Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Vampiro - por Ricardo Anbar

20 de fevereiro de 2008

Ser vampiro é legal. Bacana mesmo. Eu gosto bastante.

Ser vampiro é como ser diabético ou daltônico, quer dizer, você simplesmente é, e ninguém tem nada a ver com isso. Ninguém nem repara nisso. Pensa bem, alguém já olhou pra outra pessoa e disse: - Ei, você é diabético? E daltônico? Pois é, com os vampiros é a mesma coisa, se as pessoas soubessem…

Me tornei um vampiro aos 17 anos. Eu estava no terceiro colegial, me preparando para o vestibular, e era apaixonado por uma moça chamada Isabela. Ela era linda, olhos verdes, pele clara e aveludada, e um cabelo longo que chegava lisinho ao meio das costas. Uma beleza rara. Nem acreditei no dia que ela me convidou para estudar na casa dela. Ela veio com um papinho meio besta que precisava de ajuda em biologia, e eu, super prestativo, falei que podia dar uma passada lá depois do cursinho.

Não durei nem meia hora lá dentro. Antes que eu pudesse ter qualquer reação já tinha os caninos dela na minha jugular. Demorei pra entender o que estava acontecendo, mas aos poucos fui tomando gosto por aquelas mordidas. Depois da terceira vez já era irreversível, tinha me tornado um vampiro.

O mais engraçado é a idéia que as pessoas têm sobre os vampiros. As coisas que são faladas são motivo de piadas dentro da nossa comunidade. Até cem ou cento e cinqüenta anos atrás os vampiros viviam no meio de todo mundo sem nenhum stress, eram impopulares mas tocavam a vida. Depois disso os livros, os filmes, os contos e as estórias infantis popularizaram uma idéia totalmente errada, onde somos sempre o lado mau.

Existem algumas verdades universais que são realmente divertidas. Imortalidade, por exemplo. De onde tiraram isso? Vampiros nascem, crescem e morrem, como qualquer um. Quem não nasce vampiro pode se tornar um, como no meu caso, mas daí em diante vai desenvolver uma vida como qualquer pessoa normal, até morrer. Morrer de acidente, morrer de velhice, morrer de fome, de frio, de calor, de bala perdida, até de estaca de madeira no peito. Como todo mundo.

E o sol, então? Desde pequeno que adoro praia, como eu ia gostar de ser vampiro se não pudesse tomar sol? Aliás, que a Isabela não me ouça, mas conheço uma vampirinha de Maresias que é uma coisa de louco, sempre queimadinha e pronta pra mostrar a marquinha do biquíni. Mas esta é outra história, deixa pra lá.

Minha vida é normal como a de todos os outros caras do escritório. Ninguém lá nem desconfia que sou vampiro, como poderiam imaginar? Vou correr com eles no Ibirapuera, tomo chopp nos happy hours, fico terrivelmente de mau humor quando perco um negócio, eles nunca poderiam dizer.

Antes a única coisa um pouco mais difícil era a alimentação. Tinha esse negócio de jugular, que se pensarmos bem é meio nojenta. Sair mordendo pescoços não é uma coisa muito divertida, nem todo mundo fica confortável com a idéia de enfiar os dentes na veia dos outros.

Hoje está tudo muito fácil. Dois tipos de estabelecimentos vieram pra facilitar nossa vida. Supermercados abertos 24 horas por dia e churrascarias rodízio. Nos primeiros é só chegar e comprar carne fresca, tem a qualquer hora. Vamos ao balcão, escolhemos aqueles pedaços vermelhos e sangrentos, passamos no caixa e pronto. Jantar servido.

E as churrascarias então? Além dos espetaculares buffets de salada, temos toda a picanha mal passada do mundo ao nosso dispor. A gente pede pros garçons trazerem a carne quase crua, eles acham que você é um apreciador e no final da refeição estamos todos satisfeitos. E nenhum furo no pescoço alheio.

Em compensação há um elemento mortal para os vampiros. Parece piada, mas a única substância realmente letal para nossa raça é extremamente popular e está em todos os cantos. O catupiry. Aquele, que vem na caixinha redonda de madeira. É comer e cair morto, sem segunda chance.

O pior é que ao sair com os amigos pra comer uma pizza sempre aparece alguém pra pedir catupiry. Ou puro ou com essas misturas esquisitas que inventaram em São Paulo, como o frango com catupiry ou a calabresa coberta com catupiry. É como colocar cicuta na pizza, o que essas pessoas têm na cabeça?

O grande risco é que o catupiry é um queijo folgado, expansivo, que invade as pizzas dos outros. Se a gente pede dois sabores em uma pizza, o catupiry rapidinho vai derreter pra outra metade. Não tenham dúvida que isso acontece.

Fora isso, adoro ser vampiro. Tem suas vantagens, mas não posso contar, senão teria que matar todos que lerem essa crônica.

Não tenham medo de vampiros, somos gente boa. Mas não dê chance pro azar, pois ainda há aquela turma de saudosistas que não abrem mão de uma boa mordida. Na dúvida, desconfie daquele cara que faz cara de pavor cada vez que você morde sua coxinha de frango com catupiry.

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