Outras férias de verão - parte 1
18 de março de 2008
Sempre quis escrever algo sério sobre esse tema. Para valer mesmo, sem a ingenuidade do primário, quando tentava lembrar de tudo que havia realmente feito e rabiscava umas três ou quatro páginas, ou o pouco caso do ginásio, quando inventava algo que fosse mais rápido e menos doloroso para escrever, já que tinha que utilizar todo o tempo disponível para estudar Física e resolver aquele problema do trem A com velocidade X que vem de encontro ao trem B com velocidade Y, e determinar quanto tempo para a colisão e coisa e tal.
E era sempre a mesma história. Não a redação em si, mas o tema. Toda vez que começava o ano letivo, fosse em qualquer série, a professora de Língua Portuguesa pedia esse título como primeira redação do ano. Minhas férias de verão.
Pois eu torcia o nariz todo começo de ano. Se tinha uma coisa que eu detestava fazer era escrever redação sobre as tais férias de verão. Acabava sempre me perguntado se as professoras faziam isso com os alunos porque não tinham férias e estavam curiosas para saber o que os alunos haviam feito, já que haviam passado dois meses trancafiadas nas salas dos professores. Sem água. Sem luz. Sem bolachas de água e sal e café melado. Sem poderem ir ao banheiro. Sem um tele-jogo para passar o tempo. Com musgos crescendo pela parede.
Uma vez, na quinta série, levei bronca da Tia Solange, porque sugeri que fizéssemos uma troca: eu escreveria o texto em detalhes, mas ela prometeria fazer um curso de criatividade. Pelo amor de Deus! Todo ano a mesma coisa, não havia quem agüentasse! E tome advertência para minha mãe assinar. Fazer o que? Quando a cabeça não pensa, o corpo padece, já dizia Dona Sueli, minha mãe.
Pior era quando ela, a “psôra”, escolhia algum aluno para ler a redação. E o cara lia, entusiasmado, em alto e bom som, que tinha ido para o sitio da avó, que viu lindas flores do campo, com beija-flores saracoteando para lá e para cá, que pescou lambaris com seus amiguinhos na represa, que empinou pipa sob uma brisa refrescante, que plantou uma mudinha de violeta e deu de presente para a tia Palmira, que ajudou uma abelhinha a sair sã e salva da piscina, antes que se afogasse…. Ahh! Que sono.
Hoje em dia, já adulto (não grande, alto, forte ou bonito, apenas adulto…), formado, pós-graduado, profissional bem visto no mercado de trabalho e até arriscando umas aulas aqui, outras ali, escrevendo uns textos elogiados por alguns amigos mais desajustados, fiquei com uma vontade danada de escrever sobre isso. Bem feito pra mim. Queimei a língua.
E vem a questão que não quer calar: será que era aquilo tudo mesmo que a professora Solange - Ah! Como ela era bonita… e que letra redondinha - queria ler? Ou ela me achava apenas um malinha sem alça? Aposto todo meu dinheiro na segunda opção. Fácil. Porque eu entrava nos mínimos detalhes, tamanho o meu desgosto em relatar aquilo. Contava tim tim por tim tim. Era quase um diário, com hora, local e razão. Era um relatório da CIA. Só faltava a foto do criminoso.
Mas voltando à minha vontade de escrever algo sério sobre isso, meus verões eram sempre divertidos. Na praia, em Caraguatatuba, com a família. Pais, tios, primos, amigos. Uma delícia. Dois picolés por dia. Você quem decidia o horário, quando utilizar o benefício. Mas a cota eram dois. Só. Nem adiantava espernear, chorar, prometer lavar a louça do café. Só teria chance de mais picolé se algum da sua cota do dia viesse com o palito premiado. E, se perdesse a cota, tomasse apenas um, não era cumulativo. Dois picolés ou um cornetto, que era mais caro. E era um grande barato! (desculpe o trocadilho, mas até que ficou legal !)
Depois tinha o futebol na areia. Éramos seis moleques, com golzinhos-caixote em estrutura de ferro, sem rede. Cabiam justinhos no porta-malas do carro e a velha e boa geladeira vermelha, com sanduíches, refrigerantes e água, ia encaixada no meio da estrutura. Normalmente, começava o futebol e, logo em seguida, vinha uma chuva lascada. Chuva de verão. Nós continuávamos jogando – era muito mais legal jogar com chuva – enquanto os pais se espremiam debaixo da velha e boa barraca, listrada em azul, branco e com detalhes em vermelho.
Essa barraca, aliás, mereceria um texto à parte. Se ela falasse, contasse tudo o que viu, tudo o que aprontamos, daria um livro maior que a série Cavalo de Tróia. Ia precisar dividir em volumes. A barraca era nossa referência quando saíamos para andar na areia, para paquerar as meninas, de ponta a ponta da praia. Avistávamos a bendita de longe. E durou anos. Anos, não. Décadas. Umas três pelo menos. Foi debaixo dela, por exemplo, com o jornal de domingo à mão, que vi meu nome na lista de aprovados no vestibular. E foi ali mesmo que tomei meu primeiro trote. Sorte era que ninguém levava tesoura à praia. Mas que me deram “cuecão” e fizeram de mim um gigante bife à milanesa rolando molhado pela areia seca, isso fizeram.

