora não suficiente para amortecer a queda e a iminente quebra.

Com o impacto, as últimas esperanças de levar o rádio para o Luisão, zelador do prédio onde morava, dar uma olhada e tentar consertá-lo foram junto com a água, enxurrada abaixo. Estava aos pedaços. Era fratura exposta, com seus fios e transistores jogados ao relento, à mercê das gotas malignas. Seu José acompanhara a queda com os olhos descrentes e, mesmo torcendo para que nada acontecesse de pior, sabia que aquela seria a derradeira troca de olhares entre eles.

(continua…)

 

Filtros da Vida (republicado)

12 de setembro de 2008

 

Madrugada dessas, insônia brava, muitos relatórios para entregar no dia seguinte, ligo meu notebook e começo a navegar na pasta de Contatos, sem saber direito o que procurar.

Uns 300 nomes na lista. “Puxa vida, tenho vários amigos!”, penso.
Resolvo fazer uma brincadeira: filtros! Invento um quesito qualquer e retiro todos os nomes e números de telefone que não dizem respeito ao critério estabelecido. Quem sobrar deverá ser alguém sinceramente importante para mim. Amigo de verdade, daqueles de guardar do lado esquerdo do peito…

Primeiro filtro: ficarão apenas aqueles que não sejam parceiros de negócios, como fornecedores por exemplo. Numa tacada só, 200 foram apagados.

Segundo filtro: retirar todos os nomes de ex-colegas de trabalho, os quais mantenho somente para alguma emergência, como perder o emprego e precisar estar em contato com o mercado. Mais uns 50 para a cucuia, sem escala.

Terceiro filtro: permanecerão apenas aqueles que, neste último ano, tenham ligado para mim, com qualquer desculpa, daquelas bem esfarrapadas, mesmo sabendo que era só para checar como eu estava. Outros 30 para lixeira.

Quarto filtro: apagar pessoas para as quais jamais contaria minhas mais íntimas confidências. Nessa, fácil, queimei 15. Opa! Restam apenas 5 nomes…

Quinto filtro: pessoas para as quais não consigo fingir que está tudo certo, porque me conhecem bem demais, capazes até de sentir, mesmo de longe, que algo está errado. Vocês 2, peguem seus banquinhos e saiam de mansinho! Agora tenho 3.

Sexto filtro: ficarão somente aqueles pelos quais eu seria capaz de abrir mão de tudo, todas as minhas conquistas, todos os meus bens, as casas, o barco, o carro importado, as viagens fantásticas, só para tê-los por perto. Quer saber? Vou deixar apenas aqueles pelos quais, sinceramente, daria minha vida se preciso fosse para vê-los felizes… minha VIDA!

………………………………….

Um a menos. Ficaram 2…

Ao ler os nomes, um aperto gostoso tomou conta do meu coração. De quebra, aquele friozinho na barriga, sorriso besta nos lábios. Pensamentos agora em tempos já tão distantes… perco-me em lembranças.

Lembro, em detalhes, de quando meu pai tirou as rodinhas da minha bicicleta e, com uma das mãos apoiadas no banquinho, deu um leve empurrão para que eu, finalmente, começasse a pedalar sem os apoios. E a vibração, a alegria de ter-me visto andar por longos… 2 metros. Para ele, uma conquista enorme! Acompanhado de um abraço gostoso…

Lembro, como se pudesse voltar no tempo, da minha mãe fazendo cafuné em mim e contando uma historinha, enquanto aguardava a minha febre baixar, calmamente sentada ao meu lado na cama. E do beijo gostoso na testa, com uma última ajeitada no lençol antes de sair.

Ah, que bons tempos! Ah, quanta alegria vivi naqueles dias, quanto amor e atenção recebi! Como sou feliz por ser filho de duas pessoas tão especiais, tão fundamentais em minha vida… E que vontade louca de abraçá-los agora, neste exato momento, para dizer o quanto os amo, o quanto são importantes, e que são os melhores amigos que alguém poderia pensar em ter.

Mas, como estou distante, e a madrugada já se faz alta, pego o telefone, digito o número e, quando alguém atende do outro lado da linha, apenas respondo:

- Oi, mãe. Desculpe, sou eu. Não, não. Está tudo ótimo. De verdade. Liguei apenas porque precisava ouvir sua voz, saber que a Sra. está por perto…. Papai está bem? Que bom! Olha, talvez não entenda direito o que vou dizer a uma hora dessas, mas quero que saiba que amo vocês de paixão, tá? Posso tomar café aí amanhã? Durmam com Deus….. Um beijo grande.

Propagandas que gostaríamos de ver - (10)

9 de setembro de 2008

 

Minha caríssima amiga, esqueça a alimentação saudável, a regularidade dos exercícios físicos ou, até mesmo, de consultar seu médico. Esse novo sabonete com essências naturais de milho verde enriquecido da Vivolino Skamasis é a fonte de energia que você precisa para o dia inteiro. É só tomar um banho de quarenta e duas horas e você sairá flutuando do chuveiro, cheia de disposição, boas energias e com sorriso danado nos lábios. E, melhor, se você tomar um pouco da água da banheira, é possível que seu intestino até passe a funcionar melhor, por causa das fibras.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 25

2 de setembro de 2008

 

ESTILISTAS 

Se você encontrar um cara perambulando pela cidade com roupas totalmente estranhas, pode apostar que é um estilista (ou publicitário). Trabalham com moda, lançam tendências, indicam o que as pessoas deverão vestir na próxima estação. Desde que você esteja disposto a trajar um terno feito a partir de tampas de garrafa pet, sua esposa queira ir à praia com um biquini de fruta do conde e seus filhos adorem combinar o uniforme da escola com sapatos de embalagem longa-vida. Inventaram que camisa branca de manga longa pode ser usada por baixo de uma camiseta preta (surrada) com estampa do Pink Floyd. E acham bonito. Entre os carros prediletos estão os Karman-Ghias. Vira e mexe, participam de algum programa de TV comentando os modelitos flagrados pela reportagem da emissora. E descem o verbo. Queria mesmo é que a tal emissora gravasse os estilistas pelas ruas e pedissem às pessoas comuns que comentassem. Seria a vingança perfeita!

 

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