Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Quando cai a ficha…

25 de julho de 2008

 

Noites atrás, recebo uma mensagem de email. Era minha esposa dizendo que, dada a correria do dia, não conseguiria chegar em casa em tempo de render a babá do nosso filhote. Já passava das oito da noite e ela teria ainda duas reuniões pela frente. Trabalho novo, oportunidade de crescimento profissional, aquele sentimento de que "tenho que provar" que a escolha do chefe, dentre tantos outros candidatos, foi acertada. E é justo. Profissional das mais competentes, merece e muito o momento positivo na carreira. Tem mais é que aproveitar mesmo.

Dado o recado, e como o final do meu dia permitia, arrumei minhas coisas, desliguei o computador e fui para casa. Seria eu a render a babá, o escolhido do dia a brincar e rolar com o Gabriel, até que desse 22 horas e o colocasse na cama. Três anos de idade. E o horário-limite é esse. Não tem negociação. No dia seguinte, é "dia de branco" (de onde será que vem essa expressão?) e todos precisam acordar cedo.

Minutos depois de chegar em casa, a babá se despede e ficamos nós dois. Eis que ele pega um brinquedo que eu não conhecia – uma caixa com inúmeras peças de madeira em cores e formatos diferentes – e a vira no chão. Li na lateral da caixa que aquelas peças, quando corretamente montadas, tornavam-se uma casinha – com janela e porta. Ele me pediu para ajudá-lo a montar e assim o fiz, ambos largados no chão da sala, ao som de “Monstros S.A.” no DVD.

Foi quando algo muito bacana aconteceu. Enquanto montávamos a casinha, perguntei como havia sido o dia dele, se tinha brincado na escolinha, se divertido, se tinha visto o amiguinho. Aquele papo careta de pai interessado na vida do filho. Aquele papo que, depois de certa idade, é bom evitar, para não ouvir resmungos dos adolescentes… Ele ia respondendo meio com um gesto com a cabeça, meio falando sem olhar para mim e prestando uma atenção danada na atividade. De repente, percebendo que eu não estava lá ajudando tanto quanto deveria, pegou a minha mão e disse: “Papai, você também é meu amiguinho. Ajuda aqui.”

Talvez me faltem palavras para expressar o que senti na hora, mas vou tentar: sabe aqueles filmes em que, quando algo impactante acontece, o mundo desacelera, quase pára, as pessoas se movimentam lentamente, e a personagem principal parece perdida numa outra dimensão, apesar de estar ali mesmo? Ao mesmo tempo, um frio gostoso mas estranho percorre as costas. É engraçado, mas você fica perdido. Completamente.

Não sei quanto tempo durou a sensação (o que importa?). Só sei que, daquele momento em diante, a relação pai-filho foi estendida a um patamar diferente, maior. Permaneci olhando para ele, incrédulo. Um misto de orgulho, de conquista, de felicidade, com um frio danado na barriga. E ele ali, descobrindo onde encaixar a próxima peça, sem saber o tsunami que tinha causado com uma simples frase. É engraçado perceber que aquele menino nanico me via não somente como um “simples” pai, mas me via (e vê) como um amigo. Caiu a ficha: quando você tem um amigo, amigo mesmo, de verdade, não importa a distância, seja ela medida em metros ou horas. Será sempre seu amigo. Muitas vezes, basta um telefonema, um e-mail, e todas aquelas sensações, aquelas aventuras que viveram juntos, vêm à tona. E a relação entre pais e filhos deveria sempre ser baseada em amizade, em respeito mútuo, em diversão, descobertas. Porque é exatamente isso o que acontece com os pais. Eles DESCOBREM um monte de coisas novas quando passam pela experiência de ter filhos.

Assim será com ele: meu filho, para o resto da vida. E, melhor ainda, meu grande (ainda nem tanto, porque ele é nanico) amigo.

Amo você, filhote.

 

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1 Comentário »

  1. Comentário por Joselma Noal — 28 de julho de 2008 (14:02)

    Muito obrigada pelo comentário no meu blog. E continua curtindo bastante teu filho-amigo pq é com estes pequenos momentos, como tão bem relatraste em “Quando cai a ficha”, que a gente aprende a ser feliz. Aguardo o teu comentário sobre o meu livro. Um abraço, Jô

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