Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Diário de Bordo (2)

30 de maio de 2008

(esse é um conto que será publicado aos pedaços, dia após dia - ou semana após semana, sei lá… espero que gostem!)

 

Dia 23 de maio.

Continuo pilotando em direção ao planeta nanico. Puta vida! Como é longe. E eu que reclamo de pegar algumas horas de trânsito na Marginal Pinheiros para voltar para casa. Controles de bordo estão OK. Combustível OK. Só a comida, essa porcaria enlatada, que poderia acabar logo. Queria saber por que a empresa que faz essas comidas se dá ao trabalho de criar rótulos diferentes para sabores diferentes. Todas têm o mesmo sabor: ração de gato. Que usem o mesmo rótulo, então.

(continua… noutro dia…)

Diário de Bordo (1)

29 de maio de 2008

(esse é um conto que será publicado aos pedaços, dia após dia - ou semana após semana, sei lá… espero que gostem!)

 

 

Dia 22 de maio.

Aqui estou em minha nave espacial, pilotando tranquilamente pelas galáxias intermináveis, adiantado para a minha missão. Dei uma baita sorte de pegar todos os faróis abertos no caminho. A placa do meu bólido metálico – apelido carinhoso porque a bicha é bem veloz - é final 9, então estou livre do rodízio. Preciso colher amostras de solo, água e vegetação num tal de Kágon – acho que é isso – um planeta nanico e muito, muito distante.

Quando voltar, os estudiosos do planeta onde vivo, a Terra, farão testes avançadíssimos com as amostras, para identificar se é possível desenvolver o planeta-alvo como filial do nosso planeta azul. Corre pelas galáxias que nesse tal planeta distante o solo é bom para plantar e existem até praias, com água salgada, areia e tudo mais. Houve um jornal sensacionalista que divulgou fotos sobre esse lugar. E é por isso que estou aqui. Sempre que algum idiota resolve publicar fotos de algum ponto distante, sou convocado para as primeiras expedições. Ainda hei de descobrir quem é o dono desse jornal e vou partir o cara na porrada.

 

(continua… noutro dia…)

Propagandas que gostaríamos de ver - (7, 8 e 9)

15 de maio de 2008

“Adquira já este poderoso aparelho de som com 100 milhões de Watts de potência, triple surround, mega band, 70 níveis de volume e caixas acústicas com subwoofer, twiter, plantater, bailader e de dimensões astronômicas. O som perfeito para quem quer emoção nas alturas. Vem equipado com sleeping-bag – afinal, você precisará tirar sua cama do quarto… os dois juntos não cabem no cômodo – e um aparelho auditivo de encaixar no ouvido, para quando seus tímpanos não funcionarem mais. Na compra desse aparelho, você ainda recebe uma lista com indicações de advogados que podem defendê-lo caso algum morador do seu prédio queira processá-lo por ousar ligar o equipamento depois das 22 horas.”

“A margarina Plenitude é a coisa mais gostosa que já inventaram. Acredite. Seu sabor é tão formidável, que sua família acordará feliz da vida e com um baita bom humor todos os dias, só esperando ansiosamente para comê-la num pão quentinho. Mesmo que seu filho tenha uma prova ferradíssima de Física, ainda assim estará cantando e dançando. Até seu marido, que está puto com o chefe, esquecerá os problemas por causa da margarina. É impressionante! Porque nada, absolutamente nada é mais importante na vida de um ser humano do que a margarina Plenitude.”

“Viva melhor! Com esse tênis com sensor de pisada, rádio AM-FM, solado anti-derrapante, conta-giros, medidor de pressão arterial e desfibrilador, você pode até mesmo fugir de um leão enfurecido. Porque é exatamente isso que você vai fazer ao comprar um tênis. Viajar para a África e desafiar leões. Claro! E custa baratinho. São dois salários míninos e, hoje em dia, eles duram por várias – quatro – semanas.”

Pedido ao Papai do Céu

6 de maio de 2008

 

 

Querido Papai do Céu,

Hoje eu quero fazer um pedido especial: quando eu crescer, eu gostaria muito, muito mesmo, de continuar sendo criança. É o meu sonho. Por que ser grande é muito chato.

A gente aprende um montão de coisas legais quando é pequeno – ensinado pelos grandes, veja só – mas tem que esquecer tudo quando cresce.

Dá para entender? Eu não consigo.

Perguntei para a minha mãe, entre uma dobradura e outra no meu super barco de papel, se tem alguma razão para isso acontecer.

Ela tentou explicar, mas confesso que não entendi nada.

Falou que era por causa do trabalho, das obrigações do trânsito infernal, das intermináveis contas para pagar, da obrigação em acompanhar o noticiário diariamente (além de ter lido o jornal), saber como fechou a Bolsa daqui, como abriu a Bolsa de lá; onde está o dólar, quem está em guerra com quem, em quem votar na próxima eleição, o time do coração que não está nada bem, a sogra que virá no fim de semana, o presente do cunhado… essas coisas.

Ouvi tudo com atenção, mas voltei para o meu barco de papel sem responder coisa alguma.

Eu, hein? Prefiro ficar aqui, enquanto posso, fazendo tudo o que gosto:

Andando descalço pela grama
Jogando água na terra até virar lama
Fazendo castelo com pedrinhas
Tentando bater meu recorde de sete embaixadinhas
Jogando uma partida de vídeo-game
Acampando na sala com lençol, travesseiro e as cadeiras da sala de jantar
Plantando feijão no algodão e esperando brotar
Misturando banana com mel e aveia
Pintando papel com tinta a dedo
Recortando figuras das revistas e colando num outro papel, só para ver no que vai dar
Montando outro castelo, agora de cartas de baralho
Escrevendo escondido na parede atrás do sofá
Jogando a bolinha para meu cachorro trezentas vezes
Tomando picolé de frutas
Misturando sucrilhos com leite e nescau, à tarde, em frente à TV
Imaginando figuras engraçadas nas nuvens
Acompanhando o caminho das formigas pela parede
Jogando bola, queimada, vôlei ou qualquer outra coisa
Brincando de péga-péga
Montando uma casa de madeira na árvore
Tocando a campainha da casa do vizinho e fugir
Paquerando a filha do vizinho
Indo ao cinema no meio da tarde
Chupando manga tirada direto do pé
Andando de bicicleta sem capacete
Aprendendo a subir em árvore
Tomando água da torneira
Rindo à beça das trapalhadas que eu mesmo faço
Lendo um livro deitado no sofá
Aprendendo a fazer pão-de-queijo (e ficar olhando dentro do forno até crescer)
Tomando banho de esguicho num dia de sol quente
Descascando laranja tudo errado
Misturando coca-cola com sorvete
Queimando papel com uma lupa
Fugindo de abelha
Comendo doce de leite sem culpa
Tomando refrigerante
Jogando sonrisal na beira do mar e escorregando nele
Pegando jacaré
Passando requeijão no panetone
Jogando rouba-monte
Completando o álbum de figurinhas
Jogando bafo com as repetidas
Assistindo desenhos
Dormindo no meio dos filmes
Correndo atrás de borboletas
Sujando a calça no muro branco
Dançando alucinadamente no meio da sala
Cavocando a areia até achar água
Jogando pedrinhas no fundo da piscina e mergulhar para buscá-las
Tomando leite bem cedinho, tirado na hora da vaca, num copo com açúcar
Assistindo filme de terror no cinema e ficar com medo
Ralar o joelho e passar mertiolate

Está vendo? É tudo muito mais divertido. A gente cansa no final do dia, fica quebrado mesmo. Tão cansado que dorme antes da novela das oito, que hoje em dia começa às nove. Mas vale muito a pena.

Agora, Papai do Céu, vou tomar banho para jantar. Preciso tirar o terno e a gravata, colocar meu pijama e fazer lição de casa, senão meu chefe vai brigar comigo amanhã.

Amém.

Propagandas que gostaríamos de ver - (4, 5 e 6)

2 de maio de 2008

“Não perca a incrível oportunidade de comprar o nosso super comprimido redutor de gorduda Milagres. É só tomar um comprimido por dia e você ficará surpreso com os resultados, em apenas três semanas. Na compra de uma caixa com quinhentas cápsulas, você ainda ganha o livro ‘Dieta de Faquir’ – baseado na história de um homem que só se alimentava com uma folha de alface por dia – e um par de tênis para correr feito louco pelas ruas. Se seguir a mesma dieta e correr bastante, o comprimido terá efeito garantido. Ou o seu dinheiro de volta.”

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“Esse iogurte vai mesmo revolucionar o mercado. Suas tampas de alumínio vêm com sabores diferenciados e são comestíveis. Não o iogurte. A tampa mesmo. Já que não conseguimos desenvolver uma peça que evite que o produto grude nela, você ao menos terá muito mais prazer quando for dar uma lambidinha.”

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“Este é o novo modelo super esportivo da Cranglers Automobiles. Vai de 0 a 100km/h em apenas um segundo, mas isso é o de menos. É o maior da categoria e, por causa de sua robustez, sua segurança está garantida, mas isso também é o de menos. Legal mesmo é o porta-revistas e o video game instalados para sua comodidade, já que você vai ficar parado neste trânsito infernal por horas a fio. Disponível somente nas grandes cidades, onde o trânsito diário passa dos 50 km de extensão.”

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