Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Guia bem (mal) humorado das profissões - 16

31 de julho de 2008

 

CANTORES DE MÚSICA SERTANEJA

 

Esses sim, ao contrário dos jogadores de futebol, são uns coitados. Sua namoradas, esposas, amantes, periquitos e porquinhos-da-Índia os abandonam sem dar quaisquer satisfações. Afundam-se facilmente em crises de depressão e passam a duvidar do verdadeiro significado do amor, o qual os faz sofrer alucinadamente, muito bem expressas em (todas) suas músicas. Sempre vêm em bando, digo, em duplas, formadas normalmente com primos franzinos, lá nas infâncias sofridas, entre as colheitas de cana e arroz. O menos desafinado canta mais alto. O outro canta sempre baixinho, porque não há Cristo que aguente uns decibéis a mais daquele cara. Adoram brilho e franjinhas penduradas nas jaquetas, combinando com as mesmas calças jeans que usavam aos doze anos de idade (aquilo deve doer um bocado). Obrigatoriamente, um tem que tocar violão. Se os dois aprenderem, então, é sucesso garantido. Em algum momento, devem tentar carreira solo.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 15

30 de julho de 2008

 

JOGADOR DE FUTEBOL

 

Um coitado sem sorte na vida. Acorda todo Santo dia, vai jogar bola, é famoso, ganha mais dinheiro que banqueiro, vive cercado de mulher bonita, fica hospedado em hotel de primeira classe quando está em concentração e, apesar de tudo isso, se acha injustiçado. Tudo porque não consegue entender as vaias da torcida (que ingratos, não?) quando ele arremata a jogada com um chute de bico, indo a bola parar aos pés do Kilimanjaro. Acha que jornalista faz pergunta esdrúxula, mas só sabe responder com três ou quatro frases de efeito: “o time jogou bem”, “fizemos o que o professor mandou”, “futebol é uma caixinha de surpresas”, e “importante foi conquistar o três pontos”. É o maior consumidor de carros importados, cordões de ouro e óculos escuros gigantescos. Promete que jamais deixará o time mas, sempre que arruma uma boquinha na Europa, passa a reclamar que não há mais clima e que sair é a melhor solução para todos. Os mais desenvoltos viram técnicos ou, com sorte, comentaristas.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 14

29 de julho de 2008

 

MOTOBOYS

 

Crêem que os carros são pilotados sob trilhos e que não podem, de forma alguma, mudar de pista. Imaginam que os poucos motoristas que têm vida própria são Thundercats e possuem visão além do alcance. Têm mira a laser e acham que espelhos retrovisores arrancados dos carros contam pontos no PlayStation. Jamais fazem revisão em suas motos porquem não podem perder tempo. Devem ser aficcionados pela novela das 6, já que voam desesperados para casa quando dá o horário. Se você também é motoqueiro, está com pressa, mas dá azar de encontrar um motoboy passeando, azar seu. Ele jamais dará passagem e não está nem aí para você. Chega a ponto de batucar um pagode no guidão. Agora, se você estiver passeando com sua moto e um motoboy grudar atrás de você, saia da frente o quanto antes. Ou sai, ou ele vai passar literalmente por cima. E seja o que Deus quiser, mano.

 

Quando cai a ficha…

25 de julho de 2008

 

Noites atrás, recebo uma mensagem de email. Era minha esposa dizendo que, dada a correria do dia, não conseguiria chegar em casa em tempo de render a babá do nosso filhote. Já passava das oito da noite e ela teria ainda duas reuniões pela frente. Trabalho novo, oportunidade de crescimento profissional, aquele sentimento de que "tenho que provar" que a escolha do chefe, dentre tantos outros candidatos, foi acertada. E é justo. Profissional das mais competentes, merece e muito o momento positivo na carreira. Tem mais é que aproveitar mesmo.

Dado o recado, e como o final do meu dia permitia, arrumei minhas coisas, desliguei o computador e fui para casa. Seria eu a render a babá, o escolhido do dia a brincar e rolar com o Gabriel, até que desse 22 horas e o colocasse na cama. Três anos de idade. E o horário-limite é esse. Não tem negociação. No dia seguinte, é "dia de branco" (de onde será que vem essa expressão?) e todos precisam acordar cedo.

Minutos depois de chegar em casa, a babá se despede e ficamos nós dois. Eis que ele pega um brinquedo que eu não conhecia – uma caixa com inúmeras peças de madeira em cores e formatos diferentes – e a vira no chão. Li na lateral da caixa que aquelas peças, quando corretamente montadas, tornavam-se uma casinha – com janela e porta. Ele me pediu para ajudá-lo a montar e assim o fiz, ambos largados no chão da sala, ao som de “Monstros S.A.” no DVD.

Foi quando algo muito bacana aconteceu. Enquanto montávamos a casinha, perguntei como havia sido o dia dele, se tinha brincado na escolinha, se divertido, se tinha visto o amiguinho. Aquele papo careta de pai interessado na vida do filho. Aquele papo que, depois de certa idade, é bom evitar, para não ouvir resmungos dos adolescentes… Ele ia respondendo meio com um gesto com a cabeça, meio falando sem olhar para mim e prestando uma atenção danada na atividade. De repente, percebendo que eu não estava lá ajudando tanto quanto deveria, pegou a minha mão e disse: “Papai, você também é meu amiguinho. Ajuda aqui.”

Talvez me faltem palavras para expressar o que senti na hora, mas vou tentar: sabe aqueles filmes em que, quando algo impactante acontece, o mundo desacelera, quase pára, as pessoas se movimentam lentamente, e a personagem principal parece perdida numa outra dimensão, apesar de estar ali mesmo? Ao mesmo tempo, um frio gostoso mas estranho percorre as costas. É engraçado, mas você fica perdido. Completamente.

Não sei quanto tempo durou a sensação (o que importa?). Só sei que, daquele momento em diante, a relação pai-filho foi estendida a um patamar diferente, maior. Permaneci olhando para ele, incrédulo. Um misto de orgulho, de conquista, de felicidade, com um frio danado na barriga. E ele ali, descobrindo onde encaixar a próxima peça, sem saber o tsunami que tinha causado com uma simples frase. É engraçado perceber que aquele menino nanico me via não somente como um “simples” pai, mas me via (e vê) como um amigo. Caiu a ficha: quando você tem um amigo, amigo mesmo, de verdade, não importa a distância, seja ela medida em metros ou horas. Será sempre seu amigo. Muitas vezes, basta um telefonema, um e-mail, e todas aquelas sensações, aquelas aventuras que viveram juntos, vêm à tona. E a relação entre pais e filhos deveria sempre ser baseada em amizade, em respeito mútuo, em diversão, descobertas. Porque é exatamente isso o que acontece com os pais. Eles DESCOBREM um monte de coisas novas quando passam pela experiência de ter filhos.

Assim será com ele: meu filho, para o resto da vida. E, melhor ainda, meu grande (ainda nem tanto, porque ele é nanico) amigo.

Amo você, filhote.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 13

23 de julho de 2008

 

ECONOMISTAS

Assim como os corretores de seguros, são os caras mais secadores e pessimistas que existem. Toda manhã criam uma nova teoria, na qual o mundo entrará em colapso, as economias emergentes desaparecerão, as potências mundiais virarão deserto. Nunca acontece. Acham que até mesmo os fenômenos da natureza, como terremotos e erupção de vulcões são causados por forças macroeconômicas que, na verdade, querem desestabilizar o câmbio e causar inflação. Sabem de cabeça o preço do pão francês e o quilo da farinha (em dólar). Só não lembram o aniversário da esposa, a não ser que coincida com a crise da Rússia. Metódicos, têm em planilhas de Excel o número médio de passos necessários para comprar pão de queijo no boteco da esquina, comparado com o tempo gasto para a atividade. Se quiser deixá-los completamente perdidos, basta roubar o caderno de Economia do jornal que assinam.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 12

22 de julho de 2008

 

GUARDAS DE TRÂNSITO

 

Como o próprio nome diz, são pessoas que zelam pelo trânsito. Estão ali para causá-lo, não evitá-lo. Senão, seriam guardas de vias livres, concorda? Sempre que uma grande avenida está estranhamente desafogada, rapidamente aparecem três ou quatro viaturas, com algumas duplas de guardas uniformizados, jogando cones e barris de sinalização, para causar tumulto. Outra arma é fechar completamente as saídas daquela avenida, fazendo com que você vá do Ibirapuera ao centro de São Paulo via Campos do Jordão. Algumas vezes ignoram os faróis e seguram o trânisto enquanto uma Kombi sendo empurrada atravessa a praça da Sé inteira, sem ser incomodada. Se a coisa apertar, recebem ajuda de recapeadores de asfalto e lavadores de túnel, que cismam em bloquear os acessos às 8h30 ou 17h35. Multam à bel prazer quem ousa estacionar o carro um centímetro fora da área marcada, mas não hesitam em fazer conversões proibidas e jogar suas caminhonetes em cima de praças gramadas.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 11

18 de julho de 2008

 

ADVOGADOS

 

Passam os cinco anos da faculdade decorando os termos mais complicados do dicionário, só para escrever cartas e autos e textos que ninguém entende. Precisam invariavelmente ter curso de datilografia, porque advogado que “cata milho” enquanto digita não é advogado que se preze. Precisam sempre pesquisar nos livros as leis e regulamentações, não por causa da complexidade delas mas, sim, porque estudar o dicionário tomou todo o tempo que tinham para compreender a legislação. Se você tiver um problema para resolver, eles sempre têm a solução, apesar dos caminhos serem os mais longos da sua vida. O cerne da profissão é “como posso sacanear o outro advogado, sabendo que é exatamente isso o que ele vai tentar fazer comigo?”. Importante frisar a aparência: estão sempre na última moda e são mais ousados que os marqueteiros nas combinações de camisa e gravata. Acham que alguém realmente presta atenção em suas longas e cansativas explicações por mais de dois minutos. Zzzzzzzz!

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 10

17 de julho de 2008

 

BANQUEIROS

 

Se Deus precisasse aprender algo, seria com eles. Ganham uma fortuna, dizem que trabalham demais, mas estão sempre comentando sobre a rodada de futebol, repassando e-mails de piadas, contando gafes dos clientes e cutucando seus palm-tops em reuniões que não levam a lugar algum. Jamais dizem “bom dia” para quem quer que seja no elevador, a não ser para o chefe ou para o presidente. Nunca andam devagar, para que todos achem que eles sempre estão atrasados. Fáceis de contatar até num domingo logo cedo. Basta ligar no número do escritório, onde estarão ocupadíssimos lendo o jornal. Amam termos em inglês, mesmo que estejam jogando truco. Implicam com os custos dos clipes utilizados pela Expedição, mas jamais se hospedarão em um hotel mais barato em viagem de negócios. Pelo jeito, não dão a mínima para o aquecimento global, já que deixam várias TVs ligadas pelo andar, todas SEM SOM, sintonizadas naqueles canais chatíssimos com índices do mundo passando para lá e para cá. E, claro, para as quais ninguém olha.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 9

16 de julho de 2008

 

DENTISTAS

 

Como os taxistas e os cabeleireiros, adoram uma boa conversa, apesar de odiarem as opiniões alheias. Sempre que fazem uma pergunta ao paciente, borrifam água na boca do cara, provavelmente para serem poupados das bobagens que estariam por vir. Acham que as pessoas dispõem de 4 horas por dia somente para a higiene bucal, divididas em, no mínimo, cinco sessões. Assistem novela massageando as próprias gengivas com escovas sem pasta. Preferem combater a cárie e o tártaro a pegar um cinema. Vêem na pipoca seus piores inimigos, já que a casca do milho pode entrar na gengiva e explodir suas bocas, lentamente. Por mais que você faça uso de fio dental e antisépctico bucal, nunca o faz corretamente. Como qualquer pessoa normal, têm 52 escovas abertas e em uso, dependendo do cardápio escolhido no almoço. Provavelmente, utilizam vodca barata como anestésico, porque você sempre sentirá uma dor infernal num tratamento de canal, apesar de passar o resto do dia babando pelo canto da boca e falando engraçado.

 

Guia bem (mal) humorado das profissões - 8

15 de julho de 2008

 

TAXISTAS

 

Pelo nível de conhecimento sobre todos os assuntos, aposto que são, na verdade, cabeleireiros fazendo um extra enquanto dirigem-se aos salões. Opinam sobre tudo, até a guerra da Bósnia, dizendo que “aquele cara lá, o ditador, só pode ser louco”. Pisca-pisca e espelho retrovisor são realmente acessórios e nunca devem ser usados. Preferem utilizar os braços para fora da janela e torcer o pescoço. Danem-se os motoristas que estiverem por perto. Adoram cobrir o banco com aqueles massageadores de bolinhas, dizendo que faz bem para as costas – mesmo que corram o risco de enfiar a cara no painel quando de uma freada brusca. Deveriam pagar IPTU pelo veículos, não IPVA, já que acham que as ruas são as salas das casas deles, podendo estacionar em qualquer avenida, a qualquer horário, para que os passageiros desçam. São corajosos, sendo os únicos seres no planeta machos o suficiente para fechar ônibus e achar que o cara é que tem de brecar.

 

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