A Saga do Caramujo
26 de março de 2008
Acordou cedo para fazer aquecimento antes da batalha. O Sol nem havia raiado ainda no horizonte. Estava tudo dentro do planejado. O dia seria longo e ele, como bom caramujo, precisava se apressar, mas não podia se esquecer dos alongamentos. Ficou conhecido nas redondezas como o mais rápido caramujo que um dia pisou neste mundo. Era um atleta de ponta, sem patrocínio, porque os tempos estavam difíceis, mas isso não tirava sua vontade e sua habilidade em desafiar-se constantemente. Tinha um pique danado. Era um caramujo, não um bicho-preguiça.
Tomou uma vitamina fortificante, daquelas bem reforçadas. Não podia iniciar aquele período extenso de atividades em jejum, senão poderia ter hipoglicemia, e isso não seria nada bom.
O grande desafio seria ir até a árvore do jardim, colher tudo o que agüentasse carregar e voltar, sem que o Sol tivesse ido embora. Havia tentado isso há alguns meses, chegou perto, mas quando parou na porta da sua toca – além da casa nas costas, habitava um buraco na parede, por causa da TV tela plana de 1 polegada que havia adquirido - só conseguiu ver os raios por cima da montanha e aquele laranja bonito do fim de tarde. O Sol mesmo, já tinha ido dormir. Foi por pouco. Muito pouco.
Resolveu não se dar por vencido e treinou intensamente antes de fazer uma nova tentativa. Aumentaria as chances de sucesso. Ficou quatro meses fazendo polichinelos, flexões de braço, agachamentos, pique no lugar, puxou uns pesos, realizou tiros de corrida, revezando com caminhadas leves, para trabalhar o anaeróbico - aumentaria sua resistência. Corria diariamente ao redor do vaso de pimenta. Abdominais. Muitas abdominais. Treinou com afinco, até que chegou o dia em que se sentiu confiante.
Dispunha de pouco mais de treze horas para cumprir o enduro. O Sol nascia por volta das cinco e cinqüenta e sumia, impiedoso, minutos depois das seis da tarde. Contava com treze horas e meia, no máximo.
Alongou-se com cuidado e meticulosamente. Todos os músculos e tendões teriam que estar aquecidos. Da mesma forma, não podia abusar. Vai que sentisse uma fisgada e toda a preparação fosse por água abaixo? Dessa vez, nada ia atrapalhá-lo. Era caramujo, mas não era burro. Até uma dieta rica em carboidratos na noite anterior ele havia comido. Receita de uma nutricionista da TV, que dava conselhos para os corredores da maratona de final de ano.
Tênis prontos e amarrados. Shorts vestido - o mais confortável, com abertura lateral e bolso interno, para levar documento e uma grana caso precisasse. Camiseta com tecido que não segura o suor, para não atrapalhar e ficar pesada quando molhada. Pochete com garrafa de água, óculos escuros e gel de carboidratos atada à cintura. Para ganhar alguns segundos, depilou o corpo, mesmo não tendo pêlos. Ajustou as antenas.
Abriu a porta da toca. Olhou para fora, o jardim ainda orvalhado, aquele gramado imenso à sua frente. A árvore a alguns metros, linda, formosa, cheia de folhinhas apetitosas. Olhou para o leste, para checar o Sol. Nada. Aguardou mais alguns segundos, esperando que a primeira curva do astro aparecesse atrás da montanha. Postou-se de frente para a parede, mãos abertas e palmas apoiadas na altura do ombro. Uma perna para a frente, joelho dobrado. A outra, esticada, mais para trás, com a ponta do pé apontada para a parede. Estava mantendo o aquecimento e dando uma alongada a mais. Não queria esfriar.
O Sol deu o ar da graça no horizonte. Os primeiros raios riscaram o céu. Tomou um último fôlego, uma respirada bem longa, encarando seu oponente luminoso com os olhos cerrados. Era um olhar de desafio. Um olhar de “está olhando o que, filho da mãe?”. E partiu.
A cada cinco minutos, checava o monitor cardíaco no pulso, para estar dentro da distância mínima que precisava percorrer. Neste tempo, em seus cálculos, precisava ter deixado dez centímetros para trás. Uma marca ousada. Em uma hora, percorreria um metro e vinte centímetros. Se tudo estivesse bem com a oxigenação, em quatro horas estaria na base da árvore. Eram quase cinco metros no total.
Depois de chegar ao alvo, teria a segunda parte da jornada. Subir no caule escorregadio, totalmente vertical. Mais dois metros de pura ladeira. Novamente nos seus cálculos, demoraria quase três horas para subir – por ser íngreme, não teria o mesmo aproveitamento obtido na grama, mas seria compensado pela descida, mais rápida. Para baixo, todo Santo ajuda. Uma hora para colher as folhas e uma hora para descer. Depois, mais quatro horas para voltar. Com a parada estratégica para tomar fôlego, água e fazer um xixi, quatro horas e meia. E vinte e nove, na verdade, para dar tempo de olhar para o Oeste e ver o Sol, derrotado, enterrar-se atrás da montanha, envergonhado por ter sido batido por um caramujo. Aliás, “o” caramujo.
E estava indo muito bem. Mantinha a respiração ajustada ao ritmo dos passos. Na metade do jardim, passou por uma lesma que andava muito lentamente. Riu sozinho agradecendo a Deus por ter nascido caramujo. Jamais conseguiria atingir aquele objetivo audacioso se fosse um bicho tão lerdo quanto uma lesma.
Por outro lado, morria de inveja de um outro bicho, muito maior que ele, muito mais robusto, um gigante. Sem dúvida, alguém a ser invejado, alguém que servia de modelo de velocidade, mobilidade, agilidade. Foi quando sentiu um estranho deslocamento do ar. O vento estava sendo empurrado exatamente por aquele ser veloz. Sentiu um frio na barriga. Se estivesse no caminho dele, seria atropelado. Olhou para trás. Ele estava vindo. Apertou o passo. Passou a correr doze centímetros a cada cinco minutos. Aquilo não seria bom para a performance. Mas precisava se livrar do perigo. Decidiu não mudar o trajeto, até que aquele monstro mostrasse para onde ia. Dez minutos e vinte e quatro centímetros depois, tornou a olhar. O vento ficara mais forte, o monstro se aproximava. Por uma sorte grande, percebeu que o bicho mudara levemente de direção. Traçou uma linha imaginária do trajeto dele. Passaria perto, mas não seria mais o alvo.
Afrouxou o passo. Os batimentos haviam passado dos 85%. Precisava se recuperar, voltar para os 65%, ou não chegaria no final. Era sua única chance. Sentiu uma bolha começando a se formar, mas não se entregaria. Olhou para o lado. Aquele animal o havia alcançado. E passava por ele rapidamente. Deus do céu, como ele era rápido! Se o Criador havia acertado a mão numa criatura, tanto em design quanto em estabilidade, teria sido nele. Ficou feliz em estar tão perto de um ídolo, um ícone e, quase sem perceber, acenou:
- Bom dia, jaboti!
- Bom dia, caramujo. Tenha um ótima corrida.
E sumiu no meio do mato. Impressionante a categoria daquele animal ao correr. Que elegância. Que corrida apurada. Olhou novamente para o monitor cardíaco. Tudo voltava ao normal. A respiração estava ajustada aos passos. A bolha havia dado um tempo. Limpou o suor do rosto e concentrou-se.

