30 de junho de 2008
Dia 12 de junho
Choveu em São Paulo. O trânsito está parado. Faz horas que estou preso na Marginal. Ainda não consegui chegar em casa desde que desci da nave. A Maria dirige o carro com a mãe ao lado. A velha louca não pára de contar tudo o que a filha fez, o quanto passeou, o quanto se divertiu, enquanto eu estava fora. Reclama do cheiro, achando que é do rio poluído ao nosso lado. Mal sabe ela que é da minha cueca suja. E, como eu já imaginava, disse que convidou o Zé para o aniversário da filha. As flores foram entregues, mas não duraram dois dias. “Buquê barato é isso”, foi o comentário que tive que ouvir. Na próxima viagem para algum planeta distante, vou tentar levar a sogra no bólido e jogá-la pela janela. E, junto, voarão algumas latas de ração para ela sobreviver bastante tempo. De preferência, sem banheiro.
FIM
27 de junho de 2008
Dia 11 de junho
Tudo pronto. A nave já está em posição de descida. É só deixar que o computador a leve tranquilamente ao solo. Vejo pessoas lá na base. Alguns estão tirando fotos, porque dá para ver os “flashes”. Sou praticamente um herói. Passarei a semana inteira dando entrevistas em redes de TV e rádio. Darei autógrafos pela rua. Acho que escreverei um livro. “A saga do herói interplanetário” será o título. Virarei um campeão de vendas. A Maria se casará comigo rapidamente. Iremos morar na Europa, assim a mãe dela não aparece. Morre de medo de avião. Deve ser por isso que me odeia. Tem medo de avião e a filha namora um astronauta. Bem feito, velha chata. A nave acaba de tocar o solo. Despressurizar cabine. Checar amostras. Guardar a lata de ração no bolso. Vou descer. Até a próxima, minha querida nave companheira de tantas aventuras. Logo mais nos veremos novamente para uma próxima viagem emocionante.
(continua… noutro dia…)
26 de junho de 2008
Dia 10 de junho
Já consigo ver a Terra. Vou ter que ficar rodando um dia inteiro em órbita, para fugir do rodízio. Azar dos grandes. Se tudo der certo, amanhã pousarei em segurança na minha cidade. Espero que a Maria esteja lá para me receber. Quer dizer, se recebeu as flores no aniversário, estará lá. Se o Seu Carlos não entregou, estou ferrado. Quando aterrisar, vou saber rapidamente meu futuro. Se minha futura sogra estiver rindo, eu já era. Se estiver com a cara daquele monstro de Kágon, fiz direitinho minha lição de casa. Guardei mesmo uma lata de ração para ela. Vou dizer que é ótimo para a pele. Quero ver a velha se refastelar na gororoba e depois ficar três dias sem poder pisar na sala.
(continua… noutro dia…)
25 de junho de 2008
Dia 9 de junho
Saco. Está acabando minha água. Tenho que fazer bico e tomar goles nanicos, para racionar. Nem dar goladas para empurrar a ração eu vou poder mais. Vai ter que ser a seco. Pior, não vou conseguir lavar minhas duas cuecas, senão ficarei totalmente sem água. Terei que fazer revezamento mesmo. Para quem passou alguns dias quase morando num banheiro sem aqueles odores de borrifar, cheiro de cueca suja é perfume.
(continua… noutro dia…)
24 de junho de 2008
Dia 8 de junho
A viagem de volta costuma ser mais rápida. Os computadores acertam a trajetória de vinda e já configuram os desvios dos obstáculos na volta. Isso é bom, porque eu estou com uma saudade danada da Maria. E de jogar um futebolzinho com os amigos. E de colocar meu shorts folgado e deitar no sofá para assistir filmes durante a tarde. Ai, ai. Férias. E com comida boa e banheiro digno. Controles OK.
(continua… noutro dia…)
23 de junho de 2008
Dia 7 de junho
A nave decolou tranquilamente. Do alto, dei uma última olhada para o planeta Kágon. Todos os bichos, pequenos e grandes, estavam atrás das moitas. Agora sim o planeta tinha um nome adequado aos seus habitantes. Até que fiquei com dó deles, sabia? Ninguém merece uma comida daquelas. Muito menos o “resultado” que vem em seguida. Mas agora é ir para casa. Uma viagem longa de volta me aguarda. Latas e latas de ração. Banheiro apertado. Melhor tirar o macacão. Se me der piriri novamente e eu estiver com essa porra de calça apertada, vou fazer nas pernas.
(continua… noutro dia…)
20 de junho de 2008
Dia 6 de junho
Nave pronta. Potes de amostras acondicionados na maleta. Combustível OK. Controles OK. Aguardo o piloto automático dar a ignição dos propulsores. É tudo controlado por computador hoje em dia. Ainda bem que não tem senha. Não lembro nem a do cartão do banco, imagina ter que lembrar de outra. Dei uma olhada pela janela e vi que o monstro, aquele maior que tentou me pegar, estava agachado atrás de um arbusto. A cara era horrível. Dor e alívio ao mesmo tempo. Uma lágrima solitária corria de seus olhos. Quem mandou comer a ração? Viu o quanto eu sofro?
(continua… noutro dia…)
19 de junho de 2008
Dia 5 de junho
Consegui dormir um pouco, mas acordei assustado com um pesadelo horrível. Aquele animal gigantesco me perseguia num labirinto e, quando conseguiu me pegar, olhei para o seu rosto e vi a fisionomia da minha sogra, rindo sarcástica, com mandíbulas abertas prontas para me devorar. Ainda bem que foi só um sonho ruim. Mas que a velha combinou no papel de monstro, combinou. Comi uma porção de ração – blergh! – e saí atrás das amostras de plantas, indo para o outro lado. Queria evitar encontrar a família inimiga de novo, a todo custo. Amostras recolhidas. No caminho de volta, quando avistei a nave, percebi que não estava sozinho. Os bichos – todos eles – haviam encontrado meu bólido. Parei o quadriciclo e desliguei o motor. Fiquei escondido atrás de um arbusto. Os pequenos entravam na nave e saíam com as latas da minha ração. Os grandes rasgavam a embalagem de metal e todos experimentavam a massaroca. Dois minutos depois, debandada geral. Acho que nem os intestinos de outro mundo são capazes de suportar aquela gororoba fedorenta e sem gosto. Pelo menos o banheiro deles não devia ser o mesmo que o meu. Voltei para a nave. Tinha que preparar os equipamentos para ir embora. Tomara tenham deixado uma lata para levar para a minha sogra. Mas tem bastante, isso não será um problema. A velha me paga.
(continua… noutro dia…)
18 de junho de 2008
Dia 4 de junho
O quadriciclo está em ordem. Nada consta de problema. Que estranho! Acho que foi mera coincidência, mas quase virei comida de seres de outro planeta. Mais um que vou quebrar na porrada: o mecânico. Não consegui dormir direito novamente, então peguei o baralho e fiquei jogando paciência. Perdi todas as partidas. Até nas que roubei. Vai ser ruim assim lá longe. Bom, então está tudo certo, porque SOU ruim e CONTINUO longe. Ainda com medo, não consigo comer. Só de pensar no gosto da comida enlatada, fico enjoado. Vou adiar a coleta de vegetação para amanhã, quando os bichos deverão ter se esquecido de mim.
(continua… noutro dia…)
17 de junho de 2008
Dia 3 de junho
Passei a noite em claro, com medo de ser encontrado por aqueles seres malignos. Peguei agulha e linha e costurei o buraco do macacão. Ainda falta pegar algumas amostras de vegetação. Vou dar um tempo aqui dentro. Só sairei amanhã. Se os bichos aparecerem, ligo o campo magnético, dou partida na nave e sumo daqui. Vou aproveitar e ver que raios aconteceu com o quadriciclo.
(continua… noutro dia…)