Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

A Saga do Caramujo

26 de março de 2008

Acordou cedo para fazer aquecimento antes da batalha. O Sol nem havia raiado ainda no horizonte. Estava tudo dentro do planejado. O dia seria longo e ele, como bom caramujo, precisava se apressar, mas não podia se esquecer dos alongamentos. Ficou conhecido nas redondezas como o mais rápido caramujo que um dia pisou neste mundo. Era um atleta de ponta, sem patrocínio, porque os tempos estavam difíceis, mas isso não tirava sua vontade e sua habilidade em desafiar-se constantemente. Tinha um pique danado. Era um caramujo, não um bicho-preguiça.

Tomou uma vitamina fortificante, daquelas bem reforçadas. Não podia iniciar aquele período extenso de atividades em jejum, senão poderia ter hipoglicemia, e isso não seria nada bom.

O grande desafio seria ir até a árvore do jardim, colher tudo o que agüentasse carregar e voltar, sem que o Sol tivesse ido embora. Havia tentado isso há alguns meses, chegou perto, mas quando parou na porta da sua toca – além da casa nas costas, habitava um buraco na parede, por causa da TV tela plana de 1 polegada que havia adquirido - só conseguiu ver os raios por cima da montanha e aquele laranja bonito do fim de tarde. O Sol mesmo, já tinha ido dormir. Foi por pouco. Muito pouco.

Resolveu não se dar por vencido e treinou intensamente antes de fazer uma nova tentativa. Aumentaria as chances de sucesso. Ficou quatro meses fazendo polichinelos, flexões de braço, agachamentos, pique no lugar, puxou uns pesos, realizou tiros de corrida, revezando com caminhadas leves, para trabalhar o anaeróbico - aumentaria sua resistência. Corria diariamente ao redor do vaso de pimenta. Abdominais. Muitas abdominais. Treinou com afinco, até que chegou o dia em que se sentiu confiante.

Dispunha de pouco mais de treze horas para cumprir o enduro. O Sol nascia por volta das cinco e cinqüenta e sumia, impiedoso, minutos depois das seis da tarde. Contava com treze horas e meia, no máximo.

Alongou-se com cuidado e meticulosamente. Todos os músculos e tendões teriam que estar aquecidos. Da mesma forma, não podia abusar. Vai que sentisse uma fisgada e toda a preparação fosse por água abaixo? Dessa vez, nada ia atrapalhá-lo. Era caramujo, mas não era burro. Até uma dieta rica em carboidratos na noite anterior ele havia comido. Receita de uma nutricionista da TV, que dava conselhos para os corredores da maratona de final de ano.

Tênis prontos e amarrados. Shorts vestido - o mais confortável, com abertura lateral e bolso interno, para levar documento e uma grana caso precisasse. Camiseta com tecido que não segura o suor, para não atrapalhar e ficar pesada quando molhada. Pochete com garrafa de água, óculos escuros e gel de carboidratos atada à cintura. Para ganhar alguns segundos, depilou o corpo, mesmo não tendo pêlos. Ajustou as antenas.

Abriu a porta da toca. Olhou para fora, o jardim ainda orvalhado, aquele gramado imenso à sua frente. A árvore a alguns metros, linda, formosa, cheia de folhinhas apetitosas. Olhou para o leste, para checar o Sol. Nada. Aguardou mais alguns segundos, esperando que a primeira curva do astro aparecesse atrás da montanha. Postou-se de frente para a parede, mãos abertas e palmas apoiadas na altura do ombro. Uma perna para a frente, joelho dobrado. A outra, esticada, mais para trás, com a ponta do pé apontada para a parede. Estava mantendo o aquecimento e dando uma alongada a mais. Não queria esfriar.

O Sol deu o ar da graça no horizonte. Os primeiros raios riscaram o céu. Tomou um último fôlego, uma respirada bem longa, encarando seu oponente luminoso com os olhos cerrados. Era um olhar de desafio. Um olhar de “está olhando o que, filho da mãe?”. E partiu.

A cada cinco minutos, checava o monitor cardíaco no pulso, para estar dentro da distância mínima que precisava percorrer. Neste tempo, em seus cálculos, precisava ter deixado dez centímetros para trás. Uma marca ousada. Em uma hora, percorreria um metro e vinte centímetros. Se tudo estivesse bem com a oxigenação, em quatro horas estaria na base da árvore. Eram quase cinco metros no total.

Depois de chegar ao alvo, teria a segunda parte da jornada. Subir no caule escorregadio, totalmente vertical. Mais dois metros de pura ladeira. Novamente nos seus cálculos, demoraria quase três horas para subir – por ser íngreme, não teria o mesmo aproveitamento obtido na grama, mas seria compensado pela descida, mais rápida. Para baixo, todo Santo ajuda. Uma hora para colher as folhas e uma hora para descer. Depois, mais quatro horas para voltar. Com a parada estratégica para tomar fôlego, água e fazer um xixi, quatro horas e meia. E vinte e nove, na verdade, para dar tempo de olhar para o Oeste e ver o Sol, derrotado, enterrar-se atrás da montanha, envergonhado por ter sido batido por um caramujo. Aliás, “o” caramujo.

E estava indo muito bem. Mantinha a respiração ajustada ao ritmo dos passos. Na metade do jardim, passou por uma lesma que andava muito lentamente. Riu sozinho agradecendo a Deus por ter nascido caramujo. Jamais conseguiria atingir aquele objetivo audacioso se fosse um bicho tão lerdo quanto uma lesma.

Por outro lado, morria de inveja de um outro bicho, muito maior que ele, muito mais robusto, um gigante. Sem dúvida, alguém a ser invejado, alguém que servia de modelo de velocidade, mobilidade, agilidade. Foi quando sentiu um estranho deslocamento do ar. O vento estava sendo empurrado exatamente por aquele ser veloz. Sentiu um frio na barriga. Se estivesse no caminho dele, seria atropelado. Olhou para trás. Ele estava vindo. Apertou o passo. Passou a correr doze centímetros a cada cinco minutos. Aquilo não seria bom para a performance. Mas precisava se livrar do perigo. Decidiu não mudar o trajeto, até que aquele monstro mostrasse para onde ia. Dez minutos e vinte e quatro centímetros depois, tornou a olhar. O vento ficara mais forte, o monstro se aproximava. Por uma sorte grande, percebeu que o bicho mudara levemente de direção. Traçou uma linha imaginária do trajeto dele. Passaria perto, mas não seria mais o alvo.

Afrouxou o passo. Os batimentos haviam passado dos 85%. Precisava se recuperar, voltar para os 65%, ou não chegaria no final. Era sua única chance. Sentiu uma bolha começando a se formar, mas não se entregaria. Olhou para o lado. Aquele animal o havia alcançado. E passava por ele rapidamente. Deus do céu, como ele era rápido! Se o Criador havia acertado a mão numa criatura, tanto em design quanto em estabilidade, teria sido nele. Ficou feliz em estar tão perto de um ídolo, um ícone e, quase sem perceber, acenou:

- Bom dia, jaboti!

- Bom dia, caramujo. Tenha um ótima corrida.

E sumiu no meio do mato. Impressionante a categoria daquele animal ao correr. Que elegância. Que corrida apurada. Olhou novamente para o monitor cardíaco. Tudo voltava ao normal. A respiração estava ajustada aos passos. A bolha havia dado um tempo. Limpou o suor do rosto e concentrou-se.

A Saga do Caramujo - Parte 2

Quatro horas depois, eis que finalmente chega à árvore. Imensa, poderosa, absoluta. Um grande obstáculo, talvez o mais difícil, mas não impossível de ser batido. Parou rapidamente para tomar um gole da água e retomou a corrida. Foi uma subida lenta. Alguns musgos o atrapalharam muito. Para quem não é caramujo, correr no musgo é extremamente difícil. Escorrega demais. Em alguns momentos, parecia que corria sobre uma esteira, sem sair do lugar. Mas a obstinação era tanta que nada o impedia. Foram três horas árduas, pegando ainda o Sol a pino, do meio dia. Suava como um camelo. Ao chegar ao topo, deu uma olhada rápida em volta. O jaboti agora estava longe demais. Tão longe que parecia pequeno, do tamanho de uma joaninha. Olhou orgulhoso para o caminho que havia vencido. A lesma ainda estava lá, a quase um metro da árvore. Sentiu um misto de orgulho por ser um bicho muito mais evoluído, mas também uma pena danada da pobre coitada. Certamente ela perderia a novela das oito. Mas, cada um com seus problemas, e ele havia apenas vencido metade da sua jornada.

Uma hora para colher folhas. Zerou o cronômetro. Traçou planos para otimizar o tempo. Iria até o final do galho sem pegar nada. Sem peso, o aproveitamento seria maior. Na volta, pegaria as folhas. Quanto mais pesado, mais perto da descida estaria. E foi o que fez. Uma hora depois estava pronto para descer. Cinco folhas acomodadas tranquilamente dentro da casca que levava nas costas. O bastante para uma semana de comida natural. O bastante para não atrapalhar a corrida de volta.

Alongou-se um pouco mais. Na volta, não poderia se dar ao luxo de sentir cãibras. Tinha que ser num tiro só. Resolveu antecipar a parada para o xixi. Aproveitaria o embalo da descida para percorrer alguns preciosos centímetros a mais, em velocidade maior. Viu um buraco no galho, escondido atrás de uma folhagem baixa. Ali seria perfeito para uma privada. Tirou o shorts, baixou a bunda – apesar de ser um caramujo macho, era educado e não queria deixar respingos nas bordas do buraco. Era caramujo, não porco. Aliviou-se. Sentiu uma brisa pegá-lo por baixo. Vento frio no fiofó. Algo estranho. Levantou-se, balançou o bigolim, pôs o shorts de volta e olhou no buraco. Uma aranha caranguejeira toda molhada de xixi de caramujo subia buraco acima, pê da vida. Sentiu um frio intenso percorrer suas costas, como se tivesse espinha dorsal.

Virou-se para a descida, engatou uma terceira marcha e correu. Correu muito, correu como nunca. Desesperado, olhos esbugalhados, adrenalina solta por todo o corpo. Na ladeira, olhou para o monitor cardíaco. Havia batido seu recorde: trinta e dois centímetros em cinco minutos. Era o recorde mundial, mas não havia tempo para comemorar. Ou corria muito, ou seria encontrado pela aranha. De atleta veloz, passaria à comida. De caçador, passaria à caça.

Olhou para trás e percebeu que sua inimiga mortal enxugava suas oito pernas com uma folha seca, enquanto os olhos procuravam instintivamente o causador daquele constrangimento. Alguém havia feito xixi nela e aquilo não ficaria impune. Qualquer coisa que se mexesse a poucos centímetros seria suspeito. Ela não perdoaria.

Sem perceber, passou pela lesma que, finalmente, havia conseguido chegar na base da árvore. Estava subindo, deixando um rastro de gosma nojenta para trás. Ele continuava olhando para a aranha que, agora, havia percebido o lento movimento da lesma e preparado o bote. A coitada era quem estava mais perto. A coitada era grande, pesada, gorda. A coitada encobriu o caramujo. A aranha não percebeu a sangria desatada daquele ser desesperado. Só tinha olhos para a lesma. Caminhou apressada até o alvo. Cravou suas presas impiedosas na pele da pobre donzela. Sentiu que o corpo da lesma curvou-se num último suspiro.

O caramujo percebeu um novo misto de sensações. Estava aliviado porque ganharia minutos preciosos para fugir dali rapidamente. A aranha teria um grande trabalho para envolver a lesma na teia e levá-la árvore acima até seu esconderijo. E sentiu um dó maior ainda do bichinho que havia, sem saber, se sacrificado por ele. Mas era a lei da selva.

Chegou ao pé da árvore. Ainda estava correndo como um louco. Se o jaboti o visse, ficaria impressionado. Nova checada nos batimentos por minuto: 95%. Oh, não! Certamente não teria fôlego para chegar ao final. Certamente não conseguiria derrotar o sol. Droga! Tanto investimento em equipamentos de última geração, tênis mole adequado para o seu tipo de pisada, aqueles halteres para fortalecer músculos superiores, a dieta rica em carboidratos e proteína. Tudo estaria perdido.

Diminuiu o passo. Retirou a embalagem de carboidrato em gel da pochete. Era sua última fonte de energia. Deu um gole grande de água para rebater o gel e não enjoar. Passou a correr oito centímetros a cada cinco minutos. Era menos do que a média que deveria manter. Mas contava com os preciosos centímetros que havia conseguido conquistar naquela fuga.

Olhou para a sua toca. Estava longe, a pouco mais de quatro metros. Nova limpada no suor, uma leve chacoalhada nos braços para aliviar a tensão. Baixou um pouco o ritmo das respirações. Tentava aproveitar ao máximo as inspirações e soltar o ar pelo nariz. Só assim conseguiria voltar aos batimentos normais.

Sentiu a bolha pegar novamente. Era na lateral. Olhou para o tênis enquanto corria e viu que havia respingos de xixi exatamente onde ela doía. A balançada final no bigolim! Não acreditava que aquilo estava acontecendo. Concentrou-se. Não ia deixar aquela maldita derrotá-la. Era questão de vida ou morte. Se fosse derrotado, aceitaria isso vindo do Sol, não de uma pele solta metida à besta. De jeito nenhum. Ajustou a corrida para não forçar aquela parte. E se deu bem.

Duas horas mais tarde, chegou ao ponto onde encontrara a lesma naquele mesmo dia, ainda pela manhã. Sentiu o remorso bater novamente. Sentiu cãibras também. Pior. Sentiu uma dor de barriga filha da mãe. O gel. Só podia ser ele. Bem que seu amigo zangão o havia avisado sobre gel de qualidade duvidosa. Tinha experiência no assunto. Treinava as abelhas operárias da colméia e, de quebra, dava aulas de abdominais para a abelha-rainha. Tinha o abdômen de tanquinho, era invejado por todos por seu porte atlético.

Encontrou umas folhas de grama mais altas. Atrás, não havia nada. Nenhum inseto perigoso. Se havia enfrentado a morte por causa de um simples xixi, com cocô não teria a mesma sorte. Não cometeria a mesma gafe duas vezes. Checou o ambiente à sua volta. Tudo tranqüilo. Checou o monitor. Eram quatro e vinte da tarde. Tinha duas horas e nove minutos para completar mais aquela metade de jardim, em tempo de ver o pôr do Sol. Dois metros e pouquinho. Tinha que se aliviar, mas não podia permitir que seus músculos esfriassem. Tirou o shorts novamente e o jogou alguns milímetros para o lado. Ficou de tênis e meia. Postou-se atrás da folha mais alta de grama. Precisava ser rápido. Baixar, fazer, esfregar a bunda para limpar e subir. Respirou. Baixou. Fez. Esfregou. Subiu.

Deu dois passos para o lado para pegar o shorts. Vestiu. Percebeu que havia alguns resquícios de cocô em suas pernas, puxados para cima quando trajou a vestimenta. Achou melhor não esquentar com mais aquele problema. Respirou fundo. Putz! Que fedor. Péssima hora para puxar o ar. Corre, caramujo. Corre! Foi tudo o que pensou. O vento estava a seu favor, então precisava se afastar dali rapidamente, ou não se livraria daquele cheiro.

A Saga do Caramujo - Parte 3

Voltou para o caminho. Estava no final. Só mais alguns metros. Poucos. Agora era o fator psicológico que podia atrapalhá-lho. Concentrou-se novamente. Olhou fixamente para a toca. Era o alvo. Era onde precisava chegar. O Sol estava à sua frente. Estava extremamente brilhante. Mais do que o normal. A luz o cegava. Filho da mãe. Sabia que ele não o deixaria ganhar facilmente. Justamente na última parte, quando tudo o levava a ser o grande vitorioso, eis que vem uma carta na manga, uma jogada de mestre, talvez um blefe. A única chance era sacar seus óculos escuros, que havia recebido de presente do besouro – que era cego e dava cabeçadas nas lâmpadas. Tirou o objeto da pochete e o colocou em seu rosto.

Ahhhhh! Que sensação boa. Voltou a enxergar a entrada de sua toca. A cada passo, ela ficava maior e maior. Faltava apenas um metro. Menos de uma hora de corrida. Apertou o passo. Checou o monitor. Estava a 65%. Havia folga para o “sprint” final. Inflou o peito. Imaginou que, se fosse uma corrida oficial, já ouviria o locutor dizendo “Não perde mais, o caramujo. Uma marca impressionante. Um batalhador. Um exemplo para a juventude do nosso país. Começou a correr ainda novo, nos campos tortuosos perto da toca de seus pais. Lutou, treinou arduamente, mesmo sem patrocínio. Mas agora é o momento da redenção! Fantástico! Os repórteres já fazem fila para saudá-lo na linha de chegada. Podem tocar o tema da vitória para ele, o caramujo corredor.”

Quatro e vinte e cinco. Tinha quatro minutos. Quatro longos minutos para a glória. Pouco menos de dez centímetros. Jamais imaginou como aquela distância era grande, parecia não acabar nunca. Dez centímetros. A bolha estava em carne viva. As pernas estavam dormentes. A garganta seca. Nem suor mais tinha. Sentiu que havia perdido alguns preciosos miligramas durante aquela jornada. Precisaria de um prato enorme de comida. Precisaria chafurdar em proteína para recuperar a musculatura. Mas seria vitorioso.

Quatro e vinte e sete. Dois minutos. Já podia sentir o cheiro da vitória. Checou o monitor cardíaco: 93%. Era o seu limite. Suas pernas queriam desistir, queriam parar a qualquer custo. Sua mente estava fixa na vitória. Olhou para o sol, que já descia atrás da montanha. Menos da metade ainda sobrava para cima. Um último gole na água.

Quatro e vinte e oito. Um minuto. Dois centímetros. A bolha agora era um alienígena com vida própria. Os resquícios da dor de barriga haviam endurecido ao longo das pernas. Não o atrapalhava, mas o cheiro não era lá dos mais agradáveis. O shorts agora estava irritando a pele. Sua língua havia grudado no céu da boca. Os óculos estavam escrustados em seu rosto. Precisava agüentar. Era um caramujo, não uma franga medrosa. Lembrou de todos os percalços que havia enfrentado no caminho e ganhou um final de coragem para continuar.

Quatro e vinte e nove. Encarou o Sol. Estava a pouquíssimos instantes de desaparecer completamente. Não reparou que, ao ficar encarando o astro, desviou poucos milímetros do caminho, o bastante para errar a porta da toca e dar de frente com a quina da parede, batendo o lado direito do rosto e rodopiando porta adentro. Exausto e tonto pela pancada, perdeu os sentidos. Desmaiou. Acordou segundos depois, estirado, óculos caídos ao lado, cara enfiada na terra seca. Sua única reação foi abrir o olho esquerdo, aquele que não havia batido na quina. O direito estava completamente inchado.

Limpou a poeira do olho e sentiu uma alegria imensa. No mesmo instante em que sua visão voltava lentamente a ficar nítida, percebeu um restinho de Sol, aquela última curva, sumindo sorrateiramente. Ele havia vencido. Apesar dos pesares, ele era campeão. Era um caramujo mais rápido que o Sol. O único, provavelmente.

Sentiu a vista ficar escura, seu olho esquerdo fechar lentamente. Desmaiou novamente, mas agora com um sorriso besta nos lábios. Acordou horas depois, ainda inchado. Levantou-se todo dolorido, tomou um longo banho, jantou e ligou a TV. No noticiário, um repórter policial mostrava a aranha algemada, presa em flagrante, pelo assassinato da lesma. Escondia a cara com uma das oito patas e gritava que havia feito aquilo sim, mas em legítima defesa. Ela havia sido atacada primeiro.

Capotou no sofá e deixou-se levar por um sono longo e profundo.

Outras férias de verão - parte 1

18 de março de 2008

Sempre quis escrever algo sério sobre esse tema. Para valer mesmo, sem a ingenuidade do primário, quando tentava lembrar de tudo que havia realmente feito e rabiscava umas três ou quatro páginas, ou o pouco caso do ginásio, quando inventava algo que fosse mais rápido e menos doloroso para escrever, já que tinha que utilizar todo o tempo disponível para estudar Física e resolver aquele problema do trem A com velocidade X que vem de encontro ao trem B com velocidade Y, e determinar quanto tempo para a colisão e coisa e tal.

E era sempre a mesma história. Não a redação em si, mas o tema. Toda vez que começava o ano letivo, fosse em qualquer série, a professora de Língua Portuguesa pedia esse título como primeira redação do ano. Minhas férias de verão.

Pois eu torcia o nariz todo começo de ano. Se tinha uma coisa que eu detestava fazer era escrever redação sobre as tais férias de verão. Acabava sempre me perguntado se as professoras faziam isso com os alunos porque não tinham férias e estavam curiosas para saber o que os alunos haviam feito, já que haviam passado dois meses trancafiadas nas salas dos professores. Sem água. Sem luz. Sem bolachas de água e sal e café melado. Sem poderem ir ao banheiro. Sem um tele-jogo para passar o tempo. Com musgos crescendo pela parede.

Uma vez, na quinta série, levei bronca da Tia Solange, porque sugeri que fizéssemos uma troca: eu escreveria o texto em detalhes, mas ela prometeria fazer um curso de criatividade. Pelo amor de Deus! Todo ano a mesma coisa, não havia quem agüentasse! E tome advertência para minha mãe assinar. Fazer o que? Quando a cabeça não pensa, o corpo padece, já dizia Dona Sueli, minha mãe.

Pior era quando ela, a “psôra”, escolhia algum aluno para ler a redação. E o cara lia, entusiasmado, em alto e bom som, que tinha ido para o sitio da avó, que viu lindas flores do campo, com beija-flores saracoteando para lá e para cá, que pescou lambaris com seus amiguinhos na represa, que empinou pipa sob uma brisa refrescante, que plantou uma mudinha de violeta e deu de presente para a tia Palmira, que ajudou uma abelhinha a sair sã e salva da piscina, antes que se afogasse…. Ahh! Que sono.

Hoje em dia, já adulto (não grande, alto, forte ou bonito, apenas adulto…), formado, pós-graduado, profissional bem visto no mercado de trabalho e até arriscando umas aulas aqui, outras ali, escrevendo uns textos elogiados por alguns amigos mais desajustados, fiquei com uma vontade danada de escrever sobre isso. Bem feito pra mim. Queimei a língua.

E vem a questão que não quer calar: será que era aquilo tudo mesmo que a professora Solange - Ah! Como ela era bonita… e que letra redondinha - queria ler? Ou ela me achava apenas um malinha sem alça? Aposto todo meu dinheiro na segunda opção. Fácil. Porque eu entrava nos mínimos detalhes, tamanho o meu desgosto em relatar aquilo. Contava tim tim por tim tim. Era quase um diário, com hora, local e razão. Era um relatório da CIA. Só faltava a foto do criminoso.

Mas voltando à minha vontade de escrever algo sério sobre isso, meus verões eram sempre divertidos. Na praia, em Caraguatatuba, com a família. Pais, tios, primos, amigos. Uma delícia. Dois picolés por dia. Você quem decidia o horário, quando utilizar o benefício. Mas a cota eram dois. Só. Nem adiantava espernear, chorar, prometer lavar a louça do café. Só teria chance de mais picolé se algum da sua cota do dia viesse com o palito premiado. E, se perdesse a cota, tomasse apenas um, não era cumulativo. Dois picolés ou um cornetto, que era mais caro. E era um grande barato! (desculpe o trocadilho, mas até que ficou legal !)

Depois tinha o futebol na areia. Éramos seis moleques, com golzinhos-caixote em estrutura de ferro, sem rede. Cabiam justinhos no porta-malas do carro e a velha e boa geladeira vermelha, com sanduíches, refrigerantes e água, ia encaixada no meio da estrutura. Normalmente, começava o futebol e, logo em seguida, vinha uma chuva lascada. Chuva de verão. Nós continuávamos jogando – era muito mais legal jogar com chuva – enquanto os pais se espremiam debaixo da velha e boa barraca, listrada em azul, branco e com detalhes em vermelho.

Essa barraca, aliás, mereceria um texto à parte. Se ela falasse, contasse tudo o que viu, tudo o que aprontamos, daria um livro maior que a série Cavalo de Tróia. Ia precisar dividir em volumes. A barraca era nossa referência quando saíamos para andar na areia, para paquerar as meninas, de ponta a ponta da praia. Avistávamos a bendita de longe. E durou anos. Anos, não. Décadas. Umas três pelo menos. Foi debaixo dela, por exemplo, com o jornal de domingo à mão, que vi meu nome na lista de aprovados no vestibular. E foi ali mesmo que tomei meu primeiro trote. Sorte era que ninguém levava tesoura à praia. Mas que me deram “cuecão” e fizeram de mim um gigante bife à milanesa rolando molhado pela areia seca, isso fizeram.

Outras férias de verão - parte 2

E a Tia Solange – já falei que ela era muito bonita? – era obrigada a ler que eu tinha usado uma bermuda nova; que eu tomava um picolé de chocolate na ida, um de côco na volta; que ganhei um frisbee e paramos no posto de troca da estrada para pegar o prêmio; que meu avô tomou um ônibus sozinho para Massaguaçu para ver os amigos e não avisou ninguém; que minha mãe pescou uma arraia nanica na praia; que ganhamos um jogo de 6×0, no esquema vira-três-acaba-seis contra um time que jogava até bem, mas que amarelou na hora do “pega para capar”; que a tia Néli ganhou mais um campeonato de buraco, em dupla com a tia Jô; que fizemos campeonato de arroto no carro, voltando da praia, só a molecada (e eu perdi, droga!); que dormi na primeira meia-hora do desfile de Carnaval e acordei somente quando o sol havia raiado e a última escola do dia já estava de saída do sambódromo; que passávamos inseticida nos quartos e dávamos bronca em quem tinha esquecido o travesseiro e abria a porta para pegá-lo; que atiramos um réu na pipa do moleque chato da rua de trás; que fomos de bicicleta até a praia das Palmeiras, quando o combinado era até o centro para tomar um suco; que os meninos da turma ficaram com as meninas da turma e todos disfarçavam bem para burro no dia seguinte, debaixo da barraca na praia da Lagoinha; que algumas das meninas ficaram com mais de um na mesma turma – ops! Não era para contar isso, mas agora já foi e estou com preguiça de apagar; que tomamos umas a mais na Martim de Sá e voltamos cantarolando pela rua; que sacaneávamos os pais nos jogos de pôquer a grãos de feijão; que fizemos negociata barata com a tia que vendia gelinho – um suco congelado num saquinho - do outro lado da rua, comprando três pelo preço de dois; que subimos a pé o Morro da Asa Delta; que botávamos fogo nas aranhas da casa, que paqueramos demais a filha do rapaz que alugou a casa ao lado e jogava Lig-4 com a gente; que fazíamos competição para saber quem dos primos pulava mais alto da rede, enquanto os outros a balançavam com toda força; que apostávamos quem comeria mais pedaços de pizza feita no forno à lenha pelos pais, com massa bem fininha; que eu perdia sempre no pingue-pongue quando jogávamos ‘família’; que perdia mais ainda no bilhar, naquela mesa que girava o tampo – de um lado era madeira e podia ser usada como mesa normal, do outro era o feltro verde com as caçapas – por causa da minha gigantesca altura; que disputávamos quase no tapa mais um pouco de ventinho do ventilador no quarto dos fundos, quando 6 ou 7 moleques dividiam beliches, camas e colchões; que nenhum dos moleques conseguia dormir direito, porque meu saudoso avô Albino dormia no quarto ao lado, sem porta, e roncava para dedéu; que o chuveiro dos quartos do fundo dava choque quando desligávamos; que não víamos a hora de voltar da balada para comer pão com requeijão e um copo de leite com achocolatado – já carinhosamente separados pelas mães antes de irem dormir - que algumas vezes precisamos pular na piscina em plena madrugada para matar um pouco da bebedeira antes de entrar em casa; que apelidamos a empregada nova de “speaks a lot” porque a mulher falava pelos cotovelos; que quase tivemos uma síncope quando vimos a mesma “speaks a lot” de pijaminha curto cor-de-rosa e transparente, sem sutiã e de calcinha preta, empurrando a barra-forte do marido às 6 da manhã, que era segurança e ia trabalhar logo cedo; que fizemos racha descendo a serra logo que tiramos carteira de motorista; que arrumamos briga com uns caiçaras em plena balada na praia, mesmo sem fazer idéia do porquê; que fizemos bunda-lelê de balsa para balsa na travessia de Ilhabela; que adorávamos a rosca de côco que a tia Miriam fazia; que fizemos guerra de temperos quando ficamos sozinhos em casa, fazendo churrasco, enquanto os pais jantavam num restaurante legal na estrada para São Sebastião, e foi orégano para tudo que era lado; que a gente não fazia a menor idéia de como assar uma carne, mas fazíamos caras de entendidos e queimávamos várias picanhas; que ninguém agüentava a quantidade de bobagens que o Maurício, nosso amigo, dizia antes de dormir, e tomava travesseiradas até não agüentar mais; que sugeríamos um tema para o Rodrigo dissertar sobre, porque se ele dormisse antes de nós, teríamos que mudar de quarto, tamanha a altura do ronco do rapaz; que nosso saudoso avô Albino acordava com as bobagens do Maurício e nossas conseqüentes risadas e nos dava bronca; que a avó América pediu um gole da nossa long-neck e virou metade da garrafa porque estava com calor; que invadíamos a casa de trás para buscar as bolinhas de pingue-pongue perdidas e que passavam por um buraco nanico da parede, que…

É. Pensando bem, como eram legais as tais férias de verão. Fizeram muito bem nossas professoras em insistir tanto para escrevermos sobre isso, repetidamente, a cada novo ano. Do meu lado, mesmo que seja tarde, porque nunca mais ouvi falar da professora Solange (sim, muito bonita, mas era MINHA professora! Só minha!) cabe aqui o meu sincero MUITO OBRIGADO. Olha só a quantidade de lembranças boas que tenho hoje em dia, recordações que vou certamente levar comigo, para toda a vida.

Um grande beijo, professora, esteja onde estiver.

Tempo é dinheiro?

12 de março de 2008

Se há alguma vantagem em morar numa cidade grande, é a possibilidade única de jogar horas do seu dia pela janela do carro. Sim, é uma vantagem. Pelo menos, é como procuro ver essa situação, já que pouco posso fazer para mudar o panorama, além de sair em horários alternativos e de vez em quando fazer uso da minha motoca – o que acaba sendo mais perigoso, sem dúvida, porém mais rápido.

Por dia, três longas horas seriam desperdiçadas, não fosse a habilidade em transformar esses momentos em pura reflexão, em pensamentos e idéias que ou solucionam os problemas no trabalho, ou não passam de meras filosofias sobre questões cotidianas.

E foi num desses dias mais conturbados, em que a média ultrapassou todos os recordes (viva a cidade grande!), que me peguei pensando e anotando algumas bobagens sobre o que ouço muito no mercado financeiro: tempo é dinheiro.

Será mesmo?

Cenário 1: você é um cara bem sucedido, trabalha de sol a sol, de domingo a domingo, em compensação recebe uma boa grana no final do ano, atingindo os sete dígitos. É bacana, não dá para negar. Todo novo dia que começa, apesar dos seus insistentes pedidos para o Papai do Céu mudar esse cenário, recebe gratuitamente vinte e quatro horas para usar como bem entender. Nem mais, nem menos. Nem adianta tentar comprar um pouco mais, porque não vende em lugar algum.

Cenário 2: você veio de uma família humilde, a vida não o presenteou com oportunidades de estudo e emprego como sonhava, precisou trabalhar desde muito jovem para compor uma renda melhor em casa e não viu a infância passar. Todo novo dia que começa, apesar dos seus também insistentes pedidos para o mesmo Papai do Céu mudar esse cenário, recebe as tais vinte e quatro horas para fazer bom uso. Nem mais, nem menos.

Cenário 3: você é uma minhoca, nasceu, cresceu e vive até hoje na mesma jardineira, entre mini-rosas e azaléias e recebe, de vez em quando, uma boa dose de adubo para juntar os amigos e fazer uma festa. Todo novo dia que começa, além da água logo cedo caso o dono da casa se lembre de molhar as plantas, terá quantas horas à disposição? Pois é. Vinte e quatro.

O dia não estica para ninguém. Seja na Bósnia, em Tóquio ou em São Vicente, seja você um ermitão, um surfista, um capacitado engenheiro naval, ou um bisão em peregrinação até o monte Kilimanjaro, seu dia terá a mesma quantidade de horas de qualquer outro ser vivo do planeta.

Pior ainda, se você conseguir se organizar tão bem, se der tudo certo a ponto de chegar ao final do dia trinta minutos antes do planejado, não tem como guardar essa sobra para o dia seguinte. Esqueça. Vai gastá-lo por bem ou por mal. Vai gastá-lo correndo na esteira ou parado olhando para a TV. Não tem como alterar isso. O máximo que vai conseguir é mais meia hora de sono – o que, vamos concordar, é artigo de luxo atualmente.

O ponto-chave dessa questão é COMO você utiliza suas horas, porque dizer que tempo é dinheiro é uma baita enganação. Tempo é, sim, o bem mais valioso que temos. Pena é que pouca gente se dá conta disso. Tempo é a única coisa que você terá garantido no dia seguinte, haja o que houver. Mesmo que a Bolsa caia. Mesmo que declarem guerra. Até mesmo se seu time cair para a série B.

Se julga que trabalhar é o que mais lhe satisfaz, aproveite. Se prefere, ao contrário, ficar de barriga para cima tomando Sol em plena quinta-feira à tarde, vá em frente. Agora se perceber, em algum ponto da vida, que está apenas perdendo seu precioso tempo, pare um pouco – tudo bem, estou pedindo para você gastá-lo mais ainda, mas é para o seu bem! – e pense: o que eu deveria fazer para mudar esse quadro? Por onde começo? E onde quero chegar?

Só assim, juntando pensamento de qualidade, força de vontade e, claro, um pouco de tempo, você terá aquele sorriso besta de satisfação nos lábios, aquela sensação de que aproveitou cada minuto do seu dia e, ainda por cima, será capaz de conseguir algum tempo extra como troco.

Está esperando o que? O tempo passar?

Buffet infantil - Parte 1

6 de março de 2008

Adoro festas infantis. São um grande barato. Para as crianças de hoje em dia, então, deve ser uma loucura. Principalmente as mais modernas, que acontecem com dia e hora previamente marcados nos conhecidos e cada vez mais equipados e concorridos buffets infantis. É um mundo inteiro de brinquedos, bexigas, fliperamas, piscina de bolinhas semi-olímpica, comidas variadas daqui, refrigerantes de todos os tipos e modelos dali, tudo muito colorido, um montão de doces, versões diversas de brigadeiros e – ai, ai! – bolo. Se para nós, adultos, já é difícil resistir a um belo e gorduroso quitute – por causa do regime, dos bons modos, da boa forma prometida para o próximo verão – imagine para uma criança, que não deve nada para ninguém. E é também um prato cheio para quem fica um pouco atrás, só de olho nos absurdos que acontecem.

Não havia esse modelo de festas na época em que eu era criança. Eram realizadas no quintal de casa mesmo, mas muito divertidas. As que meus pais faziam para mim, então, melhores ainda. Faço aniversário no final de junho, então o tema sempre era festa junina. Todos os convidados vestidos a caráter, com chapéus de palha, remendos costurados nas calças jeans, uma camisa quadriculada e o lápis de maquiagem da mãe para fazer uma costeleta maior, um bigodinho torto, um cavanhaque e, quem sabe, umas sardas.

Meus pais preparavam as comidas típicas, com quentão, vinho quente, pipoca, arroz doce, amendoim, pinhão. E ainda tinha aquele pacote cuidadosamente embrulhado que ficava escondido em cima da geladeira, segredo que durou um ou dois anos. Eram biribinhas e bombinhas daquelas mais fracas, para a criançada se divertir. Delicioso. Não víamos a hora de o meu pai liberar logo a preciosidade, para a gente poder explodir uns copos plásticos, colocar biribas no corredor e esperar um pai desavisado pisar e assustar, para rirmos à beça.

Outra época. Já se vão alguns anos. Não vou dizer quantos, é claro. Você vai acabar pensando que, na minha festa, meus convidados mais novos eram Pero Vaz de Caminha e Pedro Álvares Cabral. Melhor deixar para lá. Não insista.

Muito provável que, hoje em dia, uma idéia de festa infantil no melhor estilo junina nem pegasse. Nossos filhos já esperam algo parecido com as festas high-tech que freqüentam. No mínimo. Precisa ser num buffet exclusivo, alugado por algumas horas e, quanto maior, melhor. Para eles. Para nós, pais, quanto mais longe da zona Sul, melhor. Menor o preço. Se eu pudesse, faria a festa do meu filho na África, para ficar bem baratinho. Os convidados que se virassem para chegar até lá. Tenho amigos que fazem festa do filho no interior de São Paulo e não reembolsam o pedágio, cacete! Que mal há em obrigá-los a fazer uma viagem internacional? Sem reembolso, já aviso de antemão.

Mas o foco do texto são os adultos participando das festas infantis. Logo de cara, você consegue definir quem são os escolados nesse tipo de festa. As pessoas que vêm, ao longo dos últimos anos, só acumulando experiências. Esses caras nunca chegam mais do que meia hora mais tarde do que o horário marcado no convite. Sabem muito bem que são pouquíssimas as mesas e, portanto, se demorarem um pouco mais que isso - uma hora por exemplo - terão que ficar de pé ou numa mesa perto do banheiro. Então chegam antes e lotam duas ou três mesas com suas bolsas, casacos e carteiras. Tudo para garantir que seus familiares fiquem todos juntos. E que se danem as outras senhoras e mulheres grávidas. Elas que tivessem chegado mais cedo. Ceder um lugar? Jamais. Perdem a perna, mas não cedem uma cadeira. Arranquem-lhe um olho, mas tirem as mãos agora da mesa dele. É assim que eles pensam.

E eis que os garçons começam a passar os tais famosos quitutes. Mini-hambúrguer, mini-esfiha, mini-coxinha, mini-empadinha. Fome gigante. As titias abrem um guardanapo nas mãos e olham para o garçom. Rapidamente, começam a calcular o tamanho do prejuízo, ou seja, até o cara chegar à mesa delas, quantas pessoas se atreverão a pegar um salgadinho? “Droga! O panorama não é nada bom. Ele está muito distante ainda. Se chegar até aqui, ou vai ter só uns 4 ou 5 para sentir o gostinho, ou vão chegar frios. Droga, droga, droga. Faz alguma coisa, Madalena. Ô mulher parada, viu?”.

Pois saiba que os profissionais dos buffets são muito espertos com esse tipo de gente. Sacam essa turma de longe. Sacam semanas antes. E fazem o que fazem de propósito. Utilizam desvios para fazer o caminho ficar maior e maior, só para irritar as titias. Duvida? Repare na próxima vez. Repare, por favor. Se eles pudessem, sairiam da cozinha, pegariam a Rodovia Carvalho Pinto, ofereceriam quitutes nos pedágios, fariam a volta em Petrópolis, voltariam por toda a Dutra, fariam uma parada estratégica em São José dos Campos – pit-stop para um xixi amigo - e só então chegariam na mesa das esfomeadas de plantão armadas com seus guardanapinhos abertos ingenuamente sobre as palmas das mãos, fazendo carinha de cão labrador esperando a comida.

E quando um garçom mais desatento resolve ser caridoso e sai da cozinha com a bandeja quentinha indo direto para mesa delas, é um Deus nos acuda. Você tem logo ali, ao seu lado, pertinho, pertinho, um programa do Animal Planet, em que as leoas esfomeadas avançam sem dó sobre um bisão perdido. O pobre coitado não consegue nem respirar. Para não deixar o cara sair da roda, uma delas se coloca bem atrás dele. Se der um passo, toma uma bica no calcanhar. Se puxar a bandeja, é dedo no olho. Só vai se livrar quando todas as felinas estiverem satisfeitas, com seus guardanapos lotados e toda a prole estiver com a comida garantida. Mas foi só o primeiro round da luta. Não perca a próxima etapa, agora contra o cara do pastelzinho, depois dos nossos comerciais.

Logo em seguida vêm as mocinhas com as bebidas. Uma bandeja redonda, alguns copos plásticos, você consegue identificar o refrigerante pela cor. Mais escuro, refrigerantes de cola, transparentes são de limão, cor de chá é guaraná e, se for o caso, um copo solitário com líquido laranja, com bebida da mesma cor, digo, da mesma fruta. E a seqüência de perguntas: “É diet? Tem tônica? Arruma umas pedrinhas de gelo para a mesa toda?”. Haja fé. Haja paciência.

Buffet infantil - Parte 2

O que não me surpreende é que, se você estiver acompanhando seu filho ou, quem sabe, sua sobrinha, nos brinquedos da casa, vai notar que sempre tem um garoto gordo, meio lazanhudo, bochechas rosadas, suado para caramba, que parece que nunca viu um parquinho. Esse moleque corre para tudo que é lado, quer brincar em todos os brinquedos ao mesmo tempo, atropela seu filho, sua sobrinha, o aniversariante, o monitor, todos. E adivinha só a qual família o garoto pertence? Hein? Hein? Uma nota, maestro Zezinho! Pois é. Agora você entendeu porque as titias se matam por causa de um pastel. É para alimentar o menino delicado, educado, gentil e limpinho que acabou de pisar na mão da sua sobrinha para ultrapassá-la no escorregador.

Já farto das peripécias do garoto, nem pense em esboçar uma reação. Faria tudo para passar perto do moleque, como quem não quer nada, e dar um peteleco na cabeça dele? Você não vê a hora de pegá-lo na fila do bebedouro e beliscar bem na dobrinha com assaduras da barriga? Está louquinho para grampear uma célula adiposa da pança dele nas células adiposas do joelho dele? Pois eu o desaconselho totalmente.

Essa criança está para suas tias e primas gordas sedentas por salgadinhos, assim como uma formiga-rainha está para as operárias de seu formigueiro. Quando a rainha está em perigo, começa uma corrida louca do batalhão de operárias para salvá-la ou, no mínimo, ocultá-la dos predadores. Dessa mesma maneira funciona com o moleque e suas lambisgóias. Esse bedelho tem um grito inaudível para seres humanos, mas que suas operárias escutam de longe, muito longe. É você dar-lhe o safanão aqui, e começa a correria ali. Todas sedentas por seu sangue. Todas loucas e desenfreadas para arrancar-lhe os tendões com alicates de bico. Ouse pegar o moleque e não sobrará um pêlo grudado em seu corpo.

Ao contrário, convença o seu filho ou sua sobrinha de que aquele brinquedo causa gripe, que ela vai fazer xixi na cama se continuar rodando no carrossel, que Papai Noel não trará presentes se ele jogar mais uma partida de futebol no vídeo game. Prometa que vai comprar um carro zero para eles, antes de completarem 18 anos. Qualquer coisa. Contanto que você afaste a criança daquele Tiranossauro Rex obeso e sem controle.

Chega a hora do mágico. Tudo bem, vamos dar crédito ao cara. As mágicas não são lá essas coisas, mas o rapaz se vira bem e as crianças se divertem. Não importa se o cara é contador e trabalha de sol a sol num escritório no centro de São Paulo durante a semana e, portanto, não tem muito tempo para praticar. O que importa é ver o sorriso de surpresa dos meninos e meninas. De verdade. Os pais não valem. Já passaram por todas as festas possíveis, tentando descobrir os segredos das mágicas, já ficaram horas sentados no sofá, domingo à noite, esperando as histórias do Mister M, que entregava os truques em rede nacional. Então, para os pais, mágico não é mais diversão. Mas a festa é infantil, lembra-se? Que se danem os pais.

E o cara, na maior boa vontade, depois de uns três ou quatro truques, pede um voluntário na platéia de crianças e quem (repito, quem?) se oferece, levantando lá atrás, pisando de novo na mão da sua sobrinha? Ele mesmo. O gordinho. Quem mandou seguir o meu conselho? Devia era ter dado uma tamanha bofetada no moleque, daquelas de virar o roliço do avesso, para não sobrar nada. Mas, não, você tinha que ouvir o autor, não é? Bem feito.

E o profissional da mágica, meio sem graça, acaba cedendo e chama o pançudo, enquanto pede à assistente que leve um pirulito para a sua sobrinha, que está chorando desconsolada. Sua última esperança é que o mágico realmente acerte a mão dessa vez e faça aquela praga desaparecer, que o mande para uma dimensão só dele. Que o mande para o Alasca e perca o contato. E nunca mais consiga trazê-lo de volta. Melhor ainda que o problema das titias gordas sanguinárias será dele, e não mais seu.

Uma música aqui, um simsalabim ali, e eis que aparece uma pomba no braço do moleque, onde antes estava um simples lenço. Divertido. Cativante. Só que ficou melhor ainda, porque a pomba, assustada com o grito de surpresa do garoto, fez o “número 3” no braço dele. Pomba tem intestino solto. Assusta fácil. Moleque escandaloso tem grito solto. Assusta fácil. Junta-se lé com cré e temos a receita perfeita. Uma lata de óleo em forma de criança com o braço cagado. Deve ser por isso que a pomba representa a paz. A paz que você deve estar sentindo agora, ao ver a cara de bunda daquele ser gordinho, olhando para suas tias varizentas, que nem perceberam a mancada e continuam caçando o garçom, deve ser algo realmente fantástico.

Feliz da vida, você espera o show de mágica acabar, pega sua sobrinha, vai até o contador, digo, mágico, e pede um cartão. Vai indicar o cara para todos os seus amigos com filhos – menos para aqueles cujos filhos vêm com bochechas rosadas como item de série.

O outro lado

3 de março de 2008

Belo domingo de setembro.
Bela manhã em que o Sol chegou forte.
Belo café José Carlos Pereira toma.
É dia de jogo, precisa estar bem alimentado.
É clássico, vai ter de correr muito.
Nada que uma boa cota de carboidrato não dê conta.

Enquanto brinca com Tobias, seu labrador, dá uma passada rápida pelas notas esportivas do jornal.
Futebol é sua grande paixão.
Respira o esporte. Sua o esporte.
Acompanha cada lance. No Brasil ou no exterior.
Sabe as escalações dos times, qualquer um deles, do goleiro ao ponta-esquerda.
Inclusive os reservas.

Hoje o dia será de grandes emoções.
O dia mais esperado, dentre todos da semana.
O dia em que ele deixa de ser coadjuvante, apenas mais um na multidão, para ter holofotes mirando-o pelos quatro cantos do campo.

Na semana anterior, a partida fora espetacular.
Recebera calorosos elogios de colegas e, o que mais o surpreendera, a mídia havia amplamente elogiado sua atuação.
Lances estupendos, de grande dificuldade.

E tais elogios foram suficientes para fazê-lo treinar ainda mais arduamente no decorrer da semana.
Ao contrário de todos os outros, quanto mais era elogiado, mais trabalhava, mais buscava aprimorar-se.
Queria estar “tinindo” para o clássico.
Sem dúvidas seria importante para sua carreira no futebol decolar definitivamente.
Uma atuação perfeita num clássico.
Era o passo que precisava para ir à Copa do Mundo.

Um beijo na esposa, um carinho nos dois filhos, uma corrida atrás de Tobias.
Pega a mochila, confere o equipamento, certifica-se de não ter esquecido o protetor solar.
E sai. Junta-se aos colegas para ir ao estádio.
Precisam chegar cedo.
Por que sabem como é, não é?
Aquecimento e alongamento precisam de atenção.
Principalmente antes de um jogos desses.

Chegam ao estádio e vão direto ao vestiário.
Não podem perder tempo ou parar para dar entrevistas.
Aquecem, alongam, ouvem instruções acaloradas enquanto amarram as chuteiras.
Um último gole de água antes do início da partida.
Uma oração, pedindo proteção e que ninguém se machuque.
Partem para as escadarias.
Ele e seus colegas, de mãos dadas.

Entram em campo. Primeiro, o pé direito, para dar sorte.
O sinal da cruz, típico dos amantes do futebol.
Arquibancadas lotadas.
Uma parte da torcida os aplaude.
A outra não perdoa e vaia.
Estão acostumados, não se deixam abater.
Foi sempre assim, durante anos, em todos os jogos.

Uma corrida rápida, “sente”a bola.
Algumas embaixadinhas.
Tudo pronto. O espetáculo vai começar.

Sente um frio na barriga.
É o grande momento.
Concentrado, não ouve mais o barulho da torcida.
Olha para os lados, para ver se todos estão em suas posições.

É agora.

Na cabine de uma rádio, o narrador anuncia:

- Apita, José Carlos Pereira! Bola rolando para o grande clássico deste domingo!

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