Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

A Saga do Caramujo - Parte 2

26 de março de 2008

Quatro horas depois, eis que finalmente chega à árvore. Imensa, poderosa, absoluta. Um grande obstáculo, talvez o mais difícil, mas não impossível de ser batido. Parou rapidamente para tomar um gole da água e retomou a corrida. Foi uma subida lenta. Alguns musgos o atrapalharam muito. Para quem não é caramujo, correr no musgo é extremamente difícil. Escorrega demais. Em alguns momentos, parecia que corria sobre uma esteira, sem sair do lugar. Mas a obstinação era tanta que nada o impedia. Foram três horas árduas, pegando ainda o Sol a pino, do meio dia. Suava como um camelo. Ao chegar ao topo, deu uma olhada rápida em volta. O jaboti agora estava longe demais. Tão longe que parecia pequeno, do tamanho de uma joaninha. Olhou orgulhoso para o caminho que havia vencido. A lesma ainda estava lá, a quase um metro da árvore. Sentiu um misto de orgulho por ser um bicho muito mais evoluído, mas também uma pena danada da pobre coitada. Certamente ela perderia a novela das oito. Mas, cada um com seus problemas, e ele havia apenas vencido metade da sua jornada.

Uma hora para colher folhas. Zerou o cronômetro. Traçou planos para otimizar o tempo. Iria até o final do galho sem pegar nada. Sem peso, o aproveitamento seria maior. Na volta, pegaria as folhas. Quanto mais pesado, mais perto da descida estaria. E foi o que fez. Uma hora depois estava pronto para descer. Cinco folhas acomodadas tranquilamente dentro da casca que levava nas costas. O bastante para uma semana de comida natural. O bastante para não atrapalhar a corrida de volta.

Alongou-se um pouco mais. Na volta, não poderia se dar ao luxo de sentir cãibras. Tinha que ser num tiro só. Resolveu antecipar a parada para o xixi. Aproveitaria o embalo da descida para percorrer alguns preciosos centímetros a mais, em velocidade maior. Viu um buraco no galho, escondido atrás de uma folhagem baixa. Ali seria perfeito para uma privada. Tirou o shorts, baixou a bunda – apesar de ser um caramujo macho, era educado e não queria deixar respingos nas bordas do buraco. Era caramujo, não porco. Aliviou-se. Sentiu uma brisa pegá-lo por baixo. Vento frio no fiofó. Algo estranho. Levantou-se, balançou o bigolim, pôs o shorts de volta e olhou no buraco. Uma aranha caranguejeira toda molhada de xixi de caramujo subia buraco acima, pê da vida. Sentiu um frio intenso percorrer suas costas, como se tivesse espinha dorsal.

Virou-se para a descida, engatou uma terceira marcha e correu. Correu muito, correu como nunca. Desesperado, olhos esbugalhados, adrenalina solta por todo o corpo. Na ladeira, olhou para o monitor cardíaco. Havia batido seu recorde: trinta e dois centímetros em cinco minutos. Era o recorde mundial, mas não havia tempo para comemorar. Ou corria muito, ou seria encontrado pela aranha. De atleta veloz, passaria à comida. De caçador, passaria à caça.

Olhou para trás e percebeu que sua inimiga mortal enxugava suas oito pernas com uma folha seca, enquanto os olhos procuravam instintivamente o causador daquele constrangimento. Alguém havia feito xixi nela e aquilo não ficaria impune. Qualquer coisa que se mexesse a poucos centímetros seria suspeito. Ela não perdoaria.

Sem perceber, passou pela lesma que, finalmente, havia conseguido chegar na base da árvore. Estava subindo, deixando um rastro de gosma nojenta para trás. Ele continuava olhando para a aranha que, agora, havia percebido o lento movimento da lesma e preparado o bote. A coitada era quem estava mais perto. A coitada era grande, pesada, gorda. A coitada encobriu o caramujo. A aranha não percebeu a sangria desatada daquele ser desesperado. Só tinha olhos para a lesma. Caminhou apressada até o alvo. Cravou suas presas impiedosas na pele da pobre donzela. Sentiu que o corpo da lesma curvou-se num último suspiro.

O caramujo percebeu um novo misto de sensações. Estava aliviado porque ganharia minutos preciosos para fugir dali rapidamente. A aranha teria um grande trabalho para envolver a lesma na teia e levá-la árvore acima até seu esconderijo. E sentiu um dó maior ainda do bichinho que havia, sem saber, se sacrificado por ele. Mas era a lei da selva.

Chegou ao pé da árvore. Ainda estava correndo como um louco. Se o jaboti o visse, ficaria impressionado. Nova checada nos batimentos por minuto: 95%. Oh, não! Certamente não teria fôlego para chegar ao final. Certamente não conseguiria derrotar o sol. Droga! Tanto investimento em equipamentos de última geração, tênis mole adequado para o seu tipo de pisada, aqueles halteres para fortalecer músculos superiores, a dieta rica em carboidratos e proteína. Tudo estaria perdido.

Diminuiu o passo. Retirou a embalagem de carboidrato em gel da pochete. Era sua última fonte de energia. Deu um gole grande de água para rebater o gel e não enjoar. Passou a correr oito centímetros a cada cinco minutos. Era menos do que a média que deveria manter. Mas contava com os preciosos centímetros que havia conseguido conquistar naquela fuga.

Olhou para a sua toca. Estava longe, a pouco mais de quatro metros. Nova limpada no suor, uma leve chacoalhada nos braços para aliviar a tensão. Baixou um pouco o ritmo das respirações. Tentava aproveitar ao máximo as inspirações e soltar o ar pelo nariz. Só assim conseguiria voltar aos batimentos normais.

Sentiu a bolha pegar novamente. Era na lateral. Olhou para o tênis enquanto corria e viu que havia respingos de xixi exatamente onde ela doía. A balançada final no bigolim! Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Concentrou-se. Não ia deixar aquela maldita derrotá-la. Era questão de vida ou morte. Se fosse derrotado, aceitaria isso vindo do Sol, não de uma pele solta metida à besta. De jeito nenhum. Ajustou a corrida para não forçar aquela parte. E se deu bem.

Duas horas mais tarde, chegou ao ponto onde encontrara a lesma naquele mesmo dia, ainda pela manhã. Sentiu o remorso bater novamente. Sentiu cãibras também. Pior. Sentiu uma dor de barriga filha da mãe. O gel. Só podia ser ele. Bem que seu amigo zangão o havia avisado sobre gel de qualidade duvidosa. Tinha experiência no assunto. Treinava as abelhas operárias da colméia e, de quebra, dava aulas de abdominais para a abelha-rainha. Tinha o abdômen de tanquinho, era invejado por todos por seu porte atlético.

Encontrou umas folhas de grama mais altas. Atrás, não havia nada. Nenhum inseto perigoso. Se havia enfrentado a morte por causa de um simples xixi, com cocô não teria a mesma sorte. Não cometeria a mesma gafe duas vezes. Checou o ambiente à sua volta. Tudo tranqüilo. Checou o monitor. Eram quatro e vinte da tarde. Tinha duas horas e nove minutos para completar mais aquela metade de jardim, em tempo de ver o pôr do Sol. Dois metros e pouquinho. Tinha que se aliviar, mas não podia permitir que seus músculos esfriassem. Tirou o shorts novamente e o jogou alguns milímetros para o lado. Ficou de tênis e meia. Postou-se atrás da folha mais alta de grama. Precisava ser rápido. Baixar, fazer, esfregar a bunda para limpar e subir. Respirou. Baixou. Fez. Esfregou. Subiu.

Deu dois passos para o lado para pegar o shorts. Vestiu. Percebeu que havia alguns resquícios de cocô em suas pernas, puxados para cima quando trajou a vestimenta. Achou melhor não esquentar com mais aquele problema. Respirou fundo. Putz! Que fedor. Péssima hora para puxar o ar. Corre, caramujo. Corre! Foi tudo o que pensou. O vento estava a seu favor, então precisava se afastar dali rapidamente, ou não se livraria daquele cheiro.

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