Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Minhas férias de Verão - Parte 2

6 de fevereiro de 2008

Nosso herói apoiou um das mãos na mesa da Dona Mirtes, ajeitou os óculos, lançando um olhar ameaçador. Sem tirar os olhos da professora, apontou para Drica, sua colega de carteira, e perguntou:

- Drica, qual o tema da redação sugerido hoje pela ré, digo, pela Dona Mirtes?

- Você que se dane, Joãozinho. Eu é que não vou entrar nessa.

- Pois eu digo – antecipou-se Dona Mirtes. – Minha sugestão foi “Minhas férias de verão”. Qual o problema? É isso que está incomodando tanto Vossa Alteza?

- Ahhhhh, utiliza-se de sarcasmo. É dura na queda. Estou gostando de ver. Resolveu encarar os fatos?

- Você sabe que, quando terminar a palhaçada, você irá direto para a Diretoria?

Virou-se para seus colegas e iniciou o discurso:

- Meu povo, chega de sermos espezinhados pela falta de criatividade e bom senso dos professores. Todo começo de ano, temos que escrever sobre essa droga de tema.

Dona Mirtes reclinou-se na cadeira, para acomodar as costas. Sentia que começaria a melhor parte daquela acesso de insanidade.

- E vou além: Chega de sermos submetidos às lavagens cerebrais anuais, quando temos que relatar, em detalhes, o que fizemos em nossa férias de verão. Nossas férias pertencem somente a nós e a mais ninguém. Vocês são testemunhas de que Dona Mirtes esteve em São Vicente. Alguém aqui pediu um relato sobre isso, com número mínimo de páginas e para ser entregue na semana que vem? Alguém quer saber quantos picolés ela tomou? Se ganhou uma toalha num palito premiado? Se o pneu furou na Serra do Mar e precisou esperar três horas até que o marido o trocasse? Se pegou brotoeja nas costas ou se um furúnculo a impediu de deitar na rede? Se comeu casquinha se siri e teve disfunção intestinal? Se a areia entrou em seu maiô e assou suas dobrinhas? Se tomou caldo no raso? Se precisou misturar Maizena com álcool para aliviar o ardido do Sol? Se ficou na frente da TV assistindo ao especial do Robertão, com uma pena branca e uma rosa vermelha nas mãos? Se disputou campeonato de buraco com as cunhadas varizentas e os cunhados bêbados de tanta cerveja? Se fez rosquinhas de côco e as esqueceu no forno?

- Impressionante…

- Nãããooo. Ninguém pediu isso. E por que? Porque somos vítimas do sistema. E eu, como defensor dos fracos e oprimidos, e por ter “aquilo” roxo, saio agora em defesa da nossa classe. Há de chegar o dia em que serei reconhecido por este nobre ato. Há de chegar o dia em que serei convidado a participar do “Arquivo Confidencial” no Domingão do Faustão, onde vocês poderão relatar o que viram e eu, no palco, às lágrimas, comentarei emocionado sobre esse dia. Já me vejo ao lado de Jô Soares, sendo entrevistado, enquanto Bira ria encabulado com seu contra-baixo no colo. Marília Gabriela ficará estarrecida e levantará a bandeira em nosso favor. Serei capa de revista semanal e a chamada será: “Um gladiador cultural”. Eu vejo, nobres membros da classe estudantil. Eu vejo…. vejo o Seu Benevides entrando na classe… Bom dia, senhor diretor, como vai?

- Muito bem, Joãozinho. Você também, pelo visto. Começou o ano bastante animado. Não quer terminar de contar o que vê lá na minha sala, enquanto aguardamos a sua mãe chegar?

Seu Benevides colocou a mão no ombro de Joãozinho, conduzindo-o à porta. No caminho, os colegas ainda ouviam:

- Não se rendam, meus amigos. Nós temos que nos unir. Juntos, chegaremos lá. Tenham fé. I have a dream!!! Lembrem-se sempre que sou um mártir, lancem um hino em minha homenagem, façam camisetas com minha cara para usar nas passeatas… e não se atrevam a mexer no meu lanche!!!

………………………

Ao acabar de ler a redação na frente da classe, Joãozinho, encabulado, ajeitou os óculos e olhou para os colegas. Estavam todos boquiabertos, descrentes da história que haviam acabado de ouvir. Dona Mirtes, encostada no parapeito da janela, tinha um sorriso maroto no canto da boca.

- Gostei. A redação é divertidíssima e criativa. E, claro, você me deixou sem graça, porque eu pedi exatamente este tema para todas as turmas. Na verdade, eu deveria mesmo pedir ao Seu Benevides para vir até aqui, mas para ouvir você ler este texto de novo. Duas coisas: eu prometo nunca mais pedir esse tema para os meus alunos e, pela sua criatividade e coragem, vou dar nota 10!

- Uau! Muito obrigado, Dona Mirtes. Confesso que fiquei com receio, mas achei que seria uma redação diferente. Resolvi arriscar. Que bom que a senhora gostou. Obaaa! Tirei 10!!!

Voltou esfuziante para sua carteira, sentou-se ao lado de Drica, de quem ganhou uma piscadela e anotou o tema da sua próxima redação: “Tópicos que não podem ser esquecidos na entrevista com o Jô”.

Férias de Verão - Por Ricardo Anbar (com N)

Ah, as férias de verão!

Poucas pessoas tinham esperado tanto pelas férias este ano quanto o Zeca.

Na faculdade o semestre foi um desastre. Notas terríveis, brigas com o professor de redação que quase lhe custaram a nota final, sem falar na participação vergonhosa no campeonato interno de futebol, fiasco total.

Em relação ao namoro a coisa também não andava bem. A relação com a Aninha estava muito sem graça, e o Zeca até desconfiava que ela o estava traindo com um rapazinho do curso de ADM, porém como ele não tinha certeza ia deixando o tempo passar.

Mas pra ele isso tudo já fazia parte do passado. Zeca olhava à sua volta e ficava mais feliz a cada minuto que passava. Lá estava ele com sua inseparável mochila esperando o ônibus sair para finalmente poder relaxar.

Zeca estava indo se encontrar com seus grandes amigos da ESPM, o Rico e o Tetê, que já estavam há alguns dias na casa do Bento, em Lins. Aquela cidade era uma maravilha, e todos eles tinham dezenas de histórias pra contar de suas aventuras por lá. Nem bem o ônibus ia saindo da rodoviária e um sorriso já ia se formando, devagarzinho, na expectativa dos dias que estavam por vir.

A viagem estava super tranqüila, e ao chegar ao Rodoserv o Zeca ligou pra Lins pra avisar a hora prevista de chegada e pedir pra alguém pegá-lo na rodoviária. Foi o Rico que atendeu, e ele passou a dica do lanche mais espetacular das estradas brasileiras: o X-Calabresa. O Zeca foi babando do orelhão até o balcão da lanchonete, e realmente a dica do Rico valia ouro, pois o sanduba era uma maravilha.

Alguém de vocês já viajou pela Castelo em dezembro, com o sol a pino, em ônibus regular requebrando mais que mulata na avenida? Agora imaginem isso tudo com um tremendo X-Calabresa fermentando dentro de você. Imaginem o Zeca.

No começo ele achou que não era nada, que estava um pouco enjoado porque tinha comido muito rápido. Até a primeira vez que ele precisou ir ao banheiro no fundo do ônibus. Chamar aquilo de banheiro era um exagero, aquele espaço era mais uma sauna em forma de cubo com um mini vaso sanitário no canto. Mas fazer o que, era a única saída naquele momento.

Entre levantar da sua poltrona e sentar no trono foram alguns segundos apenas, mas para o Zeca deu tempo de ver sua vida toda passando frente aos seus olhos. Sua barriga borbulhava tanto que ele achou que ia sair um alien de lá, haja correria pelo corredor!

E na hora de sair do banheiro? Todo mundo olhando e comentando, teve uma senhora que até mudou de lugar. Ele não percebeu, mas pelo visto sua passagem pelo troninho foi, além de tudo, barulhenta. Que vexame…

Zeca voltou encabulado ao seu lugar, pensando que pelo menos agora tudo ficaria bem.

E ficou mesmo, pelo menos até chegar a Botucatu. Dá-lhe correria pro fundo do ônibus de novo, e a senhora que tinha mudado de lugar até se benzeu ao ver o Zeca passando por ela.

O coitado não sabia o que fazer. Praguejou contra o calor, contra a calabresa, contra o chapeiro que preparou o sanduíche, contra o Rico que deu a dica, contra o motorista que dirigia devagar demais, era o fim do mundo pra ele.

Mas fim do mundo foi mesmo quando ele apertou a descarga e nada aconteceu. Aperta uma vez, aperta duas, e nada. Silêncio absoluto e tudo parado. Menos o ônibus, que não parava de balançar. O Zeca fechou a porta e foi falar com o motorista.

- Dá licença?

- Moço, é proibido falar com o motorista.

- Eu sei, mas é que eu acho que a descarga do banheiro quebrou.

- Não tem problema, daqui a duas horinhas já estamos em Lins, o pessoal segura.

- O senhor não está entendendo. Tem um monstro de calabresa lá dentro que não consigo fazer descer encanamento abaixo, daqui a pouco este veículo todo estará empestado!

Zeca descobriu naquele momento seu dom de prever o futuro, pois em menos de quinze minutos ficou impossível se respirar lá dentro. Alguns passageiros queriam até bater no coitado, mas ele não tinha culpa, ele era o sofredor número 1 daquele dia.

E como miséria pouca é bobagem, lá veio aquele remelexo na barriga de novo. A dor piorando. O suor escorrendo. A privada entupida. A descarga quebrada.

- Pelamordedeus, pára esse busão!!!!

E lá foi o Zeca pro acostamento, com 40 pessoas vaiando atrás dele.

E lá foi o Zeca de novo, meia hora depois.

E de novo, tendo que entrar em Bauru pro motorista pegar mais papel higiênico no posto Sem Limites.

O Zeca achou que ia morrer. Ou de diarréia ou de espancamento, pois ele fez o motorista parar a cada meia hora pra se esvaziar na beira da estrada.

A última parada foi perto de Getulina. Ele sabia que estavam muito perto de Lins, mas não deu pra agüentar. O lado bom é que todos tiveram a chance de conhecer a rodoviária da cidade, quando esse povo ia ter a chance de entrar em Getulina de novo?

Quase 7 horas depois de sair de São Paulo eles chegaram ao destino. As pessoas estavam preocupadas, pois a previsão era deles estarem lá pelo menos duas horas atrás.

Agora tudo ia ficar bem. Um bom banho e cama. A paz estava voltando ao coração do Zeca até o Rico chegar:

- Cara, tá tudo bem? Você tá meio pálido…

Crônicas Cruzadas

Dei uma idéia para o Ricardinho (do blog Anbar com N, aí ao lado): a cada semana a gente se propõe um tema e cada um escreve uma crônica ou conto a respeito.

Não dá pra prometer que o prazo será sempre cumprido, mas vamos tentar.
E a cada vez que o negócio der certo vamos publicar as duas crônicas em nossos blogs, assim nossos amigos, admiradores, fãs e leitores incondicionais poderão sempre ter à mão duas leituras diferentes sobre o mesmo tema.

Vai ser fácil reconhecer as crônicas do Ricardinho, pois além de serem leves e divertidas, elas virão sempre com fonte AZUL aqui no Compactos.

Abraço.

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