Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Filtros da Vida.

28 de janeiro de 2008

Madrugada dessas, insônia brava, muitos relatórios para entregar no dia seguinte, ligo meu notebook e começo a navegar na pasta de Contatos, sem saber direito o que procurar.

Uns 300 nomes na lista. “Puxa vida, tenho vários amigos!”, penso.
Resolvo fazer uma brincadeira: filtros! Invento um quesito qualquer e retiro todos os nomes e números de telefone que não dizem respeito ao critério estabelecido. Quem sobrar deverá ser alguém sinceramente importante para mim. Amigo de verdade, daqueles de guardar do lado esquerdo do peito…

Primeiro filtro: ficarão apenas aqueles que não sejam parceiros de negócios, como fornecedores por exemplo. Numa tacada só, 200 foram apagados.

Segundo filtro: retirar todos os nomes de ex-colegas de trabalho, os quais mantenho somente para alguma emergência, como perder o emprego e precisar estar em contato com o mercado. Mais uns 50 para a cucuia, sem escala.

Terceiro filtro: permanecerão apenas aqueles que, neste último ano, tenham ligado para mim, com qualquer desculpa, daquelas bem esfarrapadas, mesmo sabendo que era só para checar como eu estava. Outros 30 para lixeira.

Quarto filtro: apagar pessoas para as quais jamais contaria minhas mais íntimas confidências. Nessa, fácil, queimei 15. Opa! Restam apenas 5 nomes…

Quinto filtro: pessoas para as quais não consigo fingir que está tudo certo, porque me conhecem bem demais, capazes até de sentir, mesmo de longe, que algo está errado. Vocês 2, peguem seus banquinhos e saiam de mansinho! Agora tenho 3.

Sexto filtro: ficarão somente aqueles pelos quais eu seria capaz de abrir mão de tudo, todas as minhas conquistas, todos os meus bens, as casas, o barco, o carro importado, as viagens fantásticas, só para tê-los por perto. Quer saber? Vou deixar apenas aqueles pelos quais, sinceramente, daria minha vida se preciso fosse para vê-los felizes… minha VIDA!

………………………………….

Um a menos. Ficaram 2…

Ao ler os nomes, um aperto gostoso tomou conta do meu coração. De quebra, aquele friozinho na barriga, sorriso besta nos lábios. Pensamentos agora em tempos já tão distantes… perco-me em lembranças.

Lembro, em detalhes, de quando meu pai tirou as rodinhas da minha bicicleta e, com uma das mãos apoiadas no banquinho, deu um leve empurrão para que eu, finalmente, começasse a pedalar sem os apoios. E a vibração, a alegria de ter-me visto andar por longos… 2 metros. Para ele, uma conquista enorme! Acompanhado de um abraço gostoso…

Lembro, como se pudesse voltar no tempo, da minha mãe fazendo cafuné em mim e contando uma historinha, enquanto aguardava a minha febre baixar, calmamente sentada ao meu lado na cama. E do beijo gostoso na testa, com uma última ajeitada no lençol antes de sair.

Ah, que bons tempos! Ah, quanta alegria vivi naqueles dias, quanto amor e atenção recebi! Como sou feliz por ser filho de duas pessoas tão especiais, tão fundamentais em minha vida… E que vontade louca de abraçá-los agora, neste exato momento, para dizer o quanto os amo, o quanto são importantes, e que são os melhores amigos que alguém poderia pensar em ter.

Mas, como estou distante, e a madrugada já se faz alta, pego o telefone, digito o número e, quando alguém atende do outro lado da linha, apenas respondo:

- Oi, mãe. Desculpe, sou eu. Não, não. Está tudo ótimo. De verdade. Liguei apenas porque precisava ouvir sua voz, saber que a Sra. está por perto…. Papai está bem? Que bom! Olha, talvez não entenda direito o que vou dizer a uma hora dessas, mas quero que saiba que amo vocês de paixão, tá? Posso tomar café aí amanhã? Durmam com Deus….. Um beijo grande.

Propagandas que gostaríamos de ver - (2)

23 de janeiro de 2008

Esta é a pasta dental com flúor da Píndara Cosméticos. Oferece proteção que dura 12 horas, reduz o tártaro e dá uma incrível sensação de frescor, capaz de levá-lo do seu escritório diretamente para a praia, num sol danado, onde você e seus amigos sarados e suas amigas, todas modelos, pilotarão jet skis em alta velocidade, em plena quinta-feira. Porque é isso que uma pasta dental deve fazer. Proteger os dentes e ter capacidade de teletransportar pessoas para um mundo de sonhos, onde os feios são todos exterminados e os chefes não ligam nem um pouco que você dê uma saída rápida do trabalho.

Poucas e boas.

21 de janeiro de 2008

Sua vida era comentar jogos na TV. Amava discutir lances, jogadas, estratégias. Era paixão mesmo. A impulsividade da juventude, no entanto, havia trazido alguns percalços à sua carreira. Naqueles dias, costumava dizer poucas e boas a quem fosse. Só o tempo e os cabelos brancos deram-lhe maturidade. Aquela chama, no entanto, ainda estava acesa. Apenas a controlava. E bem. Até o dia em que seu time de coração perdeu o título numa final vergonhosa.

Oito a zero para o adversário – fora o baile! Ele, na cabine da emissora para a qual trabalhava, nó da gravata frouxo, descrente no que acabara de ver. Ao apito final, recolocou o fone. Ainda restava trabalho a cumprir. Respirou fundo e, após uma breve pausa, emendou:

“Amigos, existem fatos no futebol que eu não entendo. Quantas regras sem sentido, negociatas e absurdos. Um exemplo? Tiro de meta. Eu pergunto: por que raios o goleiro, depois de sofrer um ataque perigosíssimo, ajeita a bola com cuidado, fecha os olhos e dá uma bica na coitada, sem qualquer direção? Por acaso existe um campeonato paralelo com prêmio especial no final do temporada para quem chutar mais longe? Isso é ridículo e não tem o menor sentido. E vou além: ninguém avisa o cara para tocar para um lateral melhorzinho, um volante que saia jogando? E os técnicos não se incomodam? É dado como certo o chutão, então bola pra frente? – se me permitem o trocadilho.

E nós comentaristas? Discutimos futebol todo dia, mas ninguém critica essa jogada? Repetimos lances em câmera lenta, usamos computação gráfica para definir a velocidade da bola, a cor da cueca do segundo cara da barreira, mas não mencionamos um lance desses? Não dá para acreditar!

Outro exemplo? Impedimento. Dizem que mulheres não fazem idéia do que seja isso. Querem saber? Elas fazem MUITO BEM! Impedimento só serve para justificar a presença dos auxiliares em campo. Mais nada! Já que estão lá, que façam alguma coisa! Mas, quando resolvem fazer, todos discordam. Dá para entender? Posição irregular por dois centímetros? Dêem uma mira laser para o cara, isso sim!

Não é mais fácil abolir essa praga? Os “entendidos” alegam que o jogo perderia a graça. E desde quando é engraçado perder a partida num lance em que o auxiliar lia a lista do mercado feita pela esposa e não viu que o atacante estava adiantado? Ah, mas na banheira os centroavantes farão mais gols. Sério? E não é isso o que queremos no futebol? Gols? Os técnicos que se virem para anular as jogadas. Ganham bem demais para isso. Mas é muito chato você assistir a um jogo e, na única oportunidade de gol, o titio da bandeira resolve fazer uso do objeto. MAS IA SER GOL, CACETA!

Sugestão? Excluam o impedimento e incluam um segundo árbitro em campo. Metade do gramado para cada um. Os gorduchos agradeceriam para o resto da vida a nova oportunidade de emprego. Afinal, correr só meio campo é bom negócio. Ou não é?

Isso sem citar a tecnologia. É celular cada vez menor, nanotecnologia, GPS no carro. E o futebol lá, como se jogava há cem anos. Telões de plasma nos estádios mostram cada jogada em detalhe, mas não podem ser usados para saber se a bola entrou no gol ou não. Por quê? Vai perder a emoção? Mas que emoção tem um esporte que não permite que os REAIS vencedores vençam? Quem ganha com isso? Não é o torcedor, que vê seu time perder um campeonato numa jogada irregular. Não é a Inglaterra que tem sua seleção desclassificada da Copa pelas “mãos de Deus” do maior jogador argentino de todos os tempos. E isso não tem a menor lógica. Nem graça.

E as transferências de atletas DURANTE o torneio? Sim, porque o calendário do Brasil é diferente do resto do mundo. Temos um time até julho, outro a partir de agosto. Como pode? Pior, virou mania um time atravessar a negociação do outro. Se você negocia o lateral e busca outro atleta, entram em ação os empresários oferecendo jogadores como o japonês da feira oferece tomates: vale o preço. Você até encontra um bom jogador, por uma grana razoável. Mas quando vai assinar contrato, o cara é contatado por um cartola do rival, oferecendo um monte de dinheiro para levá-lo. Só que esse time já tem outros sete laterais. Pouco importa se é um investimento válido. Importa apenas atrapalhar a vida do adversário. Pagam uma fortuna para um jogador ficar dois anos encostado só para atrapalhar? Não montam um esquadrão competitivo por pura birra? Valha-me Deus!

Pois que paguem essa grana para mim! Eu faria de tudo para atrapalhar a vida do rival. Misturaria purgante no amendoim a “dois Real” da torcida adversária. Entraria na freqüência de rádio do auxiliar técnico do rival e contaria piadas novas de papagaio. Trocaria as camisas dos caras por modelos de plástico, para não secar o suor de jeito nenhum. Furaria todas as garrafas de água. Colocaria pulgas treinadas nos shorts deles. A bola chega perto, mordem. O atacante pula para cabecear, mordem. E trocaria a lista do mercado no bolso do bandeirinha. O cara ia pirar de preocupação em chegar em casa sem o amido de milho.

Confesso que, apesar dos pesares, sou um apaixonado pelo esporte bretão. É por isso que fico indignado. Portanto, amigos, brigar para quê? Hein? Vamos torcer sem quebrar tudo quando perdermos – ou até quando ganharmos! É esporte. Só isso. Uma pena, mas é verdade.

Um grande abraço a todos e muito obrigado por tudo!”.

Terminado o desabafo, sentiu-se profundamente aliviado. Percebeu que toda a equipe técnica estava em silêncio. Alguns torcedores passaram a aplaudi-lo. A equipe acompanhou. Com os olhos rasos d’água, apertou a mão de seus companheiros e saiu.

Aposentou-se. Comprou um sítio, onde descansa e de onde acompanha os campeonatos. Prometeu que jamais falaria sobre aquele dia. Queria sossego. Recusava entrevistas e passou a escrever um livro sobre sua vida.

Atualmente, torce para que seu livro seja publicado e seu time volte a ser campeão. O livro, tem certeza de que dará certo. Já o time…

Blog (bem) bacana.

18 de janeiro de 2008

Para quem gosta de histórias divertidas, um dos blogs preferidos deste que vos escreve é o Blog do Torero (o link está aí ao lado).
Um dos grandes autores brasileiros (apesar de Santista), Torero tempera seus textos com humor inteligente, ótimas tiradas e personagens engraçadíssimos.

O texto que está no ar é um dos últimos capítulos da saga de Zé Cabala e Gulliver, dois detetives para lá de enrolados, acompanhados da Kombi Hebe Camargo (nome este sugerido pelos leitores). Vale muito a pena pegar a história do começo para se divertir.

Abraço.

Mais um sonho realizado.

17 de janeiro de 2008

Hoje realizei um sonho: levei meu filho, pela primeira vez, à escola.

Confesso que, pouco tempo atrás, nem sabia que uma coisa tão simples, corriqueira mesmo, viria a se tornar tão importante. Algo que curtiria muito, como faz uma criança com um picolé de chocolate na praia, enquanto brinca com os pés na areia.

Existe sensação melhor do que realizar um sonho? Sentir aquela sensação gostosa de conquista, de vitória, de que o esforço e a espera valeram a pena? A gente tenta congelar o tempo só para esticar o momento ao máximo.

Costumo dividir meus objetivos de vida, tudo aquilo que quero muito, em duas caixas diferentes: uma de ambições, outra de sonhos. Na primeira jogo aqueles que, de alguma forma, envolvam valor monetário. Para realizá-los, preciso economizar por algum tempo e temperar com paciência e disciplina. Alguns consigo realizar num prazo razoável – 36 meses, como meu primeiro carro. Outros, mais difíceis, levam um tempão. Uma casa grande na praia, com piscina e de frente para o mar, onde possa jogar bola com amigos ou correr ao final da tarde. Esse vai exigir anos de economia e paciência, mas chegarei lá.

A caixa dos sonhos é reservada para tudo aquilo que independe do dinheiro. Um exemplo? Voltemos ao início do texto: levei meu filho, pela primeira vez, à escola. Assim de primeira, parece algo tolo, sem sentido. Como alguém pode ter um sonho desses? Na verdade, foi uma das sensações mais deliciosas que pude sentir em minha vida.

Moro numa ladeira grande, bem no meio do quarteirão. A escola fica a uns cinqüenta metros para cima, do outro lado da rua. Minha esposa, que faz a entrega do pimpolho diariamente, precisou sair mais cedo, então assumi a responsabilidade.

Somente ao chegar à calçada, dei-me conta do que acontecia. Foi como se, em apenas um segundo – tempo suficiente para fechar o portão – eu viajasse uns trinta anos no tempo, época em que o nanico com a mochila nas costas era eu. Como era gostoso não ter outros compromissos senão ir para a escola encontrar os amigos, desenhar, pintar, jogar bola. Fiquei impressionado até, porque lembrei, com certa facilidade, nomes e fisionomias.

Voltei à realidade quando uma mãozinha gelada pelo vento frio buscou a minha. Aqueles cinqüenta metros foram mágicos. Ao atravessar a rua com todo cuidado, juntos demos um pulo para subir no meio fio. Quase caí. Ele ria do meu pulo desajeitado. Eu acompanhava, meio sem graça. Por várias vezes nos agachamos para seguir formigas carregando folhas enormes, brincamos com flores coloridas, raspamos as mãos nos troncos brancos de cal das árvores e esfregamos na calça para limpar – que a patroa nunca leia esse texto… – acenamos para os carros que passavam apressados. Uma verdadeira curtição, posso afirmar. Pena que passou rápido demais.

Chegando à escola, qual não foi minha surpresa ao ser recebido pela professora – que vergonha, nem sabia o nome dela – com um agradável “Bom dia, papai! Bom dia, Gabriel! Pronto para a aula de hoje?”, e vê-lo trocar minha mão pelo colo dela sem titubear. Ainda teve tempo de fazer um sinal de “tudo jóia?” para o segurança, prontamente respondido pelo rapaz. Que barato! Dois anos. E já curtia a vida, feliz.

Senti um misto de vazio – minha missão estava cumprida e precisava ir trabalhar – e grande alegria, em saber que, trinta anos depois, mesmo com toda a loucura que vivemos nos dias de hoje – pressão no trabalho, trânsito caótico, contas que nunca nos dão folga – ainda fui capaz de aproveitar pequenas coisas, tão simples e tão mágicas. A oportunidade de voltar à infância é um presente especial, um sonho.

Assim deveriam ser nossos sonhos. Simples, fáceis de realizar. E quanto mais tivermos, melhor. Não aqueles que, no fundo, sabemos que jamais sentiremos o gostinho. Meu grande sonho é chegar à velhice com uma lista enorme no bolso. Uma lista de sonhos conquistados, para ficar horas detalhando cada um para meus netos, enquanto beliscamos um bolo de fubá na beira da represa, ao entardecer, esperando algum peixe fisgar.

E o seu?

Propagandas que gostaríamos de ver - (1)

16 de janeiro de 2008

Este é o novo carro da Proper Plébers Automóveis.

Esportivo, vem equipado com ar condicionado digital e ecológico, direção hidráulica progressiva e o super motor VTX-M16-BOMBAIM.

Não sabe o que isso quer dizer? Nós também não, mas achamos que um nome complicado desse faria você se levantar agora do sofá e correr para uma das nossas concessionárias.

Da série: serve para quê, mesmo?

Botão de elevador: por que raios algumas pessoas insistem em apertar o botão do elevador alucinadamente? Alguém ousou falar para elas que aquela luz acesa já mostra que o aparato foi acionado? Que assim que o meio de transporte estiver disponível, a porta abrirá automaticamente? Que o botão, na verdade (e para o delírio dessas pessoas) NAO É um "acelerador universal ultramolecular de elevadores"?

Não adianta apertar a porcaria 350 vezes em sequência. O elevador não chegará mais rápido por causa disso!

Cáspita.

Nascimento.

Aos 16 dias de janeiro de 2008, eis que vem à luz o blog do Mickey Amaral.
Parto difícil, confesso, já que o pai é daqueles avessos às tecnologias que atropelam, preferindo sempre amadurecer as idéias antes de ir para cima.
Bebê e papai passam bem (ao que tudo indica).
Aos amigos, espero que curtam bastante os textos aqui publicados. Estejam sempre muito à vontade para comentar, criticar, contribuir e tudo o que mais quiserem. Se algum doido também tiver vontade de escrever, é só mandar o texto que publicarei com grande prazer.
Grande abraço,
Mickey Amaral.

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