Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

O jacaré - Por Ricardo Anbar

13 de fevereiro de 2008

- Papi, vamos pegar jacaré?

- Daqui a pouco, linda, papai já vai.

- Vamos vai…

- Deixa só o papai acabar de ler a revista e já vamos, tá bom?

- Paiê! As ondas vão acabar, o tempo vai fechar, vai chover, teremos que correr de volta pra casa, e todas as crianças do condomínio vão dizer que pegaram jacaré hoje, menos eu!

- Faz o seguinte, deixa eu acabar de ler a coluna do Mainardi e daí a gente vai, beleza?

- Coluna do que?

Duda adorava a praia. Desde pequenina, quando foi pra Maresias pela primeira vez, ficou claro pra todo mundo que aquela era uma criança que ia sempre ter uma vida temperada com muito sol, sal e areia.

E a primeira vez que ela entrou no mar? Seus pais estavam relaxados nas cadeiras, batendo papo, e viram a Duda engatinhando devagarzinho rumo à água. Eles ficaram observando maravilhados a reação dela junto às marolas que chegavam até suas mãozinhas, o pai não cansava de tanto tirar fotos!

- Vamos pro fundão, papi?

- Claro que não, você sabe a regra. Água no umbigo…

- …sinal de perigo, eu sei, mas é mais legal pegar jacaré lá trás e vir até o rasinho!

- Duda, você tem só 6 anos, vai ter muito tempo ainda de ir no fundo. Agora presta atenção que tá vindo um ondão aí.

No fim de semana passado a Duda estava tranqüila embaixo do guarda-sol fazendo um castelo de areia pras suas Barbies quando ouviu uns moleques dizendo que iam pegar jacaré.

A Duda ficou esperta na hora, afinal ela tinha visto na televisão que jacaré mordia gente, e ela não queria tomar umas dentadas. Ela estava achando um pouco estranho porque nunca tinha visto jacaré na praia, mas vai saber, era melhor manter os olhos abertos.

O pai teve que explicar que não era do bicho que eles estavam falando, que pegar jacaré significa surfar de peito, sem prancha.

A Duda achou aquilo o máximo. Surfar sem prancha, direto com o corpo sobre a onda? Ele tinha que tentar.

- Vai, coloca as mãos pra frente, e quando a onda vier você dá um impulso com as pernas e sai deitada de frente pra areia.

- Como assim?

- Ué, assim, que nem o Super Homem quando está voando, sabe? Mãos pra frente, corpo esticado, batendo as pernas…

- O Super Homem não bate as pernas.

- Quando ele pega jacaré ele bate, pra ajudar a ficar na onda.

- Mas ele não é super?

O pai da Duda ficava louco com os comentários dela, com o tipo de observações e perguntas que saíam daquela cabecinha. E se divertia com elas, pra ele não tinha nada mais valioso no universo do que aqueles momentos que eles compartilhavam juntos, fosse lendo um livro em casa ou aprendendo a pegar jacaré.

- Vai Duda, quando eu contar até 3 faz como te falei, joga o corpo e começa a bater as pernas!

* * * * *

- Boa! Você veio até o raso, viu como é bacana?

- Que máximo!! Obrigado papi, eu te amo. Vamos de novo?

E até hoje, tantos anos depois, a Duda sente um apertinho no peito cada vez que pega um jacaré até o rasinho.

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