Outras férias de verão - parte 2
18 de março de 2008
E a Tia Solange – já falei que ela era muito bonita? – era obrigada a ler que eu tinha usado uma bermuda nova; que eu tomava um picolé de chocolate na ida, um de côco na volta; que ganhei um frisbee e paramos no posto de troca da estrada para pegar o prêmio; que meu avô tomou um ônibus sozinho para Massaguaçu para ver os amigos e não avisou ninguém; que minha mãe pescou uma arraia nanica na praia; que ganhamos um jogo de 6×0, no esquema vira-três-acaba-seis contra um time que jogava até bem, mas que amarelou na hora do “pega para capar”; que a tia Néli ganhou mais um campeonato de buraco, em dupla com a tia Jô; que fizemos campeonato de arroto no carro, voltando da praia, só a molecada (e eu perdi, droga!); que dormi na primeira meia-hora do desfile de Carnaval e acordei somente quando o sol havia raiado e a última escola do dia já estava de saída do sambódromo; que passávamos inseticida nos quartos e dávamos bronca em quem tinha esquecido o travesseiro e abria a porta para pegá-lo; que atiramos um réu na pipa do moleque chato da rua de trás; que fomos de bicicleta até a praia das Palmeiras, quando o combinado era até o centro para tomar um suco; que os meninos da turma ficaram com as meninas da turma e todos disfarçavam bem para burro no dia seguinte, debaixo da barraca na praia da Lagoinha; que algumas das meninas ficaram com mais de um na mesma turma – ops! Não era para contar isso, mas agora já foi e estou com preguiça de apagar; que tomamos umas a mais na Martim de Sá e voltamos cantarolando pela rua; que sacaneávamos os pais nos jogos de pôquer a grãos de feijão; que fizemos negociata barata com a tia que vendia gelinho – um suco congelado num saquinho - do outro lado da rua, comprando três pelo preço de dois; que subimos a pé o Morro da Asa Delta; que botávamos fogo nas aranhas da casa, que paqueramos demais a filha do rapaz que alugou a casa ao lado e jogava Lig-4 com a gente; que fazíamos competição para saber quem dos primos pulava mais alto da rede, enquanto os outros a balançavam com toda força; que apostávamos quem comeria mais pedaços de pizza feita no forno à lenha pelos pais, com massa bem fininha; que eu perdia sempre no pingue-pongue quando jogávamos ‘família’; que perdia mais ainda no bilhar, naquela mesa que girava o tampo – de um lado era madeira e podia ser usada como mesa normal, do outro era o feltro verde com as caçapas – por causa da minha gigantesca altura; que disputávamos quase no tapa mais um pouco de ventinho do ventilador no quarto dos fundos, quando 6 ou 7 moleques dividiam beliches, camas e colchões; que nenhum dos moleques conseguia dormir direito, porque meu saudoso avô Albino dormia no quarto ao lado, sem porta, e roncava para dedéu; que o chuveiro dos quartos do fundo dava choque quando desligávamos; que não víamos a hora de voltar da balada para comer pão com requeijão e um copo de leite com achocolatado – já carinhosamente separados pelas mães antes de irem dormir - que algumas vezes precisamos pular na piscina em plena madrugada para matar um pouco da bebedeira antes de entrar em casa; que apelidamos a empregada nova de “speaks a lot” porque a mulher falava pelos cotovelos; que quase tivemos uma síncope quando vimos a mesma “speaks a lot” de pijaminha curto cor-de-rosa e transparente, sem sutiã e de calcinha preta, empurrando a barra-forte do marido às 6 da manhã, que era segurança e ia trabalhar logo cedo; que fizemos racha descendo a serra logo que tiramos carteira de motorista; que arrumamos briga com uns caiçaras em plena balada na praia, mesmo sem fazer idéia do porquê; que fizemos bunda-lelê de balsa para balsa na travessia de Ilhabela; que adorávamos a rosca de côco que a tia Miriam fazia; que fizemos guerra de temperos quando ficamos sozinhos em casa, fazendo churrasco, enquanto os pais jantavam num restaurante legal na estrada para São Sebastião, e foi orégano para tudo que era lado; que a gente não fazia a menor idéia de como assar uma carne, mas fazíamos caras de entendidos e queimávamos várias picanhas; que ninguém agüentava a quantidade de bobagens que o Maurício, nosso amigo, dizia antes de dormir, e tomava travesseiradas até não agüentar mais; que sugeríamos um tema para o Rodrigo dissertar sobre, porque se ele dormisse antes de nós, teríamos que mudar de quarto, tamanha a altura do ronco do rapaz; que nosso saudoso avô Albino acordava com as bobagens do Maurício e nossas conseqüentes risadas e nos dava bronca; que a avó América pediu um gole da nossa long-neck e virou metade da garrafa porque estava com calor; que invadíamos a casa de trás para buscar as bolinhas de pingue-pongue perdidas e que passavam por um buraco nanico da parede, que…
É. Pensando bem, como eram legais as tais férias de verão. Fizeram muito bem nossas professoras em insistir tanto para escrevermos sobre isso, repetidamente, a cada novo ano. Do meu lado, mesmo que seja tarde, porque nunca mais ouvi falar da professora Solange (sim, muito bonita, mas era MINHA professora! Só minha!) cabe aqui o meu sincero MUITO OBRIGADO. Olha só a quantidade de lembranças boas que tenho hoje em dia, recordações que vou certamente levar comigo, para toda a vida.
Um grande beijo, professora, esteja onde estiver.

