Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Mais um sonho realizado.

17 de janeiro de 2008

Hoje realizei um sonho: levei meu filho, pela primeira vez, à escola.

Confesso que, pouco tempo atrás, nem sabia que uma coisa tão simples, corriqueira mesmo, viria a se tornar tão importante. Algo que curtiria muito, como faz uma criança com um picolé de chocolate na praia, enquanto brinca com os pés na areia.

Existe sensação melhor do que realizar um sonho? Sentir aquela sensação gostosa de conquista, de vitória, de que o esforço e a espera valeram a pena? A gente tenta congelar o tempo só para esticar o momento ao máximo.

Costumo dividir meus objetivos de vida, tudo aquilo que quero muito, em duas caixas diferentes: uma de ambições, outra de sonhos. Na primeira jogo aqueles que, de alguma forma, envolvam valor monetário. Para realizá-los, preciso economizar por algum tempo e temperar com paciência e disciplina. Alguns consigo realizar num prazo razoável – 36 meses, como meu primeiro carro. Outros, mais difíceis, levam um tempão. Uma casa grande na praia, com piscina e de frente para o mar, onde possa jogar bola com amigos ou correr ao final da tarde. Esse vai exigir anos de economia e paciência, mas chegarei lá.

A caixa dos sonhos é reservada para tudo aquilo que independe do dinheiro. Um exemplo? Voltemos ao início do texto: levei meu filho, pela primeira vez, à escola. Assim de primeira, parece algo tolo, sem sentido. Como alguém pode ter um sonho desses? Na verdade, foi uma das sensações mais deliciosas que pude sentir em minha vida.

Moro numa ladeira grande, bem no meio do quarteirão. A escola fica a uns cinqüenta metros para cima, do outro lado da rua. Minha esposa, que faz a entrega do pimpolho diariamente, precisou sair mais cedo, então assumi a responsabilidade.

Somente ao chegar à calçada, dei-me conta do que acontecia. Foi como se, em apenas um segundo – tempo suficiente para fechar o portão – eu viajasse uns trinta anos no tempo, época em que o nanico com a mochila nas costas era eu. Como era gostoso não ter outros compromissos senão ir para a escola encontrar os amigos, desenhar, pintar, jogar bola. Fiquei impressionado até, porque lembrei, com certa facilidade, nomes e fisionomias.

Voltei à realidade quando uma mãozinha gelada pelo vento frio buscou a minha. Aqueles cinqüenta metros foram mágicos. Ao atravessar a rua com todo cuidado, juntos demos um pulo para subir no meio fio. Quase caí. Ele ria do meu pulo desajeitado. Eu acompanhava, meio sem graça. Por várias vezes nos agachamos para seguir formigas carregando folhas enormes, brincamos com flores coloridas, raspamos as mãos nos troncos brancos de cal das árvores e esfregamos na calça para limpar – que a patroa nunca leia esse texto… – acenamos para os carros que passavam apressados. Uma verdadeira curtição, posso afirmar. Pena que passou rápido demais.

Chegando à escola, qual não foi minha surpresa ao ser recebido pela professora – que vergonha, nem sabia o nome dela – com um agradável “Bom dia, papai! Bom dia, Gabriel! Pronto para a aula de hoje?”, e vê-lo trocar minha mão pelo colo dela sem titubear. Ainda teve tempo de fazer um sinal de “tudo jóia?” para o segurança, prontamente respondido pelo rapaz. Que barato! Dois anos. E já curtia a vida, feliz.

Senti um misto de vazio – minha missão estava cumprida e precisava ir trabalhar – e grande alegria, em saber que, trinta anos depois, mesmo com toda a loucura que vivemos nos dias de hoje – pressão no trabalho, trânsito caótico, contas que nunca nos dão folga – ainda fui capaz de aproveitar pequenas coisas, tão simples e tão mágicas. A oportunidade de voltar à infância é um presente especial, um sonho.

Assim deveriam ser nossos sonhos. Simples, fáceis de realizar. E quanto mais tivermos, melhor. Não aqueles que, no fundo, sabemos que jamais sentiremos o gostinho. Meu grande sonho é chegar à velhice com uma lista enorme no bolso. Uma lista de sonhos conquistados, para ficar horas detalhando cada um para meus netos, enquanto beliscamos um bolo de fubá na beira da represa, ao entardecer, esperando algum peixe fisgar.

E o seu?

Arquivado em: Sem categoria I

6 Comentários »

  1. Comentário por Fabiana — 17 de janeiro de 2008 (21:29)

    Parabéns pelos sonhos realizados, muito interessante, emocionante e gostoso de ler…

  2. Comentário por vanessa siracuza — 18 de janeiro de 2008 (8:45)

    João……………………..sem comentários………………me emocionei de verdade………………….. só mesmo sendo pai e mãe pra sentir o que sentimos nesse momento tão especial de nossas vidas e de nossos pequenos.A Julinha vai pra escola pela primeira vez ainda este ano (março) e só fiquei imaginando…………

  3. Comentário por Maria Celeste Parra — 18 de janeiro de 2008 (12:58)

    João
    Ricardo já tinha me falado dessa historia mas só lendo para “sentir” a riqueza deste historia. Ainda com os olhos cheios de lagrimas e tomada por uma intensa emoção só te aconselho a continuar escrevendo SEMPRE
    Celeste

  4. Comentário por Clovis — 21 de janeiro de 2008 (20:46)

    Já soltou pipa com o Gabriel?….rs….
    O Luigi fez isso comigo outro dia…
    Eu recomendo…Um abra…

  5. Comentário por Carla — 24 de janeiro de 2008 (7:48)

    Mi,

    Lindo! E você tem TODA a razão quando mostra que a beleza da vida está nas coisas simples, nos detalhes que geralmente esquecemos de prestar a atenção!
    Parabéns por mostrar isso às pessoas.

    bjs

  6. Comentário por Andre — 27 de janeiro de 2008 (22:39)

    Cara, me veio na cabeça o famoso: “beieza” desse moleque….

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