Espaço gastronômico
27 de fevereiro de 2008
Coluna polêmica publicada numa revista de renome do meio gastronômico e assinada por J.Jones, famoso por sua intransigência, sua língua afiada – ponta da caneta mais ainda – e sua pouca boa vontade com os criticados, dizia:
“Corra do espeto corrido!
Existe alguma lógica num lugar chamado Churrascaria, mas que oferece inúmeras opções de SALADA como atração? Por que não chamam logo de Saladaria? Quer comer escarola até criar raiz nos pés? Vá até a Saladaria mais próxima. Lá vendem saladas. Na churrascaria vendem CHURRASCO. Fácil assim.
Chega a ser inusitado alguém se propor a freqüentar um lugar desses para encher o bucho de brócolis e palmitos gigantes. Chega a ser obsceno um vegetariano incluir uma churrascaria em seu leque de opções, por saber que lá, onde vários boizinhos estão dependurados em espetos, é o melhor lugar para encontrar agrião do tamanho de eucaliptos. Fora a saia justa de acompanhar alguém que não passa um dia sem beliscar uma proteína animal. Imagino uma senhorita esbelta, louca para garfar somente uns aspargos e dois ou três pares de grão de bico, considerando experimentar uma carninha só para não se sentir de fora da turma do escritório que preenche os outros lugares da mesa.
Já repararam no tamanho das mesas de saladas? São verdadeiras ilhas coloridas, cercadas dos mais variados molhos por todos os lados. Você enche o prato antes mesmo de dar uma volta completa. Ainda corre o risco de apanhar uma pétala qualquer que serve apenas para decorar a ilha. É quando descobre que tomates gigantes realmente existem e ocupam sozinhos o prato todo. Mal sobra espaço para as lulas e camarões (eu sei, lula e camarão não são vegetais, mas e daí? Estou enchendo a pança de verdura dentro de uma churrascaria, lembra? O camarão é o menor dos problemas).
Sem falar naquele bando de pratos menores com os mais variados quitutes, atirados em sua mesa por velocistas profissionais. Num piscar de olhos você tem pão de queijo, batata frita, mandioca, polenta-frita, patês, manteiga e outra cesta com outros pães à sua disposição. Tudo para estar satisfeito quando (e caso) a carne chegar até você. Uma vez fiquei 30 segundos sem piscar e, tenho certeza, o Robson Caetano era o cara do pão de queijo. Juro. Assista aos jogos Olímpicos e veja você mesmo seu conhecido garçom participando do revezamento 4×100 metros.
O assunto é espeto corrido, então voltemos ao que interessa: cadê a carne? Esqueça. Ela tem papel secundário, é mera atriz coadjuvante. Os garçons esperam você se esbaldar de agrião para somente depois trazerem lingüiça, frango, coração de frango ou alcatra. E fique feliz! Raramente uma fraldinha dá o ar da graça, porque alterna com a picanha no alho. Ou sai uma, ou sai outra. As DUAS ao mesmo tempo, nem pensar!
Alguns restaurantes vão mais longe e ousam oferecer carnes exóticas: faisão, jacaré, codorna, cordeiro, coelho, avestruz e javali. Alguns desses animais nunca vi ao vivo. Sei que existem porque caiu numa prova do ginásio, então precisei estudar o assunto. Ou porque vi num seriado qualquer da Discovery Channel. Ao vivo e vivos, nunca.
E as sobremesas? Tenho certeza de que você, assim como eu, ainda no bar, enquanto espera a mocinha chamar seu nome e toma um suco de tomate temperado com um balde de amendoins ao lado, promete a todos os santos que irá comer com cautela, reservará um espaço na barriga para pular num prato de pudim ou numa mousse de chocolate com chantilly. Promessa mais besta, não é? Pois é. Não dá para cumprir o planejado.
Uma coisa é certa: existem menos opções de doces do que de saladas. Até porque os proprietários das churrascarias devem saber que não abriram um buffet infantil. Só não sabem que aquele lugar também não é uma saladaria. Mesmo assim, são 3 andares completos. Pratos e talheres esmagados num cantinho. O titio que pilota o carrinho tem que ter habilitação classe C, dado que fará as mesmas manobras que os motoristas da CMTC fazem com os ônibus que circulam pelo centro.
Um conselho: nunca vá a uma saladaria, churrascaria, ou seja lá como você prefere chamar, acompanhado de um gordinho. Esse cara vai comer como um mamute enlouquecido, vai acabar com os pasteizinhos de queijo, vai pedir que o garçom desça o espeto inteiro de coração de frango no prato, enfiá-los num pão francês e comentar o futebol do final de semana, enquanto migalhas voam pelo salão, vai pedir um teco da sobremesa de todos da mesa. Depois de tudo isso, ainda vai ter a cara de pau de dividir a conta nos centavos, sem arredondar. Tudo porque algum filho da mãe resolveu, algum dia, ensinar um velho ditado para esse gordo: “sentou, sorriu, a conta dividiu”.
Na dúvida, corra, e muito, do espeto corrido!”


Comentário por Ricardo Anbar com N — 28 de fevereiro de 2008 (19:55)
Esse texto é show, já tinha gostado dele quando vc me enviou antes, e agora dei boas risadas de novo!
Abs direto da Ilhabela.