Minhas férias de Verão - Parte 1
6 de fevereiro de 2008
- Que merda!
Era tudo o que passava pela cabeça de Joãozinho – sempre ele – enquanto escrevia em seu caderno o tema para a primeira redação da 7a. série, sugerido pela Dona Mirtes, a acolchoada professora de Português: “Minhas férias de verão”.
Se havia algo no mundo que o deixava transtornado – além de não entender porque a Ritinha gostava do Eduardo e não dele, mas isso é outra história – eram os temas das primeiras dissertações dos anos letivos. Todos eles. Todos iguais.
Vá lá, era a época mais propícia, já que os alunos teriam retornado exatamente daquele período. Mas jamais havia escrito, por exemplo, sobre as férias de inverno. Tão importantes quanto, tão cheias de aventura, mas sempre relegadas a segundo plano.
Sentia que precisava fazer algo a respeito. Aquilo tinha que parar. Era a sua missão na Terra, tinha certeza: combater as nada criativas professoras de Língua Portuguesa. Eram todas cúmplices na difícil tarefa de enlouquecer seus pobres e indefesos alunos. E aquele era o dia D.
Levantou a mão. Esperou alguns instantes até ser visto. Pediu a palavra. Percebeu que o leite que havia tomado no café da manhã fazia um efeito meio esquisito em seu estômago, e aquilo não era um bom sinal. Foi quando veio a pergunta:
- Pois não, Joãozinho? Alguma dúvida?
- Sim, querida Dona Mirtes. Se me permite, gostaria de fazer algumas questões.
- Claro. Fique à vontade.
- Muito bem – colocou a ponta da tampa da caneta na boca, demonstrando escolher cuidadosamente as palavras. – Posso presumir que a senhora, assim como todo o corpo docente desta instituição, esteve ausente de suas atividades profissionais em dezembro e janeiro?
- Pode, claro. Assim como vocês, eu estava em recesso.
- Muito bem – desta vez, sentindo-se mais seguro, entrelaçou as mãos nas costas e caminhou lentamente até a frente da classe, olhando para seus pés, nitidamente imitando os trejeitos dos famosos detetives das histórias de Agatha Christie. – E presumo que, em algum momento, a senhora viajou com seus familiares para um sitio, uma praia, Águas de Lindóia, que seja.
- Joãozinho, eu não sei direito onde você quer chegar, mas poderia ir direto ao assunto?
- Por favor, atenha-se a responder aos meus questionamentos.
Os outros alunos arrumavam-se nas cadeiras, fechavam seus cadernos e cruzavam os braços sobre as carteiras. Não queriam perder nenhum detalhe daquela encenação. Mal sabia ele que, ao invés de ser visto como um herói, um David que enfrentava um Golias, nada mais era para seus colegas do que o ator principal da maior cagada do ano. E tudo ali, bem na frente deles, ao vivo, em cores… e de graça.
- Vou desconsiderar a falta de respeito, porque estou curiosa para saber onde isso vai dar. Quanto à sua pergunta, sim, eu fui com meu marido e meus filhos para São Vicente.
- Exatamente como eu imaginava. E suponho que tenha ido à praia, beliscado um camarão frito, tomado uma loira gelada, enquanto desenhava na areia com o dedão do pé. Seus filhos, provavelmente, ficavam deitados na areai, fazendo castelos com palitos de sorvete. Já seu marido roncava como um urso pardo deitado na cadeira de praia…
- Não que eu lhe deva alguma satisfação da minha vida pessoal, mas digamos que você não esteja completamente errado.
- Sei, sei… interessante.
- Joãozinho, estou começando a ficar impaciente com…
- Um momento. Vou mudar o rumo deste questionamento.
- Já não era sem hora.
- No ano passado, nas aulas de Matemática, aprendemos com o professor Gonçalves – aquele meio viado, sabe? – as equações do primeiro grau. Correto?
- Eu não era aluna, se me recordo, mas devo admitir que seja verdade.
- Neste ano, por conseqüência, veremos outro assunto: as equações do segundo – repito, se-gun-do – grau.
- E?
Virou-se lentamente para seus colegas e, cheio de pompa, como se fosse um advogado defendendo uma causa no tribunal, disparou:
- Eu sabia. Ela está sendo dissimulada. É isso, meus nobres colegas, o que acontece quando um elemento se vê encurralado pela verdade iminente.
- Encurralado vai ficar o seu boletim, com o meio ponto negativo que estou anotando por esse absurdo.
- Viram só? Abuso de poder. Mas eu não vou deixar que os olhos da Justiça continuem vendados. Voltando ao exemplo da Matemática, o que quis demonstrar foi a EVOLUÇÃO que a matéria teve de um ano para outro. De equação do primeiro grau, para equação do segundo grau. Concorda?
- Sim, claro.
- E o que a senhora nos apresentou hoje de inovador?
- Bom, se eu puder continuar a minha aula, falarei sobre concordância verbal.
- Sobre a redação, minha querida…
- Meio ponto a menos. Agora já é um ponto inteirinho. Você vai ter que ralar para passar de ano.
(continua no próximo post…)


Comentário por Bruna De Leo — 12 de fevereiro de 2008 (13:08)
fala bocó de molas!!! Adorei seu blog… e porque caraleo vc não coloca o meu nos seus favoritos animal?
beijos