Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Diário de Bordo (11)

16 de junho de 2008

Dia 2 de junho

 

Voltei ao mesmo lugar de ontem para colher amostras da água. Quando parei o quadriciclo, os bichos saíram das tocas para me ver e se cutucavam, como se chamassem a atenção dos outros para não perderem os detalhes. Um deles começou a imitar o meu jeito de andar e fazer o “nhec nhec” com a boca. Não dei bola e abaixei para recolher a água. O fundilho da porra da calça rasgou. Vou quebrar a costureira na porrada. Fiquei com meia bunda de fora, apontando para os bichos. Eles quase choraram de tanto rir. Entrou ar de Kágon pelo buraco. Consegui respirar sem problemas. Subi no quadriciclo e, como estava puto pelo ocorrido, ao passar pelos bichos, soltei um “arzinho” da Terra para eles se divertirem. E foi daqueles sem barulho. E pum de ração de gato. Um deles desmaiou. Outro correu para dentro da toca. Eu parei o quadriciclo e comecei a rir. Era a minha revanche. Ouvi passos pesados vindo na minha direção. Senti um frio na espinha. O quadriciclo morreu. Tentei ligá-lo e nada aconteceu. Olhei para trás e vi que o bicho que havia corrido para dentro da toca agora saía acompanhado de um bruta-montes gigantesco e apontava para mim. E eu lá, de bunda de fora, num quadriciclo enguiçado, pronto para virar churrasco de Kágonianos. Triste fim. O bichão apertou o passo. Era questão de segundos para eu virar moqueca. Tentei acionar a ignição de emergência e funcionou. Acelerei tudo o que podia. O monstro não conseguiu acompanhar. Cheguei salvo à nave. Não volto mais lá. Se quiserem novas amostras, que peçam ao dono do jornal sensacionalista, ao cara que projetou o banheiro ou à costureira.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (10 e meio)

13 de junho de 2008

Dia 1 de junho

 

Aproveitei um dia bonito e fui explorar lugares mais distantes. Encontrei vida. Bichos mansos e pequenos, curiosos com o quadriciclo. Alguns chegaram perto do transporte, mas não tentaram nada agressivo. Ainda bem. Eles se comunicam numa linguagem realmente diferente. Não dá para entender nada. Achei que, em determinado momento, riram da calça apertada da minha roupa. Até mímicas fizeram. Quase peguei minha pistola alteradora de matéria para dar um susto neles, mas fiquei com receio de que fossem apenas filhotes e a mãe deles viesse tomar satisfações. Como a megera da minha sogra.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (10)

12 de junho de 2008

Dia 31 de maio – maio tem 31? Ah! Que se dane.

 

Dei uma volta numa área próxima à nave, ainda com o capacete para respirar a mistura correta de ar. Se o cara que projetou o computador que avalia os gases foi o mesmo que fez o banheiro, certamente estou ferrado. Solo rico, vegetação rasteira. A água dos rios é um pouco mais cremosa que a da Terra, mas límpida. Existe uma fonte de luz parecida com o Sol, mas com raios azuis. Parece que jogaram azul de metileno em tudo por aqui. Recolhi amostras do solo. A terra é fofa. Fez uma fumaceira danada. Quando agachei, meu bilau foi esmagado pela calça apertada da roupa. Foram quinze segundos sem conseguir respirar direito.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (9)

11 de junho de 2008

Dia 30 de maio.

 

Pouso suave. Motores desligados. Roupa especial vestida – a costureira larápia apertou demais a pença na lateral das pernas e, agora, o traje parace uma calça-bailarina na parte de baixo. Ainda bem que estou sozinho. Ninguém para me zoar. Conforme ando, ouço um “nhec nhec” do macacão pegando nas pernas suadas. Faz calor nessa terra. Terra não, Kágon. Terra é o MEU planeta. Utilizei o computador de análise de gases e o resultado mostrou que a composição do ar é bem parecida com o da Terra – o planeta. Amanhã explorarei o terreno com o quadriciclo e recolherei amostras.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (8)

10 de junho de 2008

Dia 29 de maio.

 

Não dormi essa noite pensando que a broaca deve ter convidado o Zé para o aniversário da Maria, só de sacanagem. Velha filha da… Opa! Desculpe. Controles OK! Estou a algumas centenas de metros da aterrisagem. Dentro de poucas horas pousarei tranquilamente. Mais alguns ajustes nos controles e prenderei o cinto de segurança. Agora é só aguardar. Potes de amostras prontos. He he! Pelo jeito, ao invés de projetarem potes especiais, compraram os de exames de fezes na farmácia perto do campo de lançamento. Verba curta, vai fazer o que? Tem que cortar custo de todo lado.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (7)

9 de junho de 2008

 

Dia 28 de maio.

 

Acordei cedo com um sinal dos controles. Kágon está perto e fiz todos os procedimentos necessários para a aterrisagem ser perfeita. Nas próximas horas deverei estar pronto para abrir a escotilha e desembarcar no planeta. Lembrei que hoje é aniversário da Maria, minha namorada. Tomara o Seu Carlos, da floricultura, entregue as rosas que encomendei. Estou com saudades, mas feliz porque não precisarei enfrentar a broaca da minha futura sogra, querendo me empaturrar com sanduíche de metro, cerveja quente e dizendo que o Zé, antigo namorado da Maria, que era homem de verdade. Ô mulher chata. Vou comer menos para ver se sobra alguma lata de ração, para dar de presente para ela.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (6)

6 de junho de 2008

Dia 27 de maio.

 

Finalmente os controles começam a acusar a proximidade do tal planeta. Sinto que essa missão era para ser minha mesmo. Planeta Kágon. Foi o que eu mais fiz nesses últimos dois dias. Tomara encontre algumas frutas para não precisar comer a ração e dar um tempo para o fiofó se recuperar. Controles OK! Combustível OK! Ruim mesmo foi o ataque de piriri logo depois de ter ficado dez minutos sentado sobre as mãos. Não conseguia baixar a calça de jeito nenhum. Vai ser burro assim lá longe – que é onde estou. Como alguém com diarréia brinca de fazer os braços dormir?

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (5)

4 de junho de 2008

Dia 26 de maio.

 

Controles OK. Piriri ainda está presente. Meu fiofó não aguenta mais. A tal expressão “até fazer bico” está comprovada. Só não vou fotografar, porque pode pegar mal. Certamente, algum engraçadinho vai colocar as imagens na internet, aí vai ser piada para o resto da vida. Enquanto não chego no planeta-alvo, a missão é um marasmo. Para passar o tempo – e como a maior parte dele gasto no banheiro – comecei a escrever frases na porta, como nos toaletes masculinos da rodoviária. Já escrevi “Aê, cagão! Tô de olho em você!”, “Nossa, que bunda macia. Ass.: privada”, e bem pequenininho, para forçar que eu levante as nádegas do assento e chegue com a cabeça bem perto da porta, para conseguir ler “Senta direito porque você está cagando fora da bacia, imbecil!”. Pior é que sempre levanto para ler essa frase. E sempre dou risada de mim mesmo.

 

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (4)

3 de junho de 2008

 

Dia 25 de maio

Tive piriri hoje cedo. Apertei sem querer o botão da descarga e quase tive a bunda sugada pelo vácuo. Quem projeta banheiro de avião e de nave espacial não faz idéia da aventura que é utilizá-lo. Principalmente para um cara acima da média de altura da população. Quando preciso fazer o “número 2”, tenho que entrar no banheiro, enfiar a cara na parede do fundo, fechar a porta desviando as nádegas lentamente do caminho, virar, baixar as calças, abaixar a bunda SEM inclinar a cabeça para frente – aprendi isso depois de ter enfiado a testa na porta pela terceira vez. Após sentar, não consigo ficar com as pernas dobradas, porque o espaço entre a privada e a porta é menor do que o banco traseiro de um carro popular. Então são pernas para cima, pés apoiados na porta – com a marca das minhas cabeçadas ao centro - e joelhos quase na minha boca. Quando descobrir quem projetou esse banheiro, vou marcar um encontro desse cara com o dono do jornal sensacionalista e quebrar os dois na porrada.

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (3)

2 de junho de 2008

Dia 24 de maio.

Devia ter usado minha habilidade para pilotar e ter ficado na Aeronáutica. Ou como motorista naquela empresa de ônibus perto de casa, linha Osasco – Santo Amaro. Pelo menos cumpriria a missão diária e voltaria para casa cedo. Todos os controles estão OK. A comida continua uma lástima. À tarde, como não tinha nada para fazer mesmo, fiquei brincando de sentar em cima da mão por alguns minutos e ver até onde o braço dormia. Consegui chegar até o cotovelo e dos dois braços ao mesmo tempo. Difícil foi coçar o nariz logo depois. Sem controle dos membros, fui quase a nocaute com tanta bofetada que tomei.

(continua… noutro dia…)

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