Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Buffet infantil - Parte 2

6 de março de 2008

O que não me surpreende é que, se você estiver acompanhando seu filho ou, quem sabe, sua sobrinha, nos brinquedos da casa, vai notar que sempre tem um garoto gordo, meio lazanhudo, bochechas rosadas, suado para caramba, que parece que nunca viu um parquinho. Esse moleque corre para tudo que é lado, quer brincar em todos os brinquedos ao mesmo tempo, atropela seu filho, sua sobrinha, o aniversariante, o monitor, todos. E adivinha só a qual família o garoto pertence? Hein? Hein? Uma nota, maestro Zezinho! Pois é. Agora você entendeu porque as titias se matam por causa de um pastel. É para alimentar o menino delicado, educado, gentil e limpinho que acabou de pisar na mão da sua sobrinha para ultrapassá-la no escorregador.

Já farto das peripécias do garoto, nem pense em esboçar uma reação. Faria tudo para passar perto do moleque, como quem não quer nada, e dar um peteleco na cabeça dele? Você não vê a hora de pegá-lo na fila do bebedouro e beliscar bem na dobrinha com assaduras da barriga? Está louquinho para grampear uma célula adiposa da pança dele nas células adiposas do joelho dele? Pois eu o desaconselho totalmente.

Essa criança está para suas tias e primas gordas sedentas por salgadinhos, assim como uma formiga-rainha está para as operárias de seu formigueiro. Quando a rainha está em perigo, começa uma corrida louca do batalhão de operárias para salvá-la ou, no mínimo, ocultá-la dos predadores. Dessa mesma maneira funciona com o moleque e suas lambisgóias. Esse bedelho tem um grito inaudível para seres humanos, mas que suas operárias escutam de longe, muito longe. É você dar-lhe o safanão aqui, e começa a correria ali. Todas sedentas por seu sangue. Todas loucas e desenfreadas para arrancar-lhe os tendões com alicates de bico. Ouse pegar o moleque e não sobrará um pêlo grudado em seu corpo.

Ao contrário, convença o seu filho ou sua sobrinha de que aquele brinquedo causa gripe, que ela vai fazer xixi na cama se continuar rodando no carrossel, que Papai Noel não trará presentes se ele jogar mais uma partida de futebol no vídeo game. Prometa que vai comprar um carro zero para eles, antes de completarem 18 anos. Qualquer coisa. Contanto que você afaste a criança daquele Tiranossauro Rex obeso e sem controle.

Chega a hora do mágico. Tudo bem, vamos dar crédito ao cara. As mágicas não são lá essas coisas, mas o rapaz se vira bem e as crianças se divertem. Não importa se o cara é contador e trabalha de sol a sol num escritório no centro de São Paulo durante a semana e, portanto, não tem muito tempo para praticar. O que importa é ver o sorriso de surpresa dos meninos e meninas. De verdade. Os pais não valem. Já passaram por todas as festas possíveis, tentando descobrir os segredos das mágicas, já ficaram horas sentados no sofá, domingo à noite, esperando as histórias do Mister M, que entregava os truques em rede nacional. Então, para os pais, mágico não é mais diversão. Mas a festa é infantil, lembra-se? Que se danem os pais.

E o cara, na maior boa vontade, depois de uns três ou quatro truques, pede um voluntário na platéia de crianças e quem (repito, quem?) se oferece, levantando lá atrás, pisando de novo na mão da sua sobrinha? Ele mesmo. O gordinho. Quem mandou seguir o meu conselho? Devia era ter dado uma tamanha bofetada no moleque, daquelas de virar o roliço do avesso, para não sobrar nada. Mas, não, você tinha que ouvir o autor, não é? Bem feito.

E o profissional da mágica, meio sem graça, acaba cedendo e chama o pançudo, enquanto pede à assistente que leve um pirulito para a sua sobrinha, que está chorando desconsolada. Sua última esperança é que o mágico realmente acerte a mão dessa vez e faça aquela praga desaparecer, que o mande para uma dimensão só dele. Que o mande para o Alasca e perca o contato. E nunca mais consiga trazê-lo de volta. Melhor ainda que o problema das titias gordas sanguinárias será dele, e não mais seu.

Uma música aqui, um simsalabim ali, e eis que aparece uma pomba no braço do moleque, onde antes estava um simples lenço. Divertido. Cativante. Só que ficou melhor ainda, porque a pomba, assustada com o grito de surpresa do garoto, fez o “número 3” no braço dele. Pomba tem intestino solto. Assusta fácil. Moleque escandaloso tem grito solto. Assusta fácil. Junta-se lé com cré e temos a receita perfeita. Uma lata de óleo em forma de criança com o braço cagado. Deve ser por isso que a pomba representa a paz. A paz que você deve estar sentindo agora, ao ver a cara de bunda daquele ser gordinho, olhando para suas tias varizentas, que nem perceberam a mancada e continuam caçando o garçom, deve ser algo realmente fantástico.

Feliz da vida, você espera o show de mágica acabar, pega sua sobrinha, vai até o contador, digo, mágico, e pede um cartão. Vai indicar o cara para todos os seus amigos com filhos – menos para aqueles cujos filhos vêm com bochechas rosadas como item de série.

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