Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Espaço gastronômico

27 de fevereiro de 2008

Coluna polêmica publicada numa revista de renome do meio gastronômico e assinada por J.Jones, famoso por sua intransigência, sua língua afiada – ponta da caneta mais ainda – e sua pouca boa vontade com os criticados, dizia:

“Corra do espeto corrido!

Existe alguma lógica num lugar chamado Churrascaria, mas que oferece inúmeras opções de SALADA como atração? Por que não chamam logo de Saladaria? Quer comer escarola até criar raiz nos pés? Vá até a Saladaria mais próxima. Lá vendem saladas. Na churrascaria vendem CHURRASCO. Fácil assim.

Chega a ser inusitado alguém se propor a freqüentar um lugar desses para encher o bucho de brócolis e palmitos gigantes. Chega a ser obsceno um vegetariano incluir uma churrascaria em seu leque de opções, por saber que lá, onde vários boizinhos estão dependurados em espetos, é o melhor lugar para encontrar agrião do tamanho de eucaliptos. Fora a saia justa de acompanhar alguém que não passa um dia sem beliscar uma proteína animal. Imagino uma senhorita esbelta, louca para garfar somente uns aspargos e dois ou três pares de grão de bico, considerando experimentar uma carninha só para não se sentir de fora da turma do escritório que preenche os outros lugares da mesa.

Já repararam no tamanho das mesas de saladas? São verdadeiras ilhas coloridas, cercadas dos mais variados molhos por todos os lados. Você enche o prato antes mesmo de dar uma volta completa. Ainda corre o risco de apanhar uma pétala qualquer que serve apenas para decorar a ilha. É quando descobre que tomates gigantes realmente existem e ocupam sozinhos o prato todo. Mal sobra espaço para as lulas e camarões (eu sei, lula e camarão não são vegetais, mas e daí? Estou enchendo a pança de verdura dentro de uma churrascaria, lembra? O camarão é o menor dos problemas).

Sem falar naquele bando de pratos menores com os mais variados quitutes, atirados em sua mesa por velocistas profissionais. Num piscar de olhos você tem pão de queijo, batata frita, mandioca, polenta-frita, patês, manteiga e outra cesta com outros pães à sua disposição. Tudo para estar satisfeito quando (e caso) a carne chegar até você. Uma vez fiquei 30 segundos sem piscar e, tenho certeza, o Robson Caetano era o cara do pão de queijo. Juro. Assista aos jogos Olímpicos e veja você mesmo seu conhecido garçom participando do revezamento 4×100 metros.

O assunto é espeto corrido, então voltemos ao que interessa: cadê a carne? Esqueça. Ela tem papel secundário, é mera atriz coadjuvante. Os garçons esperam você se esbaldar de agrião para somente depois trazerem lingüiça, frango, coração de frango ou alcatra. E fique feliz! Raramente uma fraldinha dá o ar da graça, porque alterna com a picanha no alho. Ou sai uma, ou sai outra. As DUAS ao mesmo tempo, nem pensar!

Alguns restaurantes vão mais longe e ousam oferecer carnes exóticas: faisão, jacaré, codorna, cordeiro, coelho, avestruz e javali. Alguns desses animais nunca vi ao vivo. Sei que existem porque caiu numa prova do ginásio, então precisei estudar o assunto. Ou porque vi num seriado qualquer da Discovery Channel. Ao vivo e vivos, nunca.

E as sobremesas? Tenho certeza de que você, assim como eu, ainda no bar, enquanto espera a mocinha chamar seu nome e toma um suco de tomate temperado com um balde de amendoins ao lado, promete a todos os santos que irá comer com cautela, reservará um espaço na barriga para pular num prato de pudim ou numa mousse de chocolate com chantilly. Promessa mais besta, não é? Pois é. Não dá para cumprir o planejado.

Uma coisa é certa: existem menos opções de doces do que de saladas. Até porque os proprietários das churrascarias devem saber que não abriram um buffet infantil. Só não sabem que aquele lugar também não é uma saladaria. Mesmo assim, são 3 andares completos. Pratos e talheres esmagados num cantinho. O titio que pilota o carrinho tem que ter habilitação classe C, dado que fará as mesmas manobras que os motoristas da CMTC fazem com os ônibus que circulam pelo centro.

Um conselho: nunca vá a uma saladaria, churrascaria, ou seja lá como você prefere chamar, acompanhado de um gordinho. Esse cara vai comer como um mamute enlouquecido, vai acabar com os pasteizinhos de queijo, vai pedir que o garçom desça o espeto inteiro de coração de frango no prato, enfiá-los num pão francês e comentar o futebol do final de semana, enquanto migalhas voam pelo salão, vai pedir um teco da sobremesa de todos da mesa. Depois de tudo isso, ainda vai ter a cara de pau de dividir a conta nos centavos, sem arredondar. Tudo porque algum filho da mãe resolveu, algum dia, ensinar um velho ditado para esse gordo: “sentou, sorriu, a conta dividiu”.

Na dúvida, corra, e muito, do espeto corrido!”

Tema da semana

20 de fevereiro de 2008

Caros amigos,

O tema desta semana é VAMPIRO. E eis que surgem dois belos textos, para dar boas risadas.

Curtam à vontade!

Abraço.

Vampiro - Parte 1

“Rúcula. Meu prato predileto é rúcula”. Assim comecei a contar a história da minha vida para aqueles jovens e atenciosos vampiros, prontos para ouvir os casos daquele estranho ser à frente deles, uma aberração da natureza, uma vergonha para a classe: eu mesmo!

E prossegui:

“Fui transformado em vampiro por uma moça loira e linda. Devia ser cega também, ou ter vários graus de miopia, porque como podem ver, sou feio que dói. Mas, por ironia do destino, era minha namorada. Priscila Backfire. Vegetariana de carteirinha – e não é força de expressão. Ela realmente fazia parte de um clube de vegetarianos que se reuniam de tempos em tempos para debater assuntos como “as últimas tendências da semente de girassol”. Com carteirinhas.

Priscila fora atacada por um dos mais famosos vampiros de toda a história, o Conde Van Se Danart. Era uma noite clara, a Lua estava linda e cheia, poucas nuvens no céu. Estávamos no sítio de seu pai e ela terminava de dar sua volta a cavalo. Foi quando recebeu o golpe no pescoço.

Para quem não sabe muito sobre vampiros, vocês ainda são novos, as vítimas cujo sangue é sugado até o fim, morrem, vão para a cucuia. Todas as outras, as que não são esvaziadas, passam a viver eternamente, vagando pelas noites sem fim, numa busca desesperada por sangue. Priscila foi condenada ao segundo escalão, por um detalhe completamente besta: sua alimentação radicalmente baseada em folhas.

Quando a emboscou na calada daquela noite e cravou suas presas sedentas, Conde Van Se Danart logo sentiu o gosto forte de almeirão, endívias, tomate, cenouras, sementes de girassol, broto de bambú e rúcula que a pobre donzela havia devorado no almoço. O sabor de mato era tão intenso que a largou no momento seguinte e voou para seu castelo onde, dizem as más línguas, passou três dias escovando os dentes sem descanso e fazendo gargarejos com anti-sépticos bucais.

Refeita do susto, montou em seu cavalo e voltou para o sítio. Eu a esperava feliz e contente. Aquela noite prometia um rala-e-rola de entrar para a história. Não fosse aquela minha bendita rinite alérgica por causa do ar puro do campo, tudo seria perfeito. O que eu não sabia era que estava prestes a me tornar sua primeira vítima.

Ansiosos pelo momento que chegava, fomos nos arrumar. Combinamos de jantar à beira do lago, com velas e coisa e tal. Banho tomado, uma borrifada de desodorante, uma boa escovada no cabelo ruim – alguém aqui gosta do próprio cabelo? – quem sabe conseguiria ainda fazer uns abdominais, umas flexões para estufar o peito e surpreender a garota.

Descemos para o lago e nos sentamos à margem, no gramado. Onde sentei estava especialmente macio, confortável. Esticamos a toalha quadriculada para forrar o chão e senti que minha bunda acabava de ser atacada por formigas vorazes. Puta-que-o-pariu, como doía! Havia sentado num formigueiro e dos grandes. Não pensei em outra coisa senão pular no rio. E lá fui eu água abaixo, e junto o penteado, depois de perder mais de quinze minutos moldando aquela palha de aço.

Umas boas risadas depois, mudamos de lugar e voltamos ao jantar. Só salada. Ela parecia um pouco estranha, avançando nos pedúnculos de brócolis com uma voracidade fora do normal. Parecia que nenhum vegetal a satisfazia mais. Entre uma cenoura e outra, eu esfregava o lenço no nariz, que já parecia um tomate-cereja de tão vermelho. E assado. Só de pensar em encostar o bendito tecido na narina, meu corpo ficava inteiro tensionado. Ainda assim era melhor do que tomar novas picadas na bunda.

Uma nuvem grande, escura, que encobria a lua por um longo tempo, finalmente permitiu que o astro respirasse um pouco, deixando à mostra sua face luminosa. Aquela luz criava o ambiente perfeito para o amor! Olhei romanticamente para minha namorada, aquele olhar de peixe morto, e vi que seus olhos estavam estatelados, fixos no meu pescoço. Achei que era uma aranha – tenho pavor delas – e pulei para trás, caindo sobre a cesta de comida. Foi o bastante para aquele olhar se tornar ainda mais feroz, mais fixo, uma tara insaciável, como se uma mira laser apontasse diretamente para minha jugular. No instante seguinte, ela estava grudada em meu pescoço, presas enfincadas na minha pele, unhas grandes prendendo minha cabeça contra o peito dela.

Na primeira respirada que dei, senti um baita cheiro de mofo. O casaco dela fedia. Esteve guardado no sítio por um longo tempo. E mofo ataca mais ainda a minha rinite. E a rinite atacada dá uma coceira danada no nariz. E nariz coçando é palco para espirros em série. E espir… A…. Aaaa…. Aaaaaaaa…. ATCHIMMMMMMMMM !

Namorada para um lado. Eu para outro. Vi que os seus dentes caninos estavam enormes, enquanto limpava o sangue da presas com a língua. Estava a cara daquele pequinês da tia da minha mãe, que grudava na minha perna e ficava pulando feito louco. Dei-me conta que estava frente a frente com uma vampira, e que acabava de ser mordido, infestado com sua magia eterna. Como consequência, para o resto dos meus dias eu seria um vampiro também.

Terminamos a noite nos amando à luz da lua cheia, um tentando morder o outro. Não parecia amor. Parecia que lutávamos jiu-jitsu. A intenção era imobilizar o outro e acabar com seu sangue. Mas o engraçado era que eu apenas tentava morder por instinto, puramente para me defender das investidas da vampira-pequinês. Não tinha a menor vontade de beber sangue. Estava, sim, com uma vontade incontrolável de algo…. algo…. algo verde, meio amargo. RÚCULA. Precisava urgentemente de uma folhinha de rúcula.

Na nossa luta-amor, enquanto a segurava para não ser atacado, meu braço buscava urgentemente uma ruculazinha. Enfiava o dedo no olho dela, dava uma mordida numa folha. Puxava o cabelo, outra mordida. Até que ela ouviu a música vindo do outro lado do morro, onde uma família comemorava o casamento da filha. Aquilo seria um banquete de sangue. Eu certamente chafurdaria na cesta, em busca das rúculas remanescentes. Ela correu. Eu espirrei novamente.

Vampiro - Parte 2

Os anos passaram, nosso namoro acabou – ela fugiu com um lobisomem todo metido a astro de cinema, só porque tinha feito uma pontinha num filme de vampiros de qualidade questionável – e nunca mais a encontrei. Vez ou outra, ouço alguém contando uma história de uma vampira loira insaciável e já sei que Priscila atacou de novo pelas redondezas.

Depois daquele dia, minha vida passou a ser uma caça enlouquecida por rúcula. Eu quero é rúcula. Sangue eu até suporto, mas não tenho queda, não. Pela verdura tenho sim, e das grandes. Não me venha com as pequenas, daquelas produzidas em estufas nas montanhas distantes da Normandia. Gosto de rúcula de macho. Criada na terra, aguada com chuva, adubada com esterco. O resto é para menina. Como aquelas que vêm em pacotes estufados com selos de “produto orgânico”. Aí não tem a menor graça. Tem que ter agrotóxico, senão não dá barato. Isso sim sacia minha fome.

Minhas fontes prediletas de comida são feirantes. Costumo atacar os titios japoneses em plena madrugada, aproveitando o escuro da noite e os olhos mais fechados das vítimas. Feirante brasileiro não dá. Tem os olhos mais abertos, então pode me notar com mais facilidade. Mas os asiáticos, enquanto descarregam as barracas do caminhão de um lado, saqueio as caixas de rúcula do outro. O único problema é aos sábados, quando a feira é longe para caramba da minha casa e a linha de ônibus só começa a circular mais tarde. Tenho que ir de bicicleta. Só dá eu na ladeira, pedalando minha Barra Forte. Mas não tem jeito. Ou é isso, ou é fome o dia inteiro.

E bendita hora em que inventaram as tais pizzas de rúcula com tomate seco e muzzarela de búfala. Tirando o tomate seco, o queijo, o molho de tomate, a azeitona e a massa, a pizza é perfeita! Não tem nem o que mexer na receita. Fantástico. Houve uma vez em que fui a uma pizzaria e, além da pizza deliciosa, havia também suco de rúcula com hortelã no cardápio. Pedi para o garçom tirar a hortelã – é um SUCO, caramba, não um chiclete de bola – e a bebida veio espetacularmente servida num copo com gelo e um mini guarda-chuva como ornamento.

Outra fonte de lucros verdureiros é o supermercado à noite. Como vampiros têm a possibilidade de se transformar em morcegos, vôo até o telhado daquele mercado perto de casa, aguardo pacientemente até que o vigia noturno vá para sua sala assistir aos programas da Monique Evans na TV e ataco o quiosque de verduras. Nado de braçadas. Fico em pé na borda, de sunga, snorkel e máscara e mergulho naquele mar verde, desviando das escarolas e agriões, até chegar nos pacotes de rúculas frescas com suas pontas jorrando para fora dos plásticos como fazem as águas nos chafarizes das praças.

Um sonho? Sonho com o dia em que rúcula virará uma “commodity”, um produto barato, produzido em grande escala, entre as plantações de arroz e cana de açúcar. Em que as donas de casa pararão na frente da TV para anotar mais uma receita maravilhosa da Ofélia utilizando restos de rúcula do almoço. Em que as empresas de achocolatado descobrirão a farinha de rúcula sabor chocolate e que, misturada ao leite, torna-se muito mais cremoso e com sabor muito mais doce do que aqueles que tanto tomamos. Em que descobrirão a cura para alguma doença grave a partir do consumo (des)controlado dessa verdura. Em que a Nasa anunciará que mandará rúculas para o espaço, por ser a única planta capaz de sobreviver no solo árido de um planeta longínquo. Em que cientistas anunciarão que acabaram de descobrir a seqüência correta do DNA delas, e que agora o mundo todo saciará sua fome com nossa amiga verdura, que receberá investimentos pesados em produção e exportação. Em que os governos virão, todos juntos, em rede mundial, anunciar um grande projeto conjunto de erradicação da praga da rúcula. Em que os produtores de milho de pipoca descobrirão que conseguem produzir algo semelhante, porém muito mais saboroso, utilizando o mesmo processo, mas alterando o ingrediente principal, o milho, para rúcula. Em que a culinária japonesa abandonará de vez as algas marinhas e passará a manufaturar folhas de rúcula para fazer sushi. Em que os funcionários de todas as empresas pedirão seus refrigerantes de cola acompanhados de gelo e duas rodelas de rúcula. Em que as empresas de toalhas de papel desenvolverão tecidos muito mais absorventes utilizando as fibras da rúcula – duas folhas serão suficientes para enxugar as mãos, o rosto e, quem sabe, se você for realmente econômico, ainda consegue limpar seu carro com elas. Ou, se for muito sortudo, aquela empresa grande de doces lançará finalmente um chocolate recheado com rúcula. Hummmm, ia ser demais.

É por isso que estou aqui hoje, queridos amigos, de peito aberto, contando minha história de vida para vocês. Para que não cometam, de forma alguma, o mesmo erro do nosso amigo Conde. Ele, o Conde Van Se Danart, foi condenado a perseguir somente pessoas que não comem carne nem produtos advindos de animais. Ele só é autorizado a sugar sangue de vegetarianos. É, hoje, o maior inimigo do Greenpeace. Não teve outra alternativa senão comprar um barco baleeiro e pescar baleias no mar do Japão para atrair suas vítimas, que aparecem com suas faixas de protesto navegando em barquinhos inofensivos, lutando pela vida dos cetáceos. Mal sabem que é tudo uma grande armação para que caiam nas redes. Triste fim de um dos maiores ícones do vampirismo mundial.”

Vampiro - por Ricardo Anbar

Ser vampiro é legal. Bacana mesmo. Eu gosto bastante.

Ser vampiro é como ser diabético ou daltônico, quer dizer, você simplesmente é, e ninguém tem nada a ver com isso. Ninguém nem repara nisso. Pensa bem, alguém já olhou pra outra pessoa e disse: - Ei, você é diabético? E daltônico? Pois é, com os vampiros é a mesma coisa, se as pessoas soubessem…

Me tornei um vampiro aos 17 anos. Eu estava no terceiro colegial, me preparando para o vestibular, e era apaixonado por uma moça chamada Isabela. Ela era linda, olhos verdes, pele clara e aveludada, e um cabelo longo que chegava lisinho ao meio das costas. Uma beleza rara. Nem acreditei no dia que ela me convidou para estudar na casa dela. Ela veio com um papinho meio besta que precisava de ajuda em biologia, e eu, super prestativo, falei que podia dar uma passada lá depois do cursinho.

Não durei nem meia hora lá dentro. Antes que eu pudesse ter qualquer reação já tinha os caninos dela na minha jugular. Demorei pra entender o que estava acontecendo, mas aos poucos fui tomando gosto por aquelas mordidas. Depois da terceira vez já era irreversível, tinha me tornado um vampiro.

O mais engraçado é a idéia que as pessoas têm sobre os vampiros. As coisas que são faladas são motivo de piadas dentro da nossa comunidade. Até cem ou cento e cinqüenta anos atrás os vampiros viviam no meio de todo mundo sem nenhum stress, eram impopulares mas tocavam a vida. Depois disso os livros, os filmes, os contos e as estórias infantis popularizaram uma idéia totalmente errada, onde somos sempre o lado mau.

Existem algumas verdades universais que são realmente divertidas. Imortalidade, por exemplo. De onde tiraram isso? Vampiros nascem, crescem e morrem, como qualquer um. Quem não nasce vampiro pode se tornar um, como no meu caso, mas daí em diante vai desenvolver uma vida como qualquer pessoa normal, até morrer. Morrer de acidente, morrer de velhice, morrer de fome, de frio, de calor, de bala perdida, até de estaca de madeira no peito. Como todo mundo.

E o sol, então? Desde pequeno que adoro praia, como eu ia gostar de ser vampiro se não pudesse tomar sol? Aliás, que a Isabela não me ouça, mas conheço uma vampirinha de Maresias que é uma coisa de louco, sempre queimadinha e pronta pra mostrar a marquinha do biquíni. Mas esta é outra história, deixa pra lá.

Minha vida é normal como a de todos os outros caras do escritório. Ninguém lá nem desconfia que sou vampiro, como poderiam imaginar? Vou correr com eles no Ibirapuera, tomo chopp nos happy hours, fico terrivelmente de mau humor quando perco um negócio, eles nunca poderiam dizer.

Antes a única coisa um pouco mais difícil era a alimentação. Tinha esse negócio de jugular, que se pensarmos bem é meio nojenta. Sair mordendo pescoços não é uma coisa muito divertida, nem todo mundo fica confortável com a idéia de enfiar os dentes na veia dos outros.

Hoje está tudo muito fácil. Dois tipos de estabelecimentos vieram pra facilitar nossa vida. Supermercados abertos 24 horas por dia e churrascarias rodízio. Nos primeiros é só chegar e comprar carne fresca, tem a qualquer hora. Vamos ao balcão, escolhemos aqueles pedaços vermelhos e sangrentos, passamos no caixa e pronto. Jantar servido.

E as churrascarias então? Além dos espetaculares buffets de salada, temos toda a picanha mal passada do mundo ao nosso dispor. A gente pede pros garçons trazerem a carne quase crua, eles acham que você é um apreciador e no final da refeição estamos todos satisfeitos. E nenhum furo no pescoço alheio.

Em compensação há um elemento mortal para os vampiros. Parece piada, mas a única substância realmente letal para nossa raça é extremamente popular e está em todos os cantos. O catupiry. Aquele, que vem na caixinha redonda de madeira. É comer e cair morto, sem segunda chance.

O pior é que ao sair com os amigos pra comer uma pizza sempre aparece alguém pra pedir catupiry. Ou puro ou com essas misturas esquisitas que inventaram em São Paulo, como o frango com catupiry ou a calabresa coberta com catupiry. É como colocar cicuta na pizza, o que essas pessoas têm na cabeça?

O grande risco é que o catupiry é um queijo folgado, expansivo, que invade as pizzas dos outros. Se a gente pede dois sabores em uma pizza, o catupiry rapidinho vai derreter pra outra metade. Não tenham dúvida que isso acontece.

Fora isso, adoro ser vampiro. Tem suas vantagens, mas não posso contar, senão teria que matar todos que lerem essa crônica.

Não tenham medo de vampiros, somos gente boa. Mas não dê chance pro azar, pois ainda há aquela turma de saudosistas que não abrem mão de uma boa mordida. Na dúvida, desconfie daquele cara que faz cara de pavor cada vez que você morde sua coxinha de frango com catupiry.

Propagandas que gostaríamos de ver - (3)

19 de fevereiro de 2008

 Sim, meu querido amigo!

Esse novo refrigerante de acerola é tão gostoso, mas tão gostoso que, apesar de você ser feio para cacete, gordo xexelento, ter furúnculos espalhados pelo pescoço, contar apenas com quatro dentes na boca e suar como se um pedaço de queijo gorgonzola estivesse embutido e embalsamado em seu sovaco, todas (repito, TO-DAS) as meninas da balada vão se atirar para beijá-lo despudoradamente, alucinadamente e apaixonadamente.

Disponível também na versão catuaba selvagem.

 

Tema da semana

13 de fevereiro de 2008

Caros,

O tema desta semana, proposto pelo Ricardinho (do Anbar com N) foi "O JACARÉ".

Confesso que não foi moleza, mas o resultado está bacana. Abaixo, os textos criados por estes dois anões-escritores (eu, pelo menos, não tenho pêlos brancos pipocando pelo peito… he he!)

Espero que gostem!

Abraços.

O jacaré

Canal 5, alta madrugada, horário nobre na TV Matagal. De um lado, o polêmico búfalo, âncora do programa de entrevistas, sentado confortavelmente em seu toco de madeira, habilmente entalhado pelo assistente de palco, o pica-pau.

No camarim, pronto para entrar em cena, o próximo convidado e novo fenômeno do mundo animal, o jacaré. Em seu currículo, de longe o maior artilheiro de todos os tempos da CIFODER – Copa Inter-bichos de Futebol Ornamental Dedicado às Espécies Reunidas. Pouco? Experimente praticar o esporte bretão com patas grossas porém irrisórias, garras gigantescas e tortas para dentro e barriga no chão. Isso sem mencionar a cauda enorme, que não entra no shorts com forro nem por decreto.

O jacaré fora convidado a participar do talk-show para contar suas peripécias dentro e fora de campo, além de promover seu mais novo projeto pessoal, o livro de auto-ajuda “Pernas – para que te quero?”. Sua assessora de imprensa, a araponga, trabalhara rápido e enviara resenhas a todos os seus contatos. O mais importante e almejado era, sem dúvida, o búfalo. Uma vez no programa, a tiragem seria triplicada, e um convite da ABL – Academia Bicholesca de Letras – seria questão de tempo. Era só “cumprir tabela” na TV, para utilizar o jargão do esporte, dar quinze minutos de respostas pré-ensaiadas, não improvisar nem uma vírgula, e o estrelato literário estaria garantido.

De gravata borboleta, o búfalo anunciou o convidado, que entrou pata ante pata, curtindo cada momento, a salva de palmas, o holofote que o seguia. Cumprimentou calorosamente o âncora, que retribuiu apontando-lhe o sofá. Se havia algo nesse mundo do qual o entrevistador se orgulhava mais era ter sido dele o pontapé inicial nas carreiras de sucesso da maioria das celebridades atuais. Alguns dos melhores exemplos eram o bem-te-vi, pagodeiro de talento inquestionável, o javali, com suas danças de caverna e suas aulas de Porcs-Trot, além do elefante bailarino russo e do renomado arquiteto joão-de-barro.

- É um grande prazer recebê-lo aqui. Você, que sempre foi um ídolo da CIFODER, vários gols marcados, lances inacreditáveis, uma superação espetacular frente aos limites físicos que o jacarés apresentam na prática do futebol. Agora vem nos presentear com este outro grande lançamento. Se bem que esse é do lado de fora do campo… pegou? Pegou?

- É verdade. Estou muito orgulhoso por mais essa conquista, algo que jamais sonhei em realizar.

- Conte um pouco sobre o início da sua carreira. Foi difícil?

Deu um gole na água da caneca para molhar a garganta e prosseguiu:

- A vida lá no pântano sempre foi muito complicada, sabe? Condições precárias de saneamento, a distância enorme até o campo para treinar, sem transporte público de qualidade, a escassez de presas à beira do lago. Foi duro. Mas é passado. Agora, meu maior desafio é levar toda essa experiência aos mais novos. Daí surgiu a idéia do livro.

- E qual conceito você quer passar? – perguntou o búfalo enquanto mostrava a capa do livro para o câmera enquadrar no telão.

- “Pernas – Para que te quero?” é um testemunho, uma aula de vida. Meu sonho era ser jogador de futebol. Mas eu não tinha pernas longas, como os flamingos e os alces. Foi com muito empenho que consegui vencer e, hoje, sou um exemplo para as novas gerações. Quis registrar essa história para que jabotis, camaleões e até nossas amigas serpentes jamais deixem de acreditar em seus sonhos.

Olhou e apontou para a câmera, que fazia um close-up:

- Se você quer muito a CIFODER, não desista. Treine, aprimore-se, sue a carcaça. Leia o meu livro quando pensar em desistir. Se eu consegui, qualquer bicho pode ir muito além.

Na primeira fila da platéia, a araponga assessora não continha as lágrimas de emoção. Seu pupilo estava saindo melhor que a encomenda. A esta hora, a secretária dos bichos imortais da ABL já devia estar com a carta-convite ao jacaré pronta. Se bem que ela era uma cobra, não dava para confiar.

No palco, o entrevistador continuava o roteiro:

- Bom, você sabe que eu sou famoso por deixar meus convidados constrangidos com colocações pessoais venenosas. O tamanduá, por exemplo, nunca me perdoou por eu ter dito, ao vivo e em rede nacional, que os casos extraconjugais dele davam muita “bandeira”… pegou? Pegou? Divorciou-se e entrou com processo contra mim na corte do juiz pato. Vê se pode. Um tamanduá dá bandeira, e eu que pago o pato?

- É. Aquela foi engraçada. Mas você mandou bem. Para um búfalo, até que é um excelente caçador… pegou? Pegou?

- Melhor deixar as piadinhas para mim, meu caro réptil. Essa não teve graça. Mas vamos ao que interessa: dizem na boca-miúda – o que não é o seu caso, não é? Ai, ai. Estou me superando hoje… – que quem precisou dar sumiço na vaca holandesa, aquela biscate do brejo do Pau D’água, foi você. Dentro de campo, é uma fera. Mas fora, tem fama de comedor, chegando muitas vezes às vias de fato. E que, nesse caso, tem sim o rabo preso na história.

- Isso é calúnia! Querem destruir o que construí com muito suor. Que ela é uma vaca, todos sabem. Está sempre nas colunas animais com um bicho diferente. Eu a conheci, é fato. Mas nunca a comi. Nunca. Se alguém tem motivo para sumir com ela, é o marido dela, aquele chifrudo.

- Se for seguir esta linha de raciocínio, eu também tenho chifre. Devo me preocupar? Você vai querer comer a minha esposa também? – disparou o âncora, enquanto ajeitava os óculos de leitura.

O convidado não gostou da insinuação. Olhou para sua assessora, que fazia gestos desesperados para que ele não respondesse. Aquelas provocacões já eram esperadas, eram típicas do búfalo. Mas o jacaré não deixou passar:

- Se ela for tão gostosa quanto a sua prima americana, aquela bisão deliciosa, vou roer até o osso.

Com o ataque pessoal inesperado, o búfalo atrapalhou-se com os papéis na mesa e deixou a caneca de água cair. Num impulso, lançou a pata à frente, tentando evitar a quebra do utensílio, mas acabou acertando um belo de um coice bem na fuça do réptil.

Em uma fração de segundo, que nem mesmo as câmeras foram capazes de captar, o jacaré reagiu instintivamente à patada, arrancando, numa mordida só, a cabeça inteira do apresentador.

Silêncio na platéia – a não ser pelo grilo velho e surdo que vendia pipoca nos bastidores, e fazia um “cricri” irritante enquanto aguardava o intervalo. Fora ele, nenhum animal presente ao estúdio entendia o que havia acontecido. Só o que viam era o búfalo sem a cabeça, seu corpo ainda sentado no toco de madeira, suas patas segurando os papéis, imóvel. Do outro lado da mesa, o jacaré terminava de degustar a caça, palitando os dentes com um dos chifres que cuspira, recostando-se confortavelmente no espaldar do sofá. Na platéia, a araponga assessora ateava fogo no livro e nas resenhas, enquanto gritava palavrões aos quatro cantos.

Com cara de saciado, o jacaré voltou seu olhar para a câmera e:

- Desculpem. Acho que perdi a cabeça… ou melhor, eu não, o búfalo… pegou? Pegou?

Cri cri…

O jacaré - Por Ricardo Anbar

- Papi, vamos pegar jacaré?

- Daqui a pouco, linda, papai já vai.

- Vamos vai…

- Deixa só o papai acabar de ler a revista e já vamos, tá bom?

- Paiê! As ondas vão acabar, o tempo vai fechar, vai chover, teremos que correr de volta pra casa, e todas as crianças do condomínio vão dizer que pegaram jacaré hoje, menos eu!

- Faz o seguinte, deixa eu acabar de ler a coluna do Mainardi e daí a gente vai, beleza?

- Coluna do que?

Duda adorava a praia. Desde pequenina, quando foi pra Maresias pela primeira vez, ficou claro pra todo mundo que aquela era uma criança que ia sempre ter uma vida temperada com muito sol, sal e areia.

E a primeira vez que ela entrou no mar? Seus pais estavam relaxados nas cadeiras, batendo papo, e viram a Duda engatinhando devagarzinho rumo à água. Eles ficaram observando maravilhados a reação dela junto às marolas que chegavam até suas mãozinhas, o pai não cansava de tanto tirar fotos!

- Vamos pro fundão, papi?

- Claro que não, você sabe a regra. Água no umbigo…

- …sinal de perigo, eu sei, mas é mais legal pegar jacaré lá trás e vir até o rasinho!

- Duda, você tem só 6 anos, vai ter muito tempo ainda de ir no fundo. Agora presta atenção que tá vindo um ondão aí.

No fim de semana passado a Duda estava tranqüila embaixo do guarda-sol fazendo um castelo de areia pras suas Barbies quando ouviu uns moleques dizendo que iam pegar jacaré.

A Duda ficou esperta na hora, afinal ela tinha visto na televisão que jacaré mordia gente, e ela não queria tomar umas dentadas. Ela estava achando um pouco estranho porque nunca tinha visto jacaré na praia, mas vai saber, era melhor manter os olhos abertos.

O pai teve que explicar que não era do bicho que eles estavam falando, que pegar jacaré significa surfar de peito, sem prancha.

A Duda achou aquilo o máximo. Surfar sem prancha, direto com o corpo sobre a onda? Ele tinha que tentar.

- Vai, coloca as mãos pra frente, e quando a onda vier você dá um impulso com as pernas e sai deitada de frente pra areia.

- Como assim?

- Ué, assim, que nem o Super Homem quando está voando, sabe? Mãos pra frente, corpo esticado, batendo as pernas…

- O Super Homem não bate as pernas.

- Quando ele pega jacaré ele bate, pra ajudar a ficar na onda.

- Mas ele não é super?

O pai da Duda ficava louco com os comentários dela, com o tipo de observações e perguntas que saíam daquela cabecinha. E se divertia com elas, pra ele não tinha nada mais valioso no universo do que aqueles momentos que eles compartilhavam juntos, fosse lendo um livro em casa ou aprendendo a pegar jacaré.

- Vai Duda, quando eu contar até 3 faz como te falei, joga o corpo e começa a bater as pernas!

* * * * *

- Boa! Você veio até o raso, viu como é bacana?

- Que máximo!! Obrigado papi, eu te amo. Vamos de novo?

E até hoje, tantos anos depois, a Duda sente um apertinho no peito cada vez que pega um jacaré até o rasinho.

Minhas férias de Verão - Parte 1

6 de fevereiro de 2008

- Que merda!

Era tudo o que passava pela cabeça de Joãozinho – sempre ele – enquanto escrevia em seu caderno o tema para a primeira redação da 7a. série, sugerido pela Dona Mirtes, a acolchoada professora de Português: “Minhas férias de verão”.

Se havia algo no mundo que o deixava transtornado – além de não entender porque a Ritinha gostava do Eduardo e não dele, mas isso é outra história – eram os temas das primeiras dissertações dos anos letivos. Todos eles. Todos iguais.

Vá lá, era a época mais propícia, já que os alunos teriam retornado exatamente daquele período. Mas jamais havia escrito, por exemplo, sobre as férias de inverno. Tão importantes quanto, tão cheias de aventura, mas sempre relegadas a segundo plano.

Sentia que precisava fazer algo a respeito. Aquilo tinha que parar. Era a sua missão na Terra, tinha certeza: combater as nada criativas professoras de Língua Portuguesa. Eram todas cúmplices na difícil tarefa de enlouquecer seus pobres e indefesos alunos. E aquele era o dia D.

Levantou a mão. Esperou alguns instantes até ser visto. Pediu a palavra. Percebeu que o leite que havia tomado no café da manhã fazia um efeito meio esquisito em seu estômago, e aquilo não era um bom sinal. Foi quando veio a pergunta:

- Pois não, Joãozinho? Alguma dúvida?

- Sim, querida Dona Mirtes. Se me permite, gostaria de fazer algumas questões.

- Claro. Fique à vontade.

- Muito bem – colocou a ponta da tampa da caneta na boca, demonstrando escolher cuidadosamente as palavras. – Posso presumir que a senhora, assim como todo o corpo docente desta instituição, esteve ausente de suas atividades profissionais em dezembro e janeiro?

- Pode, claro. Assim como vocês, eu estava em recesso.

- Muito bem – desta vez, sentindo-se mais seguro, entrelaçou as mãos nas costas e caminhou lentamente até a frente da classe, olhando para seus pés, nitidamente imitando os trejeitos dos famosos detetives das histórias de Agatha Christie. – E presumo que, em algum momento, a senhora viajou com seus familiares para um sitio, uma praia, Águas de Lindóia, que seja.

- Joãozinho, eu não sei direito onde você quer chegar, mas poderia ir direto ao assunto?

- Por favor, atenha-se a responder aos meus questionamentos.

Os outros alunos arrumavam-se nas cadeiras, fechavam seus cadernos e cruzavam os braços sobre as carteiras. Não queriam perder nenhum detalhe daquela encenação. Mal sabia ele que, ao invés de ser visto como um herói, um David que enfrentava um Golias, nada mais era para seus colegas do que o ator principal da maior cagada do ano. E tudo ali, bem na frente deles, ao vivo, em cores… e de graça.

- Vou desconsiderar a falta de respeito, porque estou curiosa para saber onde isso vai dar. Quanto à sua pergunta, sim, eu fui com meu marido e meus filhos para São Vicente.

- Exatamente como eu imaginava. E suponho que tenha ido à praia, beliscado um camarão frito, tomado uma loira gelada, enquanto desenhava na areia com o dedão do pé. Seus filhos, provavelmente, ficavam deitados na areai, fazendo castelos com palitos de sorvete. Já seu marido roncava como um urso pardo deitado na cadeira de praia…

- Não que eu lhe deva alguma satisfação da minha vida pessoal, mas digamos que você não esteja completamente errado.

- Sei, sei… interessante.

- Joãozinho, estou começando a ficar impaciente com…

- Um momento. Vou mudar o rumo deste questionamento.

- Já não era sem hora.

- No ano passado, nas aulas de Matemática, aprendemos com o professor Gonçalves – aquele meio viado, sabe? – as equações do primeiro grau. Correto?

- Eu não era aluna, se me recordo, mas devo admitir que seja verdade.

- Neste ano, por conseqüência, veremos outro assunto: as equações do segundo – repito, se-gun-do – grau.

- E?

Virou-se lentamente para seus colegas e, cheio de pompa, como se fosse um advogado defendendo uma causa no tribunal, disparou:

- Eu sabia. Ela está sendo dissimulada. É isso, meus nobres colegas, o que acontece quando um elemento se vê encurralado pela verdade iminente.

- Encurralado vai ficar o seu boletim, com o meio ponto negativo que estou anotando por esse absurdo.

- Viram só? Abuso de poder. Mas eu não vou deixar que os olhos da Justiça continuem vendados. Voltando ao exemplo da Matemática, o que quis demonstrar foi a EVOLUÇÃO que a matéria teve de um ano para outro. De equação do primeiro grau, para equação do segundo grau. Concorda?

- Sim, claro.

- E o que a senhora nos apresentou hoje de inovador?

- Bom, se eu puder continuar a minha aula, falarei sobre concordância verbal.

- Sobre a redação, minha querida…

- Meio ponto a menos. Agora já é um ponto inteirinho. Você vai ter que ralar para passar de ano.

(continua no próximo post…)

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