Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Vampiro - Parte 1

20 de fevereiro de 2008

“Rúcula. Meu prato predileto é rúcula”. Assim comecei a contar a história da minha vida para aqueles jovens e atenciosos vampiros, prontos para ouvir os casos daquele estranho ser à frente deles, uma aberração da natureza, uma vergonha para a classe: eu mesmo!

E prossegui:

“Fui transformado em vampiro por uma moça loira e linda. Devia ser cega também, ou ter vários graus de miopia, porque como podem ver, sou feio que dói. Mas, por ironia do destino, era minha namorada. Priscila Backfire. Vegetariana de carteirinha – e não é força de expressão. Ela realmente fazia parte de um clube de vegetarianos que se reuniam de tempos em tempos para debater assuntos como “as últimas tendências da semente de girassol”. Com carteirinhas.

Priscila fora atacada por um dos mais famosos vampiros de toda a história, o Conde Van Se Danart. Era uma noite clara, a Lua estava linda e cheia, poucas nuvens no céu. Estávamos no sítio de seu pai e ela terminava de dar sua volta a cavalo. Foi quando recebeu o golpe no pescoço.

Para quem não sabe muito sobre vampiros, vocês ainda são novos, as vítimas cujo sangue é sugado até o fim, morrem, vão para a cucuia. Todas as outras, as que não são esvaziadas, passam a viver eternamente, vagando pelas noites sem fim, numa busca desesperada por sangue. Priscila foi condenada ao segundo escalão, por um detalhe completamente besta: sua alimentação radicalmente baseada em folhas.

Quando a emboscou na calada daquela noite e cravou suas presas sedentas, Conde Van Se Danart logo sentiu o gosto forte de almeirão, endívias, tomate, cenouras, sementes de girassol, broto de bambú e rúcula que a pobre donzela havia devorado no almoço. O sabor de mato era tão intenso que a largou no momento seguinte e voou para seu castelo onde, dizem as más línguas, passou três dias escovando os dentes sem descanso e fazendo gargarejos com anti-sépticos bucais.

Refeita do susto, montou em seu cavalo e voltou para o sítio. Eu a esperava feliz e contente. Aquela noite prometia um rala-e-rola de entrar para a história. Não fosse aquela minha bendita rinite alérgica por causa do ar puro do campo, tudo seria perfeito. O que eu não sabia era que estava prestes a me tornar sua primeira vítima.

Ansiosos pelo momento que chegava, fomos nos arrumar. Combinamos de jantar à beira do lago, com velas e coisa e tal. Banho tomado, uma borrifada de desodorante, uma boa escovada no cabelo ruim – alguém aqui gosta do próprio cabelo? – quem sabe conseguiria ainda fazer uns abdominais, umas flexões para estufar o peito e surpreender a garota.

Descemos para o lago e nos sentamos à margem, no gramado. Onde sentei estava especialmente macio, confortável. Esticamos a toalha quadriculada para forrar o chão e senti que minha bunda acabava de ser atacada por formigas vorazes. Puta-que-o-pariu, como doía! Havia sentado num formigueiro e dos grandes. Não pensei em outra coisa senão pular no rio. E lá fui eu água abaixo, e junto o penteado, depois de perder mais de quinze minutos moldando aquela palha de aço.

Umas boas risadas depois, mudamos de lugar e voltamos ao jantar. Só salada. Ela parecia um pouco estranha, avançando nos pedúnculos de brócolis com uma voracidade fora do normal. Parecia que nenhum vegetal a satisfazia mais. Entre uma cenoura e outra, eu esfregava o lenço no nariz, que já parecia um tomate-cereja de tão vermelho. E assado. Só de pensar em encostar o bendito tecido na narina, meu corpo ficava inteiro tensionado. Ainda assim era melhor do que tomar novas picadas na bunda.

Uma nuvem grande, escura, que encobria a lua por um longo tempo, finalmente permitiu que o astro respirasse um pouco, deixando à mostra sua face luminosa. Aquela luz criava o ambiente perfeito para o amor! Olhei romanticamente para minha namorada, aquele olhar de peixe morto, e vi que seus olhos estavam estatelados, fixos no meu pescoço. Achei que era uma aranha – tenho pavor delas – e pulei para trás, caindo sobre a cesta de comida. Foi o bastante para aquele olhar se tornar ainda mais feroz, mais fixo, uma tara insaciável, como se uma mira laser apontasse diretamente para minha jugular. No instante seguinte, ela estava grudada em meu pescoço, presas enfincadas na minha pele, unhas grandes prendendo minha cabeça contra o peito dela.

Na primeira respirada que dei, senti um baita cheiro de mofo. O casaco dela fedia. Esteve guardado no sítio por um longo tempo. E mofo ataca mais ainda a minha rinite. E a rinite atacada dá uma coceira danada no nariz. E nariz coçando é palco para espirros em série. E espir… A…. Aaaa…. Aaaaaaaa…. ATCHIMMMMMMMMM !

Namorada para um lado. Eu para outro. Vi que os seus dentes caninos estavam enormes, enquanto limpava o sangue da presas com a língua. Estava a cara daquele pequinês da tia da minha mãe, que grudava na minha perna e ficava pulando feito louco. Dei-me conta que estava frente a frente com uma vampira, e que acabava de ser mordido, infestado com sua magia eterna. Como consequência, para o resto dos meus dias eu seria um vampiro também.

Terminamos a noite nos amando à luz da lua cheia, um tentando morder o outro. Não parecia amor. Parecia que lutávamos jiu-jitsu. A intenção era imobilizar o outro e acabar com seu sangue. Mas o engraçado era que eu apenas tentava morder por instinto, puramente para me defender das investidas da vampira-pequinês. Não tinha a menor vontade de beber sangue. Estava, sim, com uma vontade incontrolável de algo…. algo…. algo verde, meio amargo. RÚCULA. Precisava urgentemente de uma folhinha de rúcula.

Na nossa luta-amor, enquanto a segurava para não ser atacado, meu braço buscava urgentemente uma ruculazinha. Enfiava o dedo no olho dela, dava uma mordida numa folha. Puxava o cabelo, outra mordida. Até que ela ouviu a música vindo do outro lado do morro, onde uma família comemorava o casamento da filha. Aquilo seria um banquete de sangue. Eu certamente chafurdaria na cesta, em busca das rúculas remanescentes. Ela correu. Eu espirrei novamente.

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