Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

A Saga do Caramujo - Parte 3

26 de março de 2008

Voltou para o caminho. Estava no final. Só mais alguns metros. Poucos. Agora era o fator psicológico que podia atrapalhá-lho. Concentrou-se novamente. Olhou fixamente para a toca. Era o alvo. Era onde precisava chegar. O Sol estava à sua frente. Estava extremamente brilhante. Mais do que o normal. A luz o cegava. Filho da mãe. Sabia que ele não o deixaria ganhar facilmente. Justamente na última parte, quando tudo o levava a ser o grande vitorioso, eis que vem uma carta na manga, uma jogada de mestre, talvez um blefe. A única chance era sacar seus óculos escuros, que havia recebido de presente do besouro – que era cego e dava cabeçadas nas lâmpadas. Tirou o objeto da pochete e o colocou em seu rosto.

Ahhhhh! Que sensação boa. Voltou a enxergar a entrada de sua toca. A cada passo, ela ficava maior e maior. Faltava apenas um metro. Menos de uma hora de corrida. Apertou o passo. Checou o monitor. Estava a 65%. Havia folga para o “sprint” final. Inflou o peito. Imaginou que, se fosse uma corrida oficial, já ouviria o locutor dizendo “Não perde mais, o caramujo. Uma marca impressionante. Um batalhador. Um exemplo para a juventude do nosso país. Começou a correr ainda novo, nos campos tortuosos perto da toca de seus pais. Lutou, treinou arduamente, mesmo sem patrocínio. Mas agora é o momento da redenção! Fantástico! Os repórteres já fazem fila para saudá-lo na linha de chegada. Podem tocar o tema da vitória para ele, o caramujo corredor.”

Quatro e vinte e cinco. Tinha quatro minutos. Quatro longos minutos para a glória. Pouco menos de dez centímetros. Jamais imaginou como aquela distância era grande, parecia não acabar nunca. Dez centímetros. A bolha estava em carne viva. As pernas estavam dormentes. A garganta seca. Nem suor mais tinha. Sentiu que havia perdido alguns preciosos miligramas durante aquela jornada. Precisaria de um prato enorme de comida. Precisaria chafurdar em proteína para recuperar a musculatura. Mas seria vitorioso.

Quatro e vinte e sete. Dois minutos. Já podia sentir o cheiro da vitória. Checou o monitor cardíaco: 93%. Era o seu limite. Suas pernas queriam desistir, queriam parar a qualquer custo. Sua mente estava fixa na vitória. Olhou para o sol, que já descia atrás da montanha. Menos da metade ainda sobrava para cima. Um último gole na água.

Quatro e vinte e oito. Um minuto. Dois centímetros. A bolha agora era um alienígena com vida própria. Os resquícios da dor de barriga haviam endurecido ao longo das pernas. Não o atrapalhava, mas o cheiro não era lá dos mais agradáveis. O shorts agora estava irritando a pele. Sua língua havia grudado no céu da boca. Os óculos estavam escrustados em seu rosto. Precisava agüentar. Era um caramujo, não uma franga medrosa. Lembrou de todos os percalços que havia enfrentado no caminho e ganhou um final de coragem para continuar.

Quatro e vinte e nove. Encarou o Sol. Estava a pouquíssimos instantes de desaparecer completamente. Não reparou que, ao ficar encarando o astro, desviou poucos milímetros do caminho, o bastante para errar a porta da toca e dar de frente com a quina da parede, batendo o lado direito do rosto e rodopiando porta adentro. Exausto e tonto pela pancada, perdeu os sentidos. Desmaiou. Acordou segundos depois, estirado, óculos caídos ao lado, cara enfiada na terra seca. Sua única reação foi abrir o olho esquerdo, aquele que não havia batido na quina. O direito estava completamente inchado.

Limpou a poeira do olho e sentiu uma alegria imensa. No mesmo instante em que sua visão voltava lentamente a ficar nítida, percebeu um restinho de Sol, aquela última curva, sumindo sorrateiramente. Ele havia vencido. Apesar dos pesares, ele era campeão. Era um caramujo mais rápido que o Sol. O único, provavelmente.

Sentiu a vista ficar escura, seu olho esquerdo fechar lentamente. Desmaiou novamente, mas agora com um sorriso besta nos lábios. Acordou horas depois, ainda inchado. Levantou-se todo dolorido, tomou um longo banho, jantou e ligou a TV. No noticiário, um repórter policial mostrava a aranha algemada, presa em flagrante, pelo assassinato da lesma. Escondia a cara com uma das oito patas e gritava que havia feito aquilo sim, mas em legítima defesa. Ela havia sido atacada primeiro.

Capotou no sofá e deixou-se levar por um sono longo e profundo.

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