No trânsito.
2 de abril de 2008
Levantou-se para correr na esteira do prédio antes de ir trabalhar. Dia longo, reuniões atrás de reuniões. O chefe, Marcondes, com a cara amarrada, a nova campanha para apresentar, a guerra por um troco a mais na verba.
Vinte e dois minutos de corrida, o bastante para queimar o peso na consciência. Uma rápida chuveirada, livrou-se dos poucos fios de barba que insistiam em crescer em seu rosto, vestiu terno e gravata, pegou um achocolatado em caixinha e saiu.
Atrasado como sempre, sentia que aquele seria seu dia de sorte. Pegaria todos os faróis abertos, as vias de tráfego livres, teria tempo para comentar a rodada do campeonato, tomar um café forte e jogar um charme para sua colega de trabalho antes de entrar na primeira reunião.
Logo no primeiro farol realizou que seria, na verdade, um dia daqueles. Puxou o cinto de segurança, mas o maledeto travou antes de chegar à fivela. Afrouxou um pouco e puxou, travando agora antes do primeiro ponto. Soltou novamente, mais devagar. Puxou. Travou. Puxou. Travou. Puxou mais forte, travou mais forte. Irritou-se e amaldiçoou as quatro últimas gerações do item de segurança.
Viu a luz vermelha oscilar com a verde algumas vezes, antes de deixar o semáforo para trás. Trânsito, como sempre. Infernal. Respirou fundo, ligou o ar-condicionado, procurou a estação de notícias no rádio. Queria ouvir indicações sobre vias mais livres.
Só o que ouviu foram entrevistas com políticos, discutindo a nova lei contra pipoca nos cinemas da cidade. Nada sobre o trânsito. Uma hora depois, nó da gravata afrouxado, repassada a agenda num guardanapo qualquer, embicou na Avenida Pirapora. Aquela seria uma boa opção. Sempre escapava por ali.
Ledo engano. Estava, como as outras, completamente tomada por veículos parados em todas as faixas. No rádio, a primeira informação: “Evitem as redondezas da Avenida Pirapora, uma péssima opção no momento.”
“E só agora você me diz isso, filha da mãe? Fico uma hora escutando a merda da discussão sobre pipoca e nada? Quer saber? Vá para o inferno! Vou ouvir música.”
Procurou outra estação qualquer. Quase no horário da primeira reunião, ainda sem ter vencido metade do trajeto, ligou para avisar do atraso. Quem sabe seria atendido pela secretária do chefe. Quem atendeu? Marcondes, claro. Desculpou-se, avisou sobre o problema. Seguiram-se quinze minutos de bronca, ouvindo que seria trocado por um cone ou um grampeador quebrado. Prometeu chegar o quanto antes. Ouviu que “o quanto antes” teria sido há quarenta minutos.
Desligou. No momento seguinte, viu o espelho retrovisor esquerdo dar piruetas no ar, quase um “duplo twist carpado”, como consequência da pancada do guidão de um motoqueiro. Nada podia fazer. A não ser trocar de faixa. Ainda tinha o espelho direito. Na sua esquerda, somente a mureta.
No rádio, sintonizado numa dessas estações mais populares, o locutor fazia voz de gemido, sussurrando romântica e pausadamente o nome das músicas. Não aguentou e voltou para as notícias. Pegou o final do boletim do trânsito, informando que o caminho para a Zona Norte estava livre. Que ótimo! Ele ia para o Zona Sul.
Outro farol. Um garoto fazia acrobacias com bolas de tênis, enquanto outro oferecia lavar o pára-brisa com um líquido gosmento numa garrafa encardida. Com o dedo, fez sinal negativo. O mesmo que nada. Aquela areia movediça já escorria pelo vidro. Quis sair do carro e usar o moleque como esponja até tirar todos os pontos de cocô de pomba do capô branco. Era tanta sujeira que seu carro mais parecia um dálmata. Passou uma moeda pela janela. “Só dez centavos? Que mão de vaca…”. Engoliu seco, contou até dez, acelerou e saiu.
Sim, ele estava puto. Tudo o que podia ter dado errado, deu. Ainda tinha que arrumar forças não-sabia-de-onde para sorrir quando entrasse no escritório. Fazer cara de “não foi culpa minha, foi do trânsito”. Torcer para que o chefe tivesse sido acometido por uma disenteria súbita e ficasse preso no banheiro. Que um dos diretores tivesse a gravata caríssima e exclusiva desfiada por uma lasca da mesa de madeira e não saísse de sua sala enquanto o fabricante do móvel não chegasse com uma solução. Que a secretária do presidente tivesse marcado reunião numa sala já ocupada por outra equipe – aqueles chatos do financeiro, por exemplo – e que um motim se iniciasse quando soubessem que teriam que fechar todas as planilhas e reiniciar as discussões em outra sala.
Parou o carro na vaga. Quase dez e meia da manhã. Pensou em subir até o RH e assinar logo a carta de demissão. Para que tentar argumentar? Ninguém aceitaria seu pedido de desculpas. A verba não seria liberada e a campanha não iria para o ar. De quebra, o novo produto, no qual trabalhou tanto tempo em pesquisa e desenvolvimento, não sairia das gôndolas dos supermercados. Sem campanha, os clientes não saberiam que aquele produto existia, logo por que comprariam? Era o fim. Entrou no elevador, apertou o botão, ajeitou a gravata e fechou os olhos.
E qual não foi sua surpresa ao se deparar com o diretor com a gravata desfiada, a secretária pedindo mil desculpas aos gerentes do financeiro e seu chefe com a mão na barriga, desesperado olhando para o banheiro ocupado.

