Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

O jacaré

13 de fevereiro de 2008

Canal 5, alta madrugada, horário nobre na TV Matagal. De um lado, o polêmico búfalo, âncora do programa de entrevistas, sentado confortavelmente em seu toco de madeira, habilmente entalhado pelo assistente de palco, o pica-pau.

No camarim, pronto para entrar em cena, o próximo convidado e novo fenômeno do mundo animal, o jacaré. Em seu currículo, de longe o maior artilheiro de todos os tempos da CIFODER – Copa Inter-bichos de Futebol Ornamental Dedicado às Espécies Reunidas. Pouco? Experimente praticar o esporte bretão com patas grossas porém irrisórias, garras gigantescas e tortas para dentro e barriga no chão. Isso sem mencionar a cauda enorme, que não entra no shorts com forro nem por decreto.

O jacaré fora convidado a participar do talk-show para contar suas peripécias dentro e fora de campo, além de promover seu mais novo projeto pessoal, o livro de auto-ajuda “Pernas – para que te quero?”. Sua assessora de imprensa, a araponga, trabalhara rápido e enviara resenhas a todos os seus contatos. O mais importante e almejado era, sem dúvida, o búfalo. Uma vez no programa, a tiragem seria triplicada, e um convite da ABL – Academia Bicholesca de Letras – seria questão de tempo. Era só “cumprir tabela” na TV, para utilizar o jargão do esporte, dar quinze minutos de respostas pré-ensaiadas, não improvisar nem uma vírgula, e o estrelato literário estaria garantido.

De gravata borboleta, o búfalo anunciou o convidado, que entrou pata ante pata, curtindo cada momento, a salva de palmas, o holofote que o seguia. Cumprimentou calorosamente o âncora, que retribuiu apontando-lhe o sofá. Se havia algo nesse mundo do qual o entrevistador se orgulhava mais era ter sido dele o pontapé inicial nas carreiras de sucesso da maioria das celebridades atuais. Alguns dos melhores exemplos eram o bem-te-vi, pagodeiro de talento inquestionável, o javali, com suas danças de caverna e suas aulas de Porcs-Trot, além do elefante bailarino russo e do renomado arquiteto joão-de-barro.

- É um grande prazer recebê-lo aqui. Você, que sempre foi um ídolo da CIFODER, vários gols marcados, lances inacreditáveis, uma superação espetacular frente aos limites físicos que o jacarés apresentam na prática do futebol. Agora vem nos presentear com este outro grande lançamento. Se bem que esse é do lado de fora do campo… pegou? Pegou?

- É verdade. Estou muito orgulhoso por mais essa conquista, algo que jamais sonhei em realizar.

- Conte um pouco sobre o início da sua carreira. Foi difícil?

Deu um gole na água da caneca para molhar a garganta e prosseguiu:

- A vida lá no pântano sempre foi muito complicada, sabe? Condições precárias de saneamento, a distância enorme até o campo para treinar, sem transporte público de qualidade, a escassez de presas à beira do lago. Foi duro. Mas é passado. Agora, meu maior desafio é levar toda essa experiência aos mais novos. Daí surgiu a idéia do livro.

- E qual conceito você quer passar? – perguntou o búfalo enquanto mostrava a capa do livro para o câmera enquadrar no telão.

- “Pernas – Para que te quero?” é um testemunho, uma aula de vida. Meu sonho era ser jogador de futebol. Mas eu não tinha pernas longas, como os flamingos e os alces. Foi com muito empenho que consegui vencer e, hoje, sou um exemplo para as novas gerações. Quis registrar essa história para que jabotis, camaleões e até nossas amigas serpentes jamais deixem de acreditar em seus sonhos.

Olhou e apontou para a câmera, que fazia um close-up:

- Se você quer muito a CIFODER, não desista. Treine, aprimore-se, sue a carcaça. Leia o meu livro quando pensar em desistir. Se eu consegui, qualquer bicho pode ir muito além.

Na primeira fila da platéia, a araponga assessora não continha as lágrimas de emoção. Seu pupilo estava saindo melhor que a encomenda. A esta hora, a secretária dos bichos imortais da ABL já devia estar com a carta-convite ao jacaré pronta. Se bem que ela era uma cobra, não dava para confiar.

No palco, o entrevistador continuava o roteiro:

- Bom, você sabe que eu sou famoso por deixar meus convidados constrangidos com colocações pessoais venenosas. O tamanduá, por exemplo, nunca me perdoou por eu ter dito, ao vivo e em rede nacional, que os casos extraconjugais dele davam muita “bandeira”… pegou? Pegou? Divorciou-se e entrou com processo contra mim na corte do juiz pato. Vê se pode. Um tamanduá dá bandeira, e eu que pago o pato?

- É. Aquela foi engraçada. Mas você mandou bem. Para um búfalo, até que é um excelente caçador… pegou? Pegou?

- Melhor deixar as piadinhas para mim, meu caro réptil. Essa não teve graça. Mas vamos ao que interessa: dizem na boca-miúda – o que não é o seu caso, não é? Ai, ai. Estou me superando hoje… – que quem precisou dar sumiço na vaca holandesa, aquela biscate do brejo do Pau D’água, foi você. Dentro de campo, é uma fera. Mas fora, tem fama de comedor, chegando muitas vezes às vias de fato. E que, nesse caso, tem sim o rabo preso na história.

- Isso é calúnia! Querem destruir o que construí com muito suor. Que ela é uma vaca, todos sabem. Está sempre nas colunas animais com um bicho diferente. Eu a conheci, é fato. Mas nunca a comi. Nunca. Se alguém tem motivo para sumir com ela, é o marido dela, aquele chifrudo.

- Se for seguir esta linha de raciocínio, eu também tenho chifre. Devo me preocupar? Você vai querer comer a minha esposa também? – disparou o âncora, enquanto ajeitava os óculos de leitura.

O convidado não gostou da insinuação. Olhou para sua assessora, que fazia gestos desesperados para que ele não respondesse. Aquelas provocacões já eram esperadas, eram típicas do búfalo. Mas o jacaré não deixou passar:

- Se ela for tão gostosa quanto a sua prima americana, aquela bisão deliciosa, vou roer até o osso.

Com o ataque pessoal inesperado, o búfalo atrapalhou-se com os papéis na mesa e deixou a caneca de água cair. Num impulso, lançou a pata à frente, tentando evitar a quebra do utensílio, mas acabou acertando um belo de um coice bem na fuça do réptil.

Em uma fração de segundo, que nem mesmo as câmeras foram capazes de captar, o jacaré reagiu instintivamente à patada, arrancando, numa mordida só, a cabeça inteira do apresentador.

Silêncio na platéia – a não ser pelo grilo velho e surdo que vendia pipoca nos bastidores, e fazia um “cricri” irritante enquanto aguardava o intervalo. Fora ele, nenhum animal presente ao estúdio entendia o que havia acontecido. Só o que viam era o búfalo sem a cabeça, seu corpo ainda sentado no toco de madeira, suas patas segurando os papéis, imóvel. Do outro lado da mesa, o jacaré terminava de degustar a caça, palitando os dentes com um dos chifres que cuspira, recostando-se confortavelmente no espaldar do sofá. Na platéia, a araponga assessora ateava fogo no livro e nas resenhas, enquanto gritava palavrões aos quatro cantos.

Com cara de saciado, o jacaré voltou seu olhar para a câmera e:

- Desculpem. Acho que perdi a cabeça… ou melhor, eu não, o búfalo… pegou? Pegou?

Cri cri…

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