Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Vampiro - Parte 2

20 de fevereiro de 2008

Os anos passaram, nosso namoro acabou – ela fugiu com um lobisomem todo metido a astro de cinema, só porque tinha feito uma pontinha num filme de vampiros de qualidade questionável – e nunca mais a encontrei. Vez ou outra, ouço alguém contando uma história de uma vampira loira insaciável e já sei que Priscila atacou de novo pelas redondezas.

Depois daquele dia, minha vida passou a ser uma caça enlouquecida por rúcula. Eu quero é rúcula. Sangue eu até suporto, mas não tenho queda, não. Pela verdura tenho sim, e das grandes. Não me venha com as pequenas, daquelas produzidas em estufas nas montanhas distantes da Normandia. Gosto de rúcula de macho. Criada na terra, aguada com chuva, adubada com esterco. O resto é para menina. Como aquelas que vêm em pacotes estufados com selos de “produto orgânico”. Aí não tem a menor graça. Tem que ter agrotóxico, senão não dá barato. Isso sim sacia minha fome.

Minhas fontes prediletas de comida são feirantes. Costumo atacar os titios japoneses em plena madrugada, aproveitando o escuro da noite e os olhos mais fechados das vítimas. Feirante brasileiro não dá. Tem os olhos mais abertos, então pode me notar com mais facilidade. Mas os asiáticos, enquanto descarregam as barracas do caminhão de um lado, saqueio as caixas de rúcula do outro. O único problema é aos sábados, quando a feira é longe para caramba da minha casa e a linha de ônibus só começa a circular mais tarde. Tenho que ir de bicicleta. Só dá eu na ladeira, pedalando minha Barra Forte. Mas não tem jeito. Ou é isso, ou é fome o dia inteiro.

E bendita hora em que inventaram as tais pizzas de rúcula com tomate seco e muzzarela de búfala. Tirando o tomate seco, o queijo, o molho de tomate, a azeitona e a massa, a pizza é perfeita! Não tem nem o que mexer na receita. Fantástico. Houve uma vez em que fui a uma pizzaria e, além da pizza deliciosa, havia também suco de rúcula com hortelã no cardápio. Pedi para o garçom tirar a hortelã – é um SUCO, caramba, não um chiclete de bola – e a bebida veio espetacularmente servida num copo com gelo e um mini guarda-chuva como ornamento.

Outra fonte de lucros verdureiros é o supermercado à noite. Como vampiros têm a possibilidade de se transformar em morcegos, vôo até o telhado daquele mercado perto de casa, aguardo pacientemente até que o vigia noturno vá para sua sala assistir aos programas da Monique Evans na TV e ataco o quiosque de verduras. Nado de braçadas. Fico em pé na borda, de sunga, snorkel e máscara e mergulho naquele mar verde, desviando das escarolas e agriões, até chegar nos pacotes de rúculas frescas com suas pontas jorrando para fora dos plásticos como fazem as águas nos chafarizes das praças.

Um sonho? Sonho com o dia em que rúcula virará uma “commodity”, um produto barato, produzido em grande escala, entre as plantações de arroz e cana de açúcar. Em que as donas de casa pararão na frente da TV para anotar mais uma receita maravilhosa da Ofélia utilizando restos de rúcula do almoço. Em que as empresas de achocolatado descobrirão a farinha de rúcula sabor chocolate e que, misturada ao leite, torna-se muito mais cremoso e com sabor muito mais doce do que aqueles que tanto tomamos. Em que descobrirão a cura para alguma doença grave a partir do consumo (des)controlado dessa verdura. Em que a Nasa anunciará que mandará rúculas para o espaço, por ser a única planta capaz de sobreviver no solo árido de um planeta longínquo. Em que cientistas anunciarão que acabaram de descobrir a seqüência correta do DNA delas, e que agora o mundo todo saciará sua fome com nossa amiga verdura, que receberá investimentos pesados em produção e exportação. Em que os governos virão, todos juntos, em rede mundial, anunciar um grande projeto conjunto de erradicação da praga da rúcula. Em que os produtores de milho de pipoca descobrirão que conseguem produzir algo semelhante, porém muito mais saboroso, utilizando o mesmo processo, mas alterando o ingrediente principal, o milho, para rúcula. Em que a culinária japonesa abandonará de vez as algas marinhas e passará a manufaturar folhas de rúcula para fazer sushi. Em que os funcionários de todas as empresas pedirão seus refrigerantes de cola acompanhados de gelo e duas rodelas de rúcula. Em que as empresas de toalhas de papel desenvolverão tecidos muito mais absorventes utilizando as fibras da rúcula – duas folhas serão suficientes para enxugar as mãos, o rosto e, quem sabe, se você for realmente econômico, ainda consegue limpar seu carro com elas. Ou, se for muito sortudo, aquela empresa grande de doces lançará finalmente um chocolate recheado com rúcula. Hummmm, ia ser demais.

É por isso que estou aqui hoje, queridos amigos, de peito aberto, contando minha história de vida para vocês. Para que não cometam, de forma alguma, o mesmo erro do nosso amigo Conde. Ele, o Conde Van Se Danart, foi condenado a perseguir somente pessoas que não comem carne nem produtos advindos de animais. Ele só é autorizado a sugar sangue de vegetarianos. É, hoje, o maior inimigo do Greenpeace. Não teve outra alternativa senão comprar um barco baleeiro e pescar baleias no mar do Japão para atrair suas vítimas, que aparecem com suas faixas de protesto navegando em barquinhos inofensivos, lutando pela vida dos cetáceos. Mal sabem que é tudo uma grande armação para que caiam nas redes. Triste fim de um dos maiores ícones do vampirismo mundial.”

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