Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Do excesso de trabalho.

24 de abril de 2008

- Carlinhos, estou muito preocupado com o andamento da nossa obra no litoral.

- Por que, senhor? O que o preocupa? Os “deadlines” para entrega?

- Não só isso, mas todos os passos envolvidos no processo. Sinto que falta comando, falta voz ativa, falta planejamento para o correto cumprimento das tarefas.

- E o que podemos fazer para melhorar, senhor?

- Bom, como sou o chefe da empresa, tomei a liberdade de preparar uma apresentação. Posso apresentar para você saber sua opinião?

- Claro, chefe. Mas… o senhor pretende apresentar… aqui? Agora?

- Você vê outro local e momento mais adequados?

- De forma alguma. Estou à disposição.

- Que bom. Deixe-me ligar o laptop, abrir o arquivo e iniciamos nossa discussão. Pronto. Vamos lá. É importante frisar que este planejamento visa cobrir toda a empresa, quase que um processo amplo de reengenharia. São três grandes vertentes, o que nos permitirá trabalhar em fases e, assim, cumprir metas bem definidas: ações de curto, médio e longo prazos. No curto prazo, precisaremos reduzir as paradas para descanso. Perdemos preciosos minutos e o rendimento homem/hora não está de acordo com os padrões internacionais de qualidade. Dessa forma, dificilmente conquistaremos o selo ISO9001. Sem essa certificação, um diferencial importante no nosso ramo de negócios, os clientes questionarão nossos serviços, duvidarão da nossa capacidade e, pior, não estarão mais dispostos a pagar o preço que cobramos.

- Entendo. Mas tenho uma dúvida que…

- Não interrompa, por gentileza. No final do arquivo, permitirei um coffee-break, quando poderemos discutir quaisquer pontos que se façam necessários.

- Mas…

- Por favor. Vamos continuar. Depois, no médio prazo, entraremos de cabeça nas renegociações de contratos com nossos fornecedores. Preciso que todos eles tornem-se verdadeiros parceiros em nossa empreitada. Para isso, os contratos deverão ser mais extensos, com prazos de entrega mais apertados e, claro, a custos reduzidos. A matéria-prima tem sido entregue muito em cima da hora, o que nos faz correr com a produção, sem que haja controle dos processos. Sem controle, lá vamos nós novamente, corremos sério risco de não atingir os padrões mínimos que segurança da construção civil. Podemos ter nossa obra embargada.

- Sei. E quem embargaria nossa obra?

- Os órgãos governamentais, é claro. Você sabe bem que existem fiscais corruptos que fazem de tudo para levar uma grana por fora. Prefiro utilizar esse dinheiro para financiar processos de aprimoramento contínuo de nossos colaboradores, tornando-os competitivos e essenciais para este início de retomada de sucesso. Se tais fiscais nada encontram de irregular, nada podem cobrar, certo?

- Certo, mas nunca vi fiscal algum por aqui.

- Claro que não. E sabe por que? Porque eu mantenho uma rede ampla de relacionamento com pessoas importantes para o nosso negócio. É o chamado “networking”, quando muitas pessoas participam dos mesmos círculos de amizades e interesses. Sempre que há risco de fiscalização, eu converso com um amigo aqui, outro ali, e consigo que protelem nossa obra para mais tarde.

- Só uma observação, se me permite…

- Carlinhos, no final da apresentação. Ainda não acabei. Continuando no médio prazo, contrataremos uma empresa de arquitetura de interiores, com profissionais extremamente capacitados para estudar nossos processos e propor soluções de distribuição das equipes, mobiliários mais apropriados, iluminação mais clara que resulte em ganho de escala. Mudaremos também para um local com facilidades de estacionamento, opções variadas de alimentação e fácil acesso.

- Eu acho esse lugar excelente.

- Sempre podemos melhorar, meu filho. Sempre. Já dizia meu velho pai: se jaboti fosse rápido, não precisaria de um casco tão pesado. Temos que ser ágeis, para não arrumarmos um casco também.

- Sobre aquela observação… é realmente importante.

- Já estou acabando. Falta pouco. No longo prazo, vamos investir recursos para adquirir novas estações de trabalho, com capacidade de processamento e armazenamento quase vinte vezes superiores ao nosso parque tecnológico atual, roteadores wi-fi para conexão rápida, segura e de qualquer lugar. Depreciaremos esses bens ano a ano para não impactar demasiadamente no ROI e…

- Pai.

- Já te falei para não me chamar de pai, Carlinhos. Aqui eu sou seu chefe. Che-fe.

- Está bem, desculpe, chefe. Mas é que eu realmente preciso dizer umas coisas: nossa fornecedora, a minha irmãzinha Bruna, já está chegando com o balde cheio de água do mar, para continuarmos a construir nosso castelo de areia. A mamãe voltará já já trazendo meu picolé de fruta e eu estou realmente com vontade de dar um mergulho. Tem mais: é melhor corrermos com nosso castelinho, porque a maré está subindo.

- Está vendo? Não há processo para nada. Tudo está largado. Depois vão me questionar sobre resultados. Mas ninguém quer me dar ouvidos… Vem cá, preciso tirar a gravata para dar um mergulho com você?

Zizi Possi

16 de abril de 2008

Zizi Possi já era.

Culpa minha. Dia ruim, cheguei sem avisar e vi o que ninguém aguentaria ver. Ela com outro.
Perdi a cabeça, disse coisas que não devia, chorei até. Ela, frágil, não suportou o destempero.
Acabou por dar cabo à própria vida.

Uma diva, não tenho dúvidas. Uma estrela que brilhou intensamente, iluminou com sua luz a minha vida.
Entre todas com as quais me relacionei - e foram muitas, ouso dizer - Zizi foi como uma brisa leve, pousando delicadamente sobre mim a alegria de viver em seus atos, seus gestos. Enamorado que estava, fazia promessas tolas, achando que teria todo o tempo do mundo para cumprí-las. Só que o tempo, Ah! O tempo não me deu tempo.

Zizi Possi virou história.

Uma relação complicada desde os primeiros momentos. Deliciosamente complicada.
Nossa história começou como um conto de fadas. Eu andava pela rua, sem destino ou futuro certo pela frente, chutando pedras à mercê. Chutava o vazio da minha vida.
Ela, numa loja qualquer, parecia aguardar o inesperado. Nossos olhares cruzaram-se e, apenas num segundo, sentimos a emoção por um amor iminente brotar maroto.

Paixão avassaladora. Daquelas que nos fazem perder o fôlego, a noção de tempo, espaço, que nos leva simplesmente a esquecer nomes, rostos, cheiros. Que nos faz criança.
Os sentidos nos deixaram, tudo o que fazíamos era pelo outro. Éramos cúmplices em sua mais pura tradução - se é que existe pureza em cumplicidade.

Zizi Possi passou dessa para melhor.

Da paixão, rapidamente fomos levados ao amor. O desejo nos tomava inteiros, sem pedir licença. Como numa invasão.
A distância parecia nos afixiar lenta e perigosamente. Sua presença trazia-me de volta à realidade, era como oxigênio.
Perdíamos longas horas apenas nos olhando. Tímida, não apreciava conversar. Preferia curtir o momento em toda sua intensidade, sua extensão.
E quanto mais durasse, melhor. Foi o grande amor da minha vida. O único amor.

Zizi Possi bateu com as botas.

Ah, Zizi! Que falta você me fará. Não vejo meus dias sem sua doce presença, seu afeto, seu silêncio acalentador.
Não quero mais acordar, porque sei que você não estará mais ao meu lado.
Para quem direi "bom dia" cheio de malícia, de segundas intenções?
Onde errei? Quando te perdi? Por favor, preciso saber.
Não me deixe aqui com essa dúvida. Conte-me ao menos esse segredo.

Zizi Possi está morta.

Agora, de volta ao vazio da minha vida. Tudo o que me resta é voltar àquela loja e comprar um outro peixinho.
Mas, dessa vez, darei o nome de Jane Duboc.

Crônicas cruzadas - Tema da semana

10 de abril de 2008

O tema desta semana (nossas semanas têm aproximadamente 40 dias) do desafio Crônicas Cruzadas foi "Lista do mercado".

Abaixo, o meu texto. Ao lado, entre os favoritos deste blog, leiam os escritos do Ricardinho no Anbar com N.

Espero que gostem.

Abraço.

Lista do mercado

Homens são, usualmente, ingênuos. Mulheres são, maioria esmagadora, diabólicas, perspicazes, lobas ferozes em pele de cordeiro, lingerie com rendas, unhas pintadas e perfumes franceses.

Homens agem, sem qualquer traço de maldade, de maneira rude, como se suas idades somente pudessem ser estabelecidas por Carbono 14. Selvagens, viajaram diretamente da era Cretácea para os dias de hoje. Fico surpreso que os espécimes atuais não tenham cascos ou alimentem-se de arbustos soltos por terrenos baldios, porque as maneiras destes são exatamente iguais àquelas dos habitantes das cavernas.

Mulheres, ao contrário, evoluíram. Dotadas de capacidade única para pensar, planejar em detalhes, executar e, o que mais interessa, contar às amigas - todas elas - suas mais novas estratégias de combate aos mentecaptos peludos. É uma guerra não declarada. Guerra fria. Calculista.

Caro leitor desatento, você imaginou que aquelas louças não lavadas, as camisas suadas do futebol de segunda à noite jogadas no chão do quarto, a pasta de dente esquecida aberta, as unhas do pé cortadas e deixadas sobre a cama, a cutucada para tirar fiapos de camiseta branca do umbigo, sorrateiramente escondidos sob o sofá, o futebol na TV às quartas quando ela preferia um jantar romântico, passariam incólumes? Não há possibilidade alguma.

Discretas, são a mais perfeita tradução de crime realmente organizado. Se nossas autoridades acham o tráfico de entorpecentes difícil de combater, dada a complexidade de suas teias de poder, é porque nunca voltaram suas atenções a essa quadrilha mundialmente esquadrinhada e silenciosa. Agem dentro dos nossos lares, no banco do passageiro dos nossos carros, repousam ao nosso lado, brindam com nosso vinho, usam nossas camisetas para dormir e, não satisfeitas, ainda são presenteadas com jóias e carros do ano.

Sábias. Deixam transparecer que suas armas fatais são a sensualidade, o sexo frágil, um vestido curto, uma lingerie nova, uma massagem nos pés com creme sei-lá-o-que, um parmeggiana ao ponto com molho extra. Quando, incontestavelmente – e achavam que nenhum homem entenderia isso – utilizam-se de uma arma muito mais poderosa, mais perversa e infalível: a lista do mercado.

Entendo. Parece uma afirmação completamente sem sentido, desprovida da mobilização de sequer dois pares de neurônio. É exatamente isso que a torna tão perfeita. Ninguém jamais ousou pensar que uma reles lista pudesse ser, na verdade, uma arma capaz de nos levar à beira de um ataque de nervos – só não os temos porque, afinal, somos homens e, sendo assim, não sabemos o que é ataque, muito menos de nervos (a não ser que o centroavante perna-de-pau perca aquele gol-feito na final do campeonato).

A ingenuidade masculina não tem limites. Tudo começa com a maldita consciência pesada. Num domingo qualquer, enquanto a esposa limpa os armários, cuida das crianças, faz e serve almoço, você, absorto em seu próprio mundo, cutuca as ranhuras do calcanhar, deitado sem camisa no sofá, assistindo a um programa de esportes qualquer. Quando se dá conta da mancada, prontifica-se a “fazer o mercado”. E, esperto, para que nada saia errado pede gentilmente que a patroa escreva tudo o que ela quer num papel.

Está aberta a temporada de caça.

Com a lista em mãos, chega ao mercado e lê “carne para molho”. Fácil. Dirige-se à gôndola de resfriados e vê-se diante de uma eternidade de nomes, tipos, cortes, cores diferentes. Tenho certeza de que nunca imaginou que um boi pudesse ser dividido em tantos pedaços. Como todo homem, você não sabe qual a melhor carne para molho, então decide ir pelo preço, já que sua esposa foi fiscal do Sarney e estagiária da Sunab. Preço importa deveras. Leva o coxão duro, junto com sua sentença de morte. Coxão duro não é carne. É quase sola de sapato, sua besta!

Retoma a lista: iogurte. Outro corredor, um mundo de iogurtes integrais, desnatados, semi-desnatados, com frutas, com mel, com frutas E mel, com fibras, sem gordura, em litro, em pote. Em seus pensamentos, ouve-se um “putaqueopariu”. Checa a lista de novo. Somente “iogurte”. Sem descrições complementares. Gentil, toma o telefone e liga para casa. Você não é burro e quer agradar, certo? Errado. A resposta dela já está pronta antes mesmo de você ter nascido:

“Ah, traz qualquer um, amor! Confio no seu bom gosto”.

Pronto, o poder de decisão está em suas mãos. Tolo.

Item 3: “leite em pó para as crianças”. Corredor de Cereais, farináceos e enlatados. Você conhece a distribuição dos produtos de cabeça. Sabe que os meninos tomam o leite da marca X, mas… não tem. O que faz? Utiliza o seu previamente elogiado "bom gosto" para escolher iogurte e decide levar o leite em pó da marca Y. Pronto, despeça-se da sua cabeça. Ela será separada do seu pescoço num golpe rápido. Eis o que o espera quando chegar em casa:

“Leite Y? Esse leite é um horror, Lacerda!”
“Mas, amorzinho! Não tinha outro. Usei o meu bom gosto e…”
“Que bom gosto, mentecapto? É para comprar o que está NA LISTA. É pedir muito?”
“Mas…”
“Não estou mais ouvindo. Chega. Bem que minha mãe dizia que você era um zero à esquerda…”
“Mas…”

Eu avisei. Você não quis acreditar. Diga se essa cena doméstica não lhe é familiar? Coloque uma coisa na sua cabeça: todas as possíveis reações vêm sendo estudadas há anos. Se você disser A, ela tem uma resposta. Se você disser B, ela tem outra resposta. Se você não disser nada, ela tem duas respostas e, de quebra, um cróque na sua cabeça.

Outro ponto: existem mulheres que atuam como formigas-operárias. São a linha de frente, passam o dia inteiro no mercado, só para azucrinar e passar informações. Você as reconhecerá facilmente, porque levam três filhos daqueles bem chatos à tiracolo, circulam sem organização alguma e estão sempre ao celular. Falando de você para sua esposa, enquanto os filhos brigam ao seu lado para tirar sua atenção. Experimente ir às 10 horas da manhã, identifique uma legião dessas e volte por volta das 19. Surpresa! A tropa estará lá.

É duro, é banal, mas é verdade. Você tem sido enganado por todos esses anos. Os mercados são dominados pelas mulheres. Quantos operadores de caixa você conhece? E operadoras? É um campo de batalha varejista. Repare que a sua lista jamais terá itens que estejam expostos na frente do mercado. Sempre estarão no fundo, para que você se torne alvo e não tenha rota de fuga fácil. Elas querem que você sofra. Elas querem enlouquecer você.

Mas isso não vai ficar assim. Como o responsável por desmascarar essa autêntica tropa de elite, trabalhei por anos em um meticuloso – e talvez a nossa única salvação – plano de contra-ataque. O sucesso desse projeto depende muito do empenho de todos os homens (homens!) do mundo.

Os 5 Dis:

1. DISseminar: espalhe esta notícia bombástica para tantos homens quanto conhecer. Só homens (cuidado, muito cuidado na seleção… hoje em dia está fácil demais incluir por engano um traidor, um vira-casaca-de-pele, entre nós.).
2. DISsuadir: não ouse contar à sua esposa tudo o que – agora – sabe. Ela fará cara de desentendida e dirá que você, para variar, está bêbado e louco.
3. DISsimular: esconda a raiva, por mais difícil que seja. Lembre-se, ela é diabólica. Ou suas cuecas correm sérios riscos.
4. DIStorcer: altere já o formato da lista. Crie colunas adicionais, com três opções de marcas alternativas e preços máximos por unidade. Insira uma nota informando que “caso nenhum produto se encaixe naquele perfil, será imediatamente invalidado, seguindo para o próximo item da lista”.
5. DISciplinar: tenha a mais completa disciplina para atingir os objetivos. “Juntos, chegaremos lá”, já dizia um dos nossos.

E, pelo amor de (qualquer) Deus (em que você acredite), jamais diga à minha esposa que fui eu quem descobriu, espalhou e bolou tudo isso.

Sou corajoso, mas não sou burro! E me dê licença, porque acabo de entrar no mercado…

Dedicatória a duas grandes pessoinhas.

7 de abril de 2008

Se o leitor permitir, se a leitora não se incomodar, peço gentilmente licença a quem quer que ouse folhear este texto, este livro (quem sabe?), para dedicar algumas palavras simples, porém necessárias, a duas pessoas especialmente importantes.

Confesso que faltam-me palavras, principalmente as que deveriam sair da boca, ao invés dessas que saem dos dedos, para dizer isso à essas figuras essenciais. Se tive a sorte de receber o dom da palavra escrita, então tentarei fazer bom uso delas.

Duas estrelas chegaram em minha vida, sem avisar ou, ao menos, darem-me chance de estar preparado.

Duas estrelas com luzes tão fortes e intensas, que até capazes de iluminar o meu caminho, são.

Chegaram sim, mas em momentos distintos. Ao contrário dos fatos, muito parecidos.

A primeira nem tomou conhecimento da minha presença. Tudo bem, não sou lá muito atraente para ser percebido no meio de um bando de gente. A segunda não sabia que eu estava ali, simplesmente porque não tinha obrigação alguma em saber. Só o fato dela existir já representava uma imensa vitória.

A primeira percebeu minha existência logo nos primeiros dias dos quatro anos possíveis – no mínimo. Tudo por causa de um bilhete ousado que mandei e após ter vencido uma barreira enorme, a minha timidez. A segunda passou, há poucos dias, a perceber minha existência pelo nosso convívio, que espero dure muito mais do que os quatro anos forçados que a primeira teve que enfrentar.

A primeira encantou-se pouco a pouco, talvez pelo meu jeito divertido, certamente não pela minha beleza exterior, que só seria notada se eu vivesse no Planeta dos Macacos e ela fosse a única outra humana daquele lugar. Ainda assim eu correria algum risco. A segunda, por coincidência, também encantou-se comigo, mas pelas minhas loucuras, minhas peripécias para chamar a atenção e, pouco a pouco, derreteu-se por mim. Hoje, quando me vê, não perde tempo e dá logo um grande abraço.

A primeira é tão doida quanto eu, porém sabe levar a vida de um jeito muito mais leve, sem perder a sensatez. A segunda tem seu lado doidivanas, desafia tudo e todos, mas sabe muito bem quando está fazendo algo errado.

A primeira, quando precisa ouvir uma bronca, fica meio sem jeito, encabulada, certa da minha razão, e pára para pensar no que fez. Volta dias depois a tocar no assunto, para eu ter certeza de que a mensagem foi bem recebida. A segunda toma a bronca, não pára para pensar no que fez, mas fica com um jeito maroto delicioso, que só vendo. Volta logo depois, com a maior cara lavada, e há quem diga que nem se lembra mais do que aprontou.

A primeira levou-me a conhecer o lado gostoso da vida. Curtir, bagunçar, rir e de um jeito todo especial. A segunda tem me levado a conhecer um lado que eu fazia de tudo para não ter contato, mas que tem sido a experiência mais sublime – para dizer o mínimo. Como me arrependo de não ter dado espaço antes para esta segunda pessoa. Estou tirando o atraso. Do meu jeito. Lento e lerdo e sem pressa, mas estou.

A primeira diz as coisas certas, nos momentos adequados. Puxa a minha orelha, fica sem falar comigo por um algum tempo, mas é a quem recorro quando me falham a força e a coragem, quando a correria da vida faz um gol inesperado e acabo deixando a tristeza se fazer presente. A segunda não diz nada. Fica só de olho. Nem precisa. É só abrir um sorriso que eu levanto, faço alongamento – a idade chega, não ria, pode esperar – tomo a bola da tristeza, sem falta, volto rápido para a área adversária e marco um golaço.

A primeira exige de mim uma atenção extra. Preciso sempre cuidar dela, ficar de olho, fechar a pasta de dente, ser o braço direito, o esquerdo e talvez um joelho, sei lá. Faço tudo para não deixá-la cair. Ela é um porto seguro, o meu porto seguro. E tento ser o dela. A segunda exige de mim atenção “extra híper ultra máster” redobrada. Preciso ser exemplo, tomar cuidado com o que falo e faço. Ainda terei muitas alegrias com ela, tenho certeza.

A primeira foi, é e sempre será a grande paixão da minha vida. Mas perde um pouquinho para a segunda, que tomou um bom espaço, sem sequer imaginar. E conquistou não só a mim, como também a primeira.

A primeira pessoa é a minha esposa, Juliana. Nos conhecemos na faculdade. Eu já estava na sala, no primeiro dia de aula, quando ela entrou, linda, com um jeans apertadíssimo, um tênis com o logotipo pintado em caneta marca-texto – ela jura que não, eu afirmo que sim – cabelos loiros de praia e moletom. Fiquei apaixonado naquele mesmo momento.

O bilhete que passei dias depois continha o pedaço de uma música da Rita Lee: “Que tal nós dois numa banheira de espuma?”. Dobrei o papel e pedi para passarem até chegar nela. Ela riu. Não sabia se era por ter se divertido com a mensagem-surpresa, ou se tinha me achado um pamonha. Anos depois comprovei que era a segunda opção… Bem feito para ela. Já era tarde demais e o casamento já tinha sido realizado.

Na volta da mensagem, qual não foi minha surpresa ao ler a continuação da mesma música: “fazendo massagem, relaxando a tensão, com tanta vagabundagem e tanta disposição”. Ponto e pronto! “Ponto” porque eu havia acertado a cantora que ela mais gostava. “Pronto” porque eu havia encontrado a mulher da minha vida.

Sete anos depois começamos a namorar. Paquera fraca a minha, reconheço, mas ninguém pode negar que foi eficiente, porque deu certo. Posso até dizer que foi tudo planejado. Estamos juntos até hoje. Sinceramente, não sei o que ela viu em mim. Mas somos muito felizes juntos. Temos brigas, claro, porque tem um lado meu que é chato demais. Mas se peneirar esses poucos momentos, os dias alegres dão de goleada.

E é justamente aí que entra a segunda pessoa. Gabriel. Nosso filho. Uma figura. Parece que veio ao mundo a passeio. Curioso que só. Estava planejado para julho, mas o apressadinho quis vir antes e chegou em maio. Precisou ficar quase três meses na UTI neonatal, para ganhar peso e altura – este último não ganhou até hoje, já que o pai não é lá um jogador de basquete. No máximo, um mergulhador de aquário. E olhe lá.

Foi nesse período que nós três nos unimos mais ainda. Visitas diárias, sem descanso, sábados, domingos ou feriados. Eu já entrava na UTI fazendo bagunça e tomando ponto negativo das pediatras. E sentia que, de alguma forma, ele percebia essas boas energias, essa força para muitos sem motivo, e se esforçava o quanto podia para sair de lá o quanto antes. Parecia que queria aquela sessão de loucuras só para ele. Ou queria parar de passar vexame com as outras crianças quando o pai tresloucado entrava na sala.

Lembro do seu primeiro olhar, ainda na incubadora, minutos após o parto. Claro que ele não viu nada, mas seus olhos vieram na minha direção. O Gigante – apelido carinhoso que dei dado o imenso tamanho dele no nascimento (do tamanho da minha mão) – nem sabia o que estava acontecendo. Mas eu estava ali e, como todo pai embasbacado pelo momento, tinha certeza de que ele havia me reconhecido.

Passamos alguns bons sustos naquela época, é verdade. Sustos que fazem parte da vida de um prematuro, principalmente nos primeiros dias, até que o pequeno esteja estável. Hoje, é uma criança extremamente saudável. Um touro. Não fica doente, não chora quando se machuca, não tem frescura. Puxou a mãe, claro, porque eu sou uma manteiga derretida com dores, febres e que tais. E como é bom tê-lo ao nosso lado.

Foram duas grandes batalhas. Duas pessoas que vieram sem avisar. Duas pessoas que tomaram conta de mim, da minha vida. Duas pessoas apaixonantes. Duas pessoas a quem devo cada sorriso, cada lágrima de alegria, cada suspiro. Duas pessoas a quem serei eternamente grato. Não sei o dia de amanhã e não me importa saber. O que sei é que os amo com devoção, com um carinho que nem sabia que existia, com uma força que nem sabia que tinha. Simplesmente os amo.

E, desculpe-me novamente, mas sinto que precisava dedicar um belo texto para essas duas grandes pessoinhas.

No trânsito.

2 de abril de 2008

Levantou-se para correr na esteira do prédio antes de ir trabalhar. Dia longo, reuniões atrás de reuniões. O chefe, Marcondes, com a cara amarrada, a nova campanha para apresentar, a guerra por um troco a mais na verba.

Vinte e dois minutos de corrida, o bastante para queimar o peso na consciência. Uma rápida chuveirada, livrou-se dos poucos fios de barba que insistiam em crescer em seu rosto, vestiu terno e gravata, pegou um achocolatado em caixinha e saiu.

Atrasado como sempre, sentia que aquele seria seu dia de sorte. Pegaria todos os faróis abertos, as vias de tráfego livres, teria tempo para comentar a rodada do campeonato, tomar um café forte e jogar um charme para sua colega de trabalho antes de entrar na primeira reunião.

Logo no primeiro farol realizou que seria, na verdade, um dia daqueles. Puxou o cinto de segurança, mas o maledeto travou antes de chegar à fivela. Afrouxou um pouco e puxou, travando agora antes do primeiro ponto. Soltou novamente, mais devagar. Puxou. Travou. Puxou. Travou. Puxou mais forte, travou mais forte. Irritou-se e amaldiçoou as quatro últimas gerações do item de segurança.

Viu a luz vermelha oscilar com a verde algumas vezes, antes de deixar o semáforo para trás. Trânsito, como sempre. Infernal. Respirou fundo, ligou o ar-condicionado, procurou a estação de notícias no rádio. Queria ouvir indicações sobre vias mais livres.

Só o que ouviu foram entrevistas com políticos, discutindo a nova lei contra pipoca nos cinemas da cidade. Nada sobre o trânsito. Uma hora depois, nó da gravata afrouxado, repassada a agenda num guardanapo qualquer, embicou na Avenida Pirapora. Aquela seria uma boa opção. Sempre escapava por ali.

Ledo engano. Estava, como as outras, completamente tomada por veículos parados em todas as faixas. No rádio, a primeira informação: “Evitem as redondezas da Avenida Pirapora, uma péssima opção no momento.”

“E só agora você me diz isso, filha da mãe? Fico uma hora escutando a merda da discussão sobre pipoca e nada? Quer saber? Vá para o inferno! Vou ouvir música.”

Procurou outra estação qualquer. Quase no horário da primeira reunião, ainda sem ter vencido metade do trajeto, ligou para avisar do atraso. Quem sabe seria atendido pela secretária do chefe. Quem atendeu? Marcondes, claro. Desculpou-se, avisou sobre o problema. Seguiram-se quinze minutos de bronca, ouvindo que seria trocado por um cone ou um grampeador quebrado. Prometeu chegar o quanto antes. Ouviu que “o quanto antes” teria sido há quarenta minutos.

Desligou. No momento seguinte, viu o espelho retrovisor esquerdo dar piruetas no ar, quase um “duplo twist carpado”, como consequência da pancada do guidão de um motoqueiro. Nada podia fazer. A não ser trocar de faixa. Ainda tinha o espelho direito. Na sua esquerda, somente a mureta.

No rádio, sintonizado numa dessas estações mais populares, o locutor fazia voz de gemido, sussurrando romântica e pausadamente o nome das músicas. Não aguentou e voltou para as notícias. Pegou o final do boletim do trânsito, informando que o caminho para a Zona Norte estava livre. Que ótimo! Ele ia para o Zona Sul.

Outro farol. Um garoto fazia acrobacias com bolas de tênis, enquanto outro oferecia lavar o pára-brisa com um líquido gosmento numa garrafa encardida. Com o dedo, fez sinal negativo. O mesmo que nada. Aquela areia movediça já escorria pelo vidro. Quis sair do carro e usar o moleque como esponja até tirar todos os pontos de cocô de pomba do capô branco. Era tanta sujeira que seu carro mais parecia um dálmata. Passou uma moeda pela janela. “Só dez centavos? Que mão de vaca…”. Engoliu seco, contou até dez, acelerou e saiu.

Sim, ele estava puto. Tudo o que podia ter dado errado, deu. Ainda tinha que arrumar forças não-sabia-de-onde para sorrir quando entrasse no escritório. Fazer cara de “não foi culpa minha, foi do trânsito”. Torcer para que o chefe tivesse sido acometido por uma disenteria súbita e ficasse preso no banheiro. Que um dos diretores tivesse a gravata caríssima e exclusiva desfiada por uma lasca da mesa de madeira e não saísse de sua sala enquanto o fabricante do móvel não chegasse com uma solução. Que a secretária do presidente tivesse marcado reunião numa sala já ocupada por outra equipe – aqueles chatos do financeiro, por exemplo – e que um motim se iniciasse quando soubessem que teriam que fechar todas as planilhas e reiniciar as discussões em outra sala.

Parou o carro na vaga. Quase dez e meia da manhã. Pensou em subir até o RH e assinar logo a carta de demissão. Para que tentar argumentar? Ninguém aceitaria seu pedido de desculpas. A verba não seria liberada e a campanha não iria para o ar. De quebra, o novo produto, no qual trabalhou tanto tempo em pesquisa e desenvolvimento, não sairia das gôndolas dos supermercados. Sem campanha, os clientes não saberiam que aquele produto existia, logo por que comprariam? Era o fim. Entrou no elevador, apertou o botão, ajeitou a gravata e fechou os olhos.

E qual não foi sua surpresa ao se deparar com o diretor com a gravata desfiada, a secretária pedindo mil desculpas aos gerentes do financeiro e seu chefe com a mão na barriga, desesperado olhando para o banheiro ocupado.

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