Tempo é dinheiro?
12 de março de 2008
Se há alguma vantagem em morar numa cidade grande, é a possibilidade única de jogar horas do seu dia pela janela do carro. Sim, é uma vantagem. Pelo menos, é como procuro ver essa situação, já que pouco posso fazer para mudar o panorama, além de sair em horários alternativos e de vez em quando fazer uso da minha motoca – o que acaba sendo mais perigoso, sem dúvida, porém mais rápido.
Por dia, três longas horas seriam desperdiçadas, não fosse a habilidade em transformar esses momentos em pura reflexão, em pensamentos e idéias que ou solucionam os problemas no trabalho, ou não passam de meras filosofias sobre questões cotidianas.
E foi num desses dias mais conturbados, em que a média ultrapassou todos os recordes (viva a cidade grande!), que me peguei pensando e anotando algumas bobagens sobre o que ouço muito no mercado financeiro: tempo é dinheiro.
Será mesmo?
Cenário 1: você é um cara bem sucedido, trabalha de sol a sol, de domingo a domingo, em compensação recebe uma boa grana no final do ano, atingindo os sete dígitos. É bacana, não dá para negar. Todo novo dia que começa, apesar dos seus insistentes pedidos para o Papai do Céu mudar esse cenário, recebe gratuitamente vinte e quatro horas para usar como bem entender. Nem mais, nem menos. Nem adianta tentar comprar um pouco mais, porque não vende em lugar algum.
Cenário 2: você veio de uma família humilde, a vida não o presenteou com oportunidades de estudo e emprego como sonhava, precisou trabalhar desde muito jovem para compor uma renda melhor em casa e não viu a infância passar. Todo novo dia que começa, apesar dos seus também insistentes pedidos para o mesmo Papai do Céu mudar esse cenário, recebe as tais vinte e quatro horas para fazer bom uso. Nem mais, nem menos.
Cenário 3: você é uma minhoca, nasceu, cresceu e vive até hoje na mesma jardineira, entre mini-rosas e azaléias e recebe, de vez em quando, uma boa dose de adubo para juntar os amigos e fazer uma festa. Todo novo dia que começa, além da água logo cedo caso o dono da casa se lembre de molhar as plantas, terá quantas horas à disposição? Pois é. Vinte e quatro.
O dia não estica para ninguém. Seja na Bósnia, em Tóquio ou em São Vicente, seja você um ermitão, um surfista, um capacitado engenheiro naval, ou um bisão em peregrinação até o monte Kilimanjaro, seu dia terá a mesma quantidade de horas de qualquer outro ser vivo do planeta.
Pior ainda, se você conseguir se organizar tão bem, se der tudo certo a ponto de chegar ao final do dia trinta minutos antes do planejado, não tem como guardar essa sobra para o dia seguinte. Esqueça. Vai gastá-lo por bem ou por mal. Vai gastá-lo correndo na esteira ou parado olhando para a TV. Não tem como alterar isso. O máximo que vai conseguir é mais meia hora de sono – o que, vamos concordar, é artigo de luxo atualmente.
O ponto-chave dessa questão é COMO você utiliza suas horas, porque dizer que tempo é dinheiro é uma baita enganação. Tempo é, sim, o bem mais valioso que temos. Pena é que pouca gente se dá conta disso. Tempo é a única coisa que você terá garantido no dia seguinte, haja o que houver. Mesmo que a Bolsa caia. Mesmo que declarem guerra. Até mesmo se seu time cair para a série B.
Se julga que trabalhar é o que mais lhe satisfaz, aproveite. Se prefere, ao contrário, ficar de barriga para cima tomando Sol em plena quinta-feira à tarde, vá em frente. Agora se perceber, em algum ponto da vida, que está apenas perdendo seu precioso tempo, pare um pouco – tudo bem, estou pedindo para você gastá-lo mais ainda, mas é para o seu bem! – e pense: o que eu deveria fazer para mudar esse quadro? Por onde começo? E onde quero chegar?
Só assim, juntando pensamento de qualidade, força de vontade e, claro, um pouco de tempo, você terá aquele sorriso besta de satisfação nos lábios, aquela sensação de que aproveitou cada minuto do seu dia e, ainda por cima, será capaz de conseguir algum tempo extra como troco.
Está esperando o que? O tempo passar?

