Poucas e boas.
21 de janeiro de 2008
Sua vida era comentar jogos na TV. Amava discutir lances, jogadas, estratégias. Era paixão mesmo. A impulsividade da juventude, no entanto, havia trazido alguns percalços à sua carreira. Naqueles dias, costumava dizer poucas e boas a quem fosse. Só o tempo e os cabelos brancos deram-lhe maturidade. Aquela chama, no entanto, ainda estava acesa. Apenas a controlava. E bem. Até o dia em que seu time de coração perdeu o título numa final vergonhosa.
Oito a zero para o adversário – fora o baile! Ele, na cabine da emissora para a qual trabalhava, nó da gravata frouxo, descrente no que acabara de ver. Ao apito final, recolocou o fone. Ainda restava trabalho a cumprir. Respirou fundo e, após uma breve pausa, emendou:
“Amigos, existem fatos no futebol que eu não entendo. Quantas regras sem sentido, negociatas e absurdos. Um exemplo? Tiro de meta. Eu pergunto: por que raios o goleiro, depois de sofrer um ataque perigosíssimo, ajeita a bola com cuidado, fecha os olhos e dá uma bica na coitada, sem qualquer direção? Por acaso existe um campeonato paralelo com prêmio especial no final do temporada para quem chutar mais longe? Isso é ridículo e não tem o menor sentido. E vou além: ninguém avisa o cara para tocar para um lateral melhorzinho, um volante que saia jogando? E os técnicos não se incomodam? É dado como certo o chutão, então bola pra frente? – se me permitem o trocadilho.
E nós comentaristas? Discutimos futebol todo dia, mas ninguém critica essa jogada? Repetimos lances em câmera lenta, usamos computação gráfica para definir a velocidade da bola, a cor da cueca do segundo cara da barreira, mas não mencionamos um lance desses? Não dá para acreditar!
Outro exemplo? Impedimento. Dizem que mulheres não fazem idéia do que seja isso. Querem saber? Elas fazem MUITO BEM! Impedimento só serve para justificar a presença dos auxiliares em campo. Mais nada! Já que estão lá, que façam alguma coisa! Mas, quando resolvem fazer, todos discordam. Dá para entender? Posição irregular por dois centímetros? Dêem uma mira laser para o cara, isso sim!
Não é mais fácil abolir essa praga? Os “entendidos” alegam que o jogo perderia a graça. E desde quando é engraçado perder a partida num lance em que o auxiliar lia a lista do mercado feita pela esposa e não viu que o atacante estava adiantado? Ah, mas na banheira os centroavantes farão mais gols. Sério? E não é isso o que queremos no futebol? Gols? Os técnicos que se virem para anular as jogadas. Ganham bem demais para isso. Mas é muito chato você assistir a um jogo e, na única oportunidade de gol, o titio da bandeira resolve fazer uso do objeto. MAS IA SER GOL, CACETA!
Sugestão? Excluam o impedimento e incluam um segundo árbitro em campo. Metade do gramado para cada um. Os gorduchos agradeceriam para o resto da vida a nova oportunidade de emprego. Afinal, correr só meio campo é bom negócio. Ou não é?
Isso sem citar a tecnologia. É celular cada vez menor, nanotecnologia, GPS no carro. E o futebol lá, como se jogava há cem anos. Telões de plasma nos estádios mostram cada jogada em detalhe, mas não podem ser usados para saber se a bola entrou no gol ou não. Por quê? Vai perder a emoção? Mas que emoção tem um esporte que não permite que os REAIS vencedores vençam? Quem ganha com isso? Não é o torcedor, que vê seu time perder um campeonato numa jogada irregular. Não é a Inglaterra que tem sua seleção desclassificada da Copa pelas “mãos de Deus” do maior jogador argentino de todos os tempos. E isso não tem a menor lógica. Nem graça.
E as transferências de atletas DURANTE o torneio? Sim, porque o calendário do Brasil é diferente do resto do mundo. Temos um time até julho, outro a partir de agosto. Como pode? Pior, virou mania um time atravessar a negociação do outro. Se você negocia o lateral e busca outro atleta, entram em ação os empresários oferecendo jogadores como o japonês da feira oferece tomates: vale o preço. Você até encontra um bom jogador, por uma grana razoável. Mas quando vai assinar contrato, o cara é contatado por um cartola do rival, oferecendo um monte de dinheiro para levá-lo. Só que esse time já tem outros sete laterais. Pouco importa se é um investimento válido. Importa apenas atrapalhar a vida do adversário. Pagam uma fortuna para um jogador ficar dois anos encostado só para atrapalhar? Não montam um esquadrão competitivo por pura birra? Valha-me Deus!
Pois que paguem essa grana para mim! Eu faria de tudo para atrapalhar a vida do rival. Misturaria purgante no amendoim a “dois Real” da torcida adversária. Entraria na freqüência de rádio do auxiliar técnico do rival e contaria piadas novas de papagaio. Trocaria as camisas dos caras por modelos de plástico, para não secar o suor de jeito nenhum. Furaria todas as garrafas de água. Colocaria pulgas treinadas nos shorts deles. A bola chega perto, mordem. O atacante pula para cabecear, mordem. E trocaria a lista do mercado no bolso do bandeirinha. O cara ia pirar de preocupação em chegar em casa sem o amido de milho.
Confesso que, apesar dos pesares, sou um apaixonado pelo esporte bretão. É por isso que fico indignado. Portanto, amigos, brigar para quê? Hein? Vamos torcer sem quebrar tudo quando perdermos – ou até quando ganharmos! É esporte. Só isso. Uma pena, mas é verdade.
Um grande abraço a todos e muito obrigado por tudo!”.
Terminado o desabafo, sentiu-se profundamente aliviado. Percebeu que toda a equipe técnica estava em silêncio. Alguns torcedores passaram a aplaudi-lo. A equipe acompanhou. Com os olhos rasos d’água, apertou a mão de seus companheiros e saiu.
Aposentou-se. Comprou um sítio, onde descansa e de onde acompanha os campeonatos. Prometeu que jamais falaria sobre aquele dia. Queria sossego. Recusava entrevistas e passou a escrever um livro sobre sua vida.
Atualmente, torce para que seu livro seja publicado e seu time volte a ser campeão. O livro, tem certeza de que dará certo. Já o time…


Comentário por Clovis — 21 de janeiro de 2008 (20:51)
Corintiano sofre mesmo…rs…
Um abra.