Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Dedicatória a duas grandes pessoinhas.

7 de abril de 2008

Se o leitor permitir, se a leitora não se incomodar, peço gentilmente licença a quem quer que ouse folhear este texto, este livro (quem sabe?), para dedicar algumas palavras simples, porém necessárias, a duas pessoas especialmente importantes.

Confesso que faltam-me palavras, principalmente as que deveriam sair da boca, ao invés dessas que saem dos dedos, para dizer isso à essas figuras essenciais. Se tive a sorte de receber o dom da palavra escrita, então tentarei fazer bom uso delas.

Duas estrelas chegaram em minha vida, sem avisar ou, ao menos, darem-me chance de estar preparado.

Duas estrelas com luzes tão fortes e intensas, que até capazes de iluminar o meu caminho, são.

Chegaram sim, mas em momentos distintos. Ao contrário dos fatos, muito parecidos.

A primeira nem tomou conhecimento da minha presença. Tudo bem, não sou lá muito atraente para ser percebido no meio de um bando de gente. A segunda não sabia que eu estava ali, simplesmente porque não tinha obrigação alguma em saber. Só o fato dela existir já representava uma imensa vitória.

A primeira percebeu minha existência logo nos primeiros dias dos quatro anos possíveis – no mínimo. Tudo por causa de um bilhete ousado que mandei e após ter vencido uma barreira enorme, a minha timidez. A segunda passou, há poucos dias, a perceber minha existência pelo nosso convívio, que espero dure muito mais do que os quatro anos forçados que a primeira teve que enfrentar.

A primeira encantou-se pouco a pouco, talvez pelo meu jeito divertido, certamente não pela minha beleza exterior, que só seria notada se eu vivesse no Planeta dos Macacos e ela fosse a única outra humana daquele lugar. Ainda assim eu correria algum risco. A segunda, por coincidência, também encantou-se comigo, mas pelas minhas loucuras, minhas peripécias para chamar a atenção e, pouco a pouco, derreteu-se por mim. Hoje, quando me vê, não perde tempo e dá logo um grande abraço.

A primeira é tão doida quanto eu, porém sabe levar a vida de um jeito muito mais leve, sem perder a sensatez. A segunda tem seu lado doidivanas, desafia tudo e todos, mas sabe muito bem quando está fazendo algo errado.

A primeira, quando precisa ouvir uma bronca, fica meio sem jeito, encabulada, certa da minha razão, e pára para pensar no que fez. Volta dias depois a tocar no assunto, para eu ter certeza de que a mensagem foi bem recebida. A segunda toma a bronca, não pára para pensar no que fez, mas fica com um jeito maroto delicioso, que só vendo. Volta logo depois, com a maior cara lavada, e há quem diga que nem se lembra mais do que aprontou.

A primeira levou-me a conhecer o lado gostoso da vida. Curtir, bagunçar, rir e de um jeito todo especial. A segunda tem me levado a conhecer um lado que eu fazia de tudo para não ter contato, mas que tem sido a experiência mais sublime – para dizer o mínimo. Como me arrependo de não ter dado espaço antes para esta segunda pessoa. Estou tirando o atraso. Do meu jeito. Lento e lerdo e sem pressa, mas estou.

A primeira diz as coisas certas, nos momentos adequados. Puxa a minha orelha, fica sem falar comigo por um algum tempo, mas é a quem recorro quando me falham a força e a coragem, quando a correria da vida faz um gol inesperado e acabo deixando a tristeza se fazer presente. A segunda não diz nada. Fica só de olho. Nem precisa. É só abrir um sorriso que eu levanto, faço alongamento – a idade chega, não ria, pode esperar – tomo a bola da tristeza, sem falta, volto rápido para a área adversária e marco um golaço.

A primeira exige de mim uma atenção extra. Preciso sempre cuidar dela, ficar de olho, fechar a pasta de dente, ser o braço direito, o esquerdo e talvez um joelho, sei lá. Faço tudo para não deixá-la cair. Ela é um porto seguro, o meu porto seguro. E tento ser o dela. A segunda exige de mim atenção “extra híper ultra máster” redobrada. Preciso ser exemplo, tomar cuidado com o que falo e faço. Ainda terei muitas alegrias com ela, tenho certeza.

A primeira foi, é e sempre será a grande paixão da minha vida. Mas perde um pouquinho para a segunda, que tomou um bom espaço, sem sequer imaginar. E conquistou não só a mim, como também a primeira.

A primeira pessoa é a minha esposa, Juliana. Nos conhecemos na faculdade. Eu já estava na sala, no primeiro dia de aula, quando ela entrou, linda, com um jeans apertadíssimo, um tênis com o logotipo pintado em caneta marca-texto – ela jura que não, eu afirmo que sim – cabelos loiros de praia e moletom. Fiquei apaixonado naquele mesmo momento.

O bilhete que passei dias depois continha o pedaço de uma música da Rita Lee: “Que tal nós dois numa banheira de espuma?”. Dobrei o papel e pedi para passarem até chegar nela. Ela riu. Não sabia se era por ter se divertido com a mensagem-surpresa, ou se tinha me achado um pamonha. Anos depois comprovei que era a segunda opção… Bem feito para ela. Já era tarde demais e o casamento já tinha sido realizado.

Na volta da mensagem, qual não foi minha surpresa ao ler a continuação da mesma música: “fazendo massagem, relaxando a tensão, com tanta vagabundagem e tanta disposição”. Ponto e pronto! “Ponto” porque eu havia acertado a cantora que ela mais gostava. “Pronto” porque eu havia encontrado a mulher da minha vida.

Sete anos depois começamos a namorar. Paquera fraca a minha, reconheço, mas ninguém pode negar que foi eficiente, porque deu certo. Posso até dizer que foi tudo planejado. Estamos juntos até hoje. Sinceramente, não sei o que ela viu em mim. Mas somos muito felizes juntos. Temos brigas, claro, porque tem um lado meu que é chato demais. Mas se peneirar esses poucos momentos, os dias alegres dão de goleada.

E é justamente aí que entra a segunda pessoa. Gabriel. Nosso filho. Uma figura. Parece que veio ao mundo a passeio. Curioso que só. Estava planejado para julho, mas o apressadinho quis vir antes e chegou em maio. Precisou ficar quase três meses na UTI neonatal, para ganhar peso e altura – este último não ganhou até hoje, já que o pai não é lá um jogador de basquete. No máximo, um mergulhador de aquário. E olhe lá.

Foi nesse período que nós três nos unimos mais ainda. Visitas diárias, sem descanso, sábados, domingos ou feriados. Eu já entrava na UTI fazendo bagunça e tomando ponto negativo das pediatras. E sentia que, de alguma forma, ele percebia essas boas energias, essa força para muitos sem motivo, e se esforçava o quanto podia para sair de lá o quanto antes. Parecia que queria aquela sessão de loucuras só para ele. Ou queria parar de passar vexame com as outras crianças quando o pai tresloucado entrava na sala.

Lembro do seu primeiro olhar, ainda na incubadora, minutos após o parto. Claro que ele não viu nada, mas seus olhos vieram na minha direção. O Gigante – apelido carinhoso que dei dado o imenso tamanho dele no nascimento (do tamanho da minha mão) – nem sabia o que estava acontecendo. Mas eu estava ali e, como todo pai embasbacado pelo momento, tinha certeza de que ele havia me reconhecido.

Passamos alguns bons sustos naquela época, é verdade. Sustos que fazem parte da vida de um prematuro, principalmente nos primeiros dias, até que o pequeno esteja estável. Hoje, é uma criança extremamente saudável. Um touro. Não fica doente, não chora quando se machuca, não tem frescura. Puxou a mãe, claro, porque eu sou uma manteiga derretida com dores, febres e que tais. E como é bom tê-lo ao nosso lado.

Foram duas grandes batalhas. Duas pessoas que vieram sem avisar. Duas pessoas que tomaram conta de mim, da minha vida. Duas pessoas apaixonantes. Duas pessoas a quem devo cada sorriso, cada lágrima de alegria, cada suspiro. Duas pessoas a quem serei eternamente grato. Não sei o dia de amanhã e não me importa saber. O que sei é que os amo com devoção, com um carinho que nem sabia que existia, com uma força que nem sabia que tinha. Simplesmente os amo.

E, desculpe-me novamente, mas sinto que precisava dedicar um belo texto para essas duas grandes pessoinhas.

Arquivado em: Sem categoria I

5 Comentários »

  1. Comentário por Izilda Bichara — 8 de abril de 2008 (12:40)

    Olá,
    Vim retribuir a visita e conhecer seu blog. Gostei muito de seus textos. Revelam uma pessoa sensível, afetiva e preocupada com os valores mais essenciais da vida. Parabéns!
    Um beijo,
    Izilda

  2. Comentário por Renata — 16 de maio de 2008 (12:38)

    Amei seu blog, seus textos, seu jeito de escrever.
    Estou grávida de 7 meses e esse texto me emocionou demais. Parabéns!

  3. Comentário por Mickey — 16 de maio de 2008 (21:55)

    Que bom, Renata!
    Fico muito feliz que tenha gostado. Este texto, em especial, foi escrito com um frio imenso na barriga, e toda vez que o leio sinto uma emoção gostosa.
    E prepare-se: você vai AMAR ser mãe (não que eu seja mãe, claro, mas a experiência de ter um filho me credencia a dizer isso), é realmente a melhor sensação que alguém pode sentir na vida.
    Tolos daqueles que preferem optar por ganhar dinheiro como loucos, ao invés de viver algo assim. Não fazem idéia do que estão perdendo.
    Desejo muitas, mas muitas mesmo, felicidades a vocês!
    Um grande abraço.
    Mickey (também conhecido como Joao Luis, mas esse é apelido).

  4. Comentário por Glaucia Ganchinho — 28 de maio de 2008 (19:03)

    Mickey (se me permite chama-lo assim…),
    Eu AMEI o seu texto e fico muito, mas muito feliz, por ter tido a oportunidade de proteger, da maneira mais racional possivel, essas 2 pessoas que voce tanto ama. Voce realmente e uma pessoa incrivel. Para mim, momentos como esses, de demonstracao descarada de amor e cumplicidade, fazem do meu oficio, o melhor trabalho do mundo. Mais uma vez parabens pelo seu Blog, pela linda familia que construiu e pela protecao que voce garantiu.
    Sua Amiiga e Life Planner,

  5. Comentário por Joao Luis Amaral — 28 de maio de 2008 (21:36)

    Oi, Glaucia!
    He he! pelos emails que trocamos, a impressão que dá é que sou meio doido, não é? (e sou mesmo). Mas tem um lado meu bastante sensível e observador e cuidadoso que guardo para esses dois outros malucos que me aturam no dia a dia. A proteção certamente é para eles!
    Grande abraço!

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