Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Buffet infantil - Parte 1

6 de março de 2008

Adoro festas infantis. São um grande barato. Para as crianças de hoje em dia, então, deve ser uma loucura. Principalmente as mais modernas, que acontecem com dia e hora previamente marcados nos conhecidos e cada vez mais equipados e concorridos buffets infantis. É um mundo inteiro de brinquedos, bexigas, fliperamas, piscina de bolinhas semi-olímpica, comidas variadas daqui, refrigerantes de todos os tipos e modelos dali, tudo muito colorido, um montão de doces, versões diversas de brigadeiros e – ai, ai! – bolo. Se para nós, adultos, já é difícil resistir a um belo e gorduroso quitute – por causa do regime, dos bons modos, da boa forma prometida para o próximo verão – imagine para uma criança, que não deve nada para ninguém. E é também um prato cheio para quem fica um pouco atrás, só de olho nos absurdos que acontecem.

Não havia esse modelo de festas na época em que eu era criança. Eram realizadas no quintal de casa mesmo, mas muito divertidas. As que meus pais faziam para mim, então, melhores ainda. Faço aniversário no final de junho, então o tema sempre era festa junina. Todos os convidados vestidos a caráter, com chapéus de palha, remendos costurados nas calças jeans, uma camisa quadriculada e o lápis de maquiagem da mãe para fazer uma costeleta maior, um bigodinho torto, um cavanhaque e, quem sabe, umas sardas.

Meus pais preparavam as comidas típicas, com quentão, vinho quente, pipoca, arroz doce, amendoim, pinhão. E ainda tinha aquele pacote cuidadosamente embrulhado que ficava escondido em cima da geladeira, segredo que durou um ou dois anos. Eram biribinhas e bombinhas daquelas mais fracas, para a criançada se divertir. Delicioso. Não víamos a hora de o meu pai liberar logo a preciosidade, para a gente poder explodir uns copos plásticos, colocar biribas no corredor e esperar um pai desavisado pisar e assustar, para rirmos à beça.

Outra época. Já se vão alguns anos. Não vou dizer quantos, é claro. Você vai acabar pensando que, na minha festa, meus convidados mais novos eram Pero Vaz de Caminha e Pedro Álvares Cabral. Melhor deixar para lá. Não insista.

Muito provável que, hoje em dia, uma idéia de festa infantil no melhor estilo junina nem pegasse. Nossos filhos já esperam algo parecido com as festas high-tech que freqüentam. No mínimo. Precisa ser num buffet exclusivo, alugado por algumas horas e, quanto maior, melhor. Para eles. Para nós, pais, quanto mais longe da zona Sul, melhor. Menor o preço. Se eu pudesse, faria a festa do meu filho na África, para ficar bem baratinho. Os convidados que se virassem para chegar até lá. Tenho amigos que fazem festa do filho no interior de São Paulo e não reembolsam o pedágio, cacete! Que mal há em obrigá-los a fazer uma viagem internacional? Sem reembolso, já aviso de antemão.

Mas o foco do texto são os adultos participando das festas infantis. Logo de cara, você consegue definir quem são os escolados nesse tipo de festa. As pessoas que vêm, ao longo dos últimos anos, só acumulando experiências. Esses caras nunca chegam mais do que meia hora mais tarde do que o horário marcado no convite. Sabem muito bem que são pouquíssimas as mesas e, portanto, se demorarem um pouco mais que isso - uma hora por exemplo - terão que ficar de pé ou numa mesa perto do banheiro. Então chegam antes e lotam duas ou três mesas com suas bolsas, casacos e carteiras. Tudo para garantir que seus familiares fiquem todos juntos. E que se danem as outras senhoras e mulheres grávidas. Elas que tivessem chegado mais cedo. Ceder um lugar? Jamais. Perdem a perna, mas não cedem uma cadeira. Arranquem-lhe um olho, mas tirem as mãos agora da mesa dele. É assim que eles pensam.

E eis que os garçons começam a passar os tais famosos quitutes. Mini-hambúrguer, mini-esfiha, mini-coxinha, mini-empadinha. Fome gigante. As titias abrem um guardanapo nas mãos e olham para o garçom. Rapidamente, começam a calcular o tamanho do prejuízo, ou seja, até o cara chegar à mesa delas, quantas pessoas se atreverão a pegar um salgadinho? “Droga! O panorama não é nada bom. Ele está muito distante ainda. Se chegar até aqui, ou vai ter só uns 4 ou 5 para sentir o gostinho, ou vão chegar frios. Droga, droga, droga. Faz alguma coisa, Madalena. Ô mulher parada, viu?”.

Pois saiba que os profissionais dos buffets são muito espertos com esse tipo de gente. Sacam essa turma de longe. Sacam semanas antes. E fazem o que fazem de propósito. Utilizam desvios para fazer o caminho ficar maior e maior, só para irritar as titias. Duvida? Repare na próxima vez. Repare, por favor. Se eles pudessem, sairiam da cozinha, pegariam a Rodovia Carvalho Pinto, ofereceriam quitutes nos pedágios, fariam a volta em Petrópolis, voltariam por toda a Dutra, fariam uma parada estratégica em São José dos Campos – pit-stop para um xixi amigo - e só então chegariam na mesa das esfomeadas de plantão armadas com seus guardanapinhos abertos ingenuamente sobre as palmas das mãos, fazendo carinha de cão labrador esperando a comida.

E quando um garçom mais desatento resolve ser caridoso e sai da cozinha com a bandeja quentinha indo direto para mesa delas, é um Deus nos acuda. Você tem logo ali, ao seu lado, pertinho, pertinho, um programa do Animal Planet, em que as leoas esfomeadas avançam sem dó sobre um bisão perdido. O pobre coitado não consegue nem respirar. Para não deixar o cara sair da roda, uma delas se coloca bem atrás dele. Se der um passo, toma uma bica no calcanhar. Se puxar a bandeja, é dedo no olho. Só vai se livrar quando todas as felinas estiverem satisfeitas, com seus guardanapos lotados e toda a prole estiver com a comida garantida. Mas foi só o primeiro round da luta. Não perca a próxima etapa, agora contra o cara do pastelzinho, depois dos nossos comerciais.

Logo em seguida vêm as mocinhas com as bebidas. Uma bandeja redonda, alguns copos plásticos, você consegue identificar o refrigerante pela cor. Mais escuro, refrigerantes de cola, transparentes são de limão, cor de chá é guaraná e, se for o caso, um copo solitário com líquido laranja, com bebida da mesma cor, digo, da mesma fruta. E a seqüência de perguntas: “É diet? Tem tônica? Arruma umas pedrinhas de gelo para a mesa toda?”. Haja fé. Haja paciência.

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