Compactos - Mickey Amaral

Os melhores (e piores) contos, crônicas, textos soltos e o que mais pintar…

Das coisas que eu não entendo…

6 de março de 2009

Deixa eu (tentar) entender uma coisa:

1. Não era a igreja católica que, na Idade Média, queimava pessoas vivas por ousarem discordar ou questionar o que empurravam goela abaixo?


2. Essa igreja, na mesma época, ateava fogo às bibliotecas, para que ninguém tivesse acesso ao conhecimento, pois isso seria perigoso à hegemonia daquela instituição?


3. Essa igreja, sabemos todos, tem entre seus membros, pessoas tão pecadoras (ou mais) do que qualquer um de nós? (Alô? Casos de pedofilia praticados por padres…)


4. Essa é a igreja que se utilizava do confessionário durante a Inquisição, para ‘manter o rebanho cercado e quieto’, já que tinham acesso a todos os pecados dos fiéis, com a desculpa de que 2 ou 3 ‘Pai Nosso’ os salvariam?


5. Essa é a instituição que detem um poder econômico inimaginável, mas não abre os cofres para tentar erradicar a fome no mundo?


6. Agora um arcebispo dessa mesma igreja excomunga um cirurgião que tentou salvar a vida de uma menina de 9 anos, mas não dá o mesmo peso ao criminoso que a violentou?

 

Ah, tá! Não entendi bulufas… (mas e se o cirurgião for Budista ou Ateu??? Não dará a mínima para a excomunhão, concordam?)

 

(por favor, meus caros, não achem que eu sou um radical louco raivoso, que baba pelas ventas… ao contrário… vejo muitos pontos positivos em várias religiões, respeito todas, mas não entendo que uma ou outra detenha a verdade absoluta… acho, sim, que a relação com Deus é muito mais forte, por exemplo, nas orações que cada um faz, à sua maneira, quando vai dormir ou quando acorda, do que indo a um templo qualquer…)

 

Abraço,
Joao Luis Amaral

Lista do mercado (reloaded)

4 de março de 2009

Homens são, usualmente, ingênuos. Mulheres são, maioria esmagadora, diabólicas, perspicazes, lobas ferozes em pele de cordeiro, lingerie com rendas, unhas pintadas e perfumes franceses.

 

Homens agem, sem qualquer traço de maldade, de maneira rude, como se suas idades somente pudessem ser estabelecidas por Carbono 14. Selvagens, viajaram diretamente da era Cretácea para os dias de hoje. Fico surpreso que os espécimes atuais não tenham cascos ou alimentem-se de arbustos soltos por terrenos baldios, porque as maneiras destes são exatamente iguais àquelas dos habitantes das cavernas.

 

Mulheres, ao contrário, evoluíram. Dotadas de capacidade única para pensar, planejar em detalhes, executar e, o que mais interessa, contar às amigas - todas elas - suas mais novas estratégias de combate aos mentecaptos peludos. É uma guerra não declarada. Guerra fria. Calculista.

 

Caro leitor desatento, você imaginou que aquelas louças não lavadas, as camisas suadas do futebol de segunda à noite jogadas no chão do quarto, a pasta de dente esquecida aberta, as unhas do pé cortadas e deixadas sobre a cama, a cutucada para tirar fiapos de camiseta branca do umbigo, sorrateiramente escondidos sob o sofá, o futebol na TV às quartas quando ela preferia um jantar romântico, passariam incólumes? Não há possibilidade alguma.

 

Discretas, são a mais perfeita tradução de crime realmente organizado. Se nossas autoridades acham o tráfico de entorpecentes difícil de combater, dada a complexidade de suas teias de poder, é porque nunca voltaram suas atenções a essa quadrilha mundialmente esquadrinhada e silenciosa. Agem dentro dos nossos lares, no banco do passageiro dos nossos carros, repousam ao nosso lado, brindam com nosso vinho, usam nossas camisetas para dormir e, não satisfeitas, ainda são presenteadas com jóias e carros do ano.

 

Sábias. Deixam transparecer que suas armas fatais são a sensualidade, o sexo frágil, um vestido curto, uma lingerie nova, uma massagem nos pés com creme sei-lá-o-que, um parmeggiana ao ponto com molho extra. Quando, incontestavelmente – e achavam que nenhum homem entenderia isso – utilizam-se de uma arma muito mais poderosa, mais perversa e infalível: a lista do mercado.

 

Entendo. Parece uma afirmação completamente sem sentido, desprovida da mobilização de sequer dois pares de neurônio. É exatamente isso que a torna tão perfeita. Ninguém jamais ousou pensar que uma reles lista pudesse ser, na verdade, uma arma capaz de nos levar à beira de um ataque de nervos – só não os temos porque, afinal, somos homens e, sendo assim, não sabemos o que é ataque, muito menos de nervos (a não ser que o centroavante perna-de-pau perca aquele gol-feito na final do campeonato).

 

A ingenuidade masculina não tem limites. Tudo começa com a maldita consciência pesada. Num domingo qualquer, enquanto a esposa limpa os armários, cuida das crianças, faz e serve almoço, você, absorto em seu próprio mundo, cutuca as ranhuras do calcanhar, deitado sem camisa no sofá, assistindo a um programa de esportes qualquer. Quando se dá conta da mancada, prontifica-se a “fazer o mercado”. E, esperto, para que nada saia errado pede gentilmente que a patroa escreva tudo o que ela quer num papel.

 

Está aberta a temporada de caça.

 

Com a lista em mãos, chega ao mercado e lê “carne para molho”. Fácil. Dirige-se à gôndola de resfriados e vê-se diante de uma eternidade de nomes, tipos, cortes, cores diferentes. Tenho certeza de que nunca imaginou que um boi pudesse ser dividido em tantos pedaços. Como todo homem, você não sabe qual a melhor carne para molho, então decide ir pelo preço, já que sua esposa foi fiscal do Sarney e estagiária da Sunab. Preço importa deveras. Leva o coxão duro, junto com sua sentença de morte. Coxão duro não é carne. É quase sola de sapato, sua besta!

 

Retoma a lista: iogurte. Outro corredor, um mundo de iogurtes integrais, desnatados, semi-desnatados, com frutas, com mel, com frutas E mel, com fibras, sem gordura, em litro, em pote. Em seus pensamentos, ouve-se um “putaqueopariu”. Checa a lista de novo. Somente “iogurte”. Sem descrições complementares. Gentil, toma o telefone e liga para casa. Você não é burro e quer agradar, certo? Errado. A resposta dela já está pronta antes mesmo de você ter nascido:

 

“Ah, traz qualquer um, amor! Confio no seu bom gosto”.

 

Pronto, o poder de decisão está em suas mãos. Tolo.

 

Item 3: “leite em pó para as crianças”. Corredor de Cereais, farináceos e enlatados. Você conhece a distribuição dos produtos de cabeça. Sabe que os meninos tomam o leite da marca X, mas… não tem. O que faz? Utiliza o seu previamente elogiado "bom gosto" para escolher iogurte e decide levar o leite em pó da marca Y. Pronto, despeça-se da sua cabeça. Ela será separada do seu pescoço num golpe rápido. Eis o que o espera quando chegar em casa:

 

“Leite Y? Esse leite é um horror, Lacerda!”

“Mas, amorzinho! Não tinha outro. Usei o meu bom gosto e…”

“Que bom gosto, mentecapto? É para comprar o que está NA LISTA. É pedir muito?”

“Mas…”

“Não estou mais ouvindo. Chega. Bem que minha mãe dizia que você era um zero à esquerda…”

“Mas…”

 

Eu avisei. Você não quis acreditar. Diga se essa cena doméstica não lhe é familiar? Coloque uma coisa na sua cabeça: todas as possíveis reações vêm sendo estudadas há anos. Se você disser A, ela tem uma resposta. Se você disser B, ela tem outra resposta. Se você não disser nada, ela tem duas respostas e, de quebra, um cróque na sua cabeça.

 

Outro ponto: existem mulheres que atuam como formigas-operárias. São a linha de frente, passam o dia inteiro no mercado, só para azucrinar e passar informações. Você as reconhecerá facilmente, porque levam três filhos daqueles bem chatos à tiracolo, circulam sem organização alguma e estão sempre ao celular. Falando de você para sua esposa, enquanto os filhos brigam ao seu lado para tirar sua atenção. Experimente ir às 10 horas da manhã, identifique uma legião dessas e volte por volta das 19. Surpresa! A tropa estará lá.

 

É duro, é banal, mas é verdade. Você tem sido enganado por todos esses anos. Os mercados são dominados pelas mulheres. Quantos operadores de caixa você conhece? E operadoras? É um campo de batalha varejista. Repare que a sua lista jamais terá itens que estejam expostos na frente do mercado. Sempre estarão no fundo, para que você se torne alvo e não tenha rota de fuga fácil. Elas querem que você sofra. Elas querem enlouquecer você.

 

Mas isso não vai ficar assim. Como o responsável por desmascarar essa autêntica tropa de elite, trabalhei por anos em um meticuloso – e talvez a nossa única salvação – plano de contra-ataque. O sucesso desse projeto depende muito do empenho de todos os homens (homens!) do mundo.

 

Os 5 Dis:

 

  1. DISseminar: espalhe esta notícia bombástica para tantos homens quanto conhecer. Só homens (cuidado, muito cuidado na seleção… hoje em dia está fácil demais incluir por engano um traidor, um vira-casaca-de-pele, entre nós.).
  2. DISsuadir: não ouse contar à sua esposa tudo o que – agora – sabe. Ela fará cara de desentendida e dirá que você, para variar, está bêbado e louco.
  3. DISsimular: esconda a raiva, por mais difícil que seja. Lembre-se, ela é diabólica. Ou suas cuecas correm sérios riscos.
  4. DIStorcer: altere já o formato da lista. Crie colunas adicionais, com três opções de marcas alternativas e preços máximos por unidade. Insira uma nota informando que “caso nenhum produto se encaixe naquele perfil, será imediatamente invalidado, seguindo para o próximo item da lista”.
  5. DISciplinar: tenha a mais completa disciplina para atingir os objetivos. “Juntos, chegaremos lá”, já dizia um dos nossos.

 

E, pelo amor de (qualquer) Deus (em que você acredite), jamais diga à minha esposa que fui eu quem descobriu, espalhou e bolou tudo isso.

 

Sou corajoso, mas não sou burro! E me dê licença, porque acabo de entrar no mercado…

 

 

Pirulitos e a vida.

23 de dezembro de 2008

 

 

Era um dia comum. Apenas mais um, entre tantos outros, tantos iguais.
Sol quente, pessoas circulando às pressas, atentas apenas aos seus afazeres, desatentas aos semelhantes.
Ninguém se importa com os outros, são somente outros. Que sigam seus caminhos. E não atrapalhem o meu. É o que pensam, é como agem.

Vejo um senhor caminhando pela rua. Rosto simpático, olhos e pele claras, bochechas rosadas. Cabelos brancos como neve, barba rala e também alva. Calças largas, sapatos e cintos pretos, camisa sóbria. Leva um discreto par de óculos pendurados por uma fina corrente ao pescoço. Caminha tranquilamente, cumprimentando a todos. Distribui pirulitos às crianças, sorrisos aos adultos. Sorrisos contagiantes, diga-se.

Figura que se diferencia da multidão. Figura que chama a atenção. Páro por alguns instantes para observar. O mundo que espere. Algo inusitado está acontecendo.

Ele continua sua caminhada. Com a mesma tranquilidade. Sempre.

Chega até mim. Coloca os óculos, cruza os olhos com os meus. Olhos azuis que irradiam paz. Estende-me a mão. Cumprimenta-me.
Retribuo, calado. Sem palavras, na verdade. Apenas admiro, sem reação.
Busca na sacola um pirulito, volta a olhar-me nos olhos e diz:

- Tome, meu filho. É seu. Você só queria parar por alguns instantes, não era isso? Queria pensar na vida. Agradecer a quem o ajudou. Pedir perdão a quem feriu. Doar-se mesmo que por breves momentos a quem precisa. Acertar alguns rumos. Eis aqui o seu tempo. E, de quebra, tem sabor de framboesa!

Os pensamentos se misturaram. A confusão tomou conta. A única pergunta que consegui fazer:

- Papai Noel?

Seguiu-se um leve sorriso, seus olhos agora mais brilhantes. Sua mão agora em meu rosto, morna, terna. E a resposta:

- Basta acreditar, filho. Basta acreditar….

E seguiu seu caminho.

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(Feliz Natal a todos!)

 

Algo que seja eterno

10 de dezembro de 2008

Era como se um vazio invadisse o momento. Um misto de incômodo e silêncio. Horas haviam se passado desde que aquela palavra começou a ecoar entre meus pensamentos: ETERNO. A todo custo, buscava encontrar algo que traduzisse, de forma definitiva, aquela palavra. Fácil? Veremos.

As opções eram muitas, vários objetos à minha volta… nada ETERNO.

O vazio lá, aumentando, como aumentava a minha vontade de resolver aquela questão de uma vez por todas.

Resolvi agir. Ou reagir. Passei a procurar, no meio das minhas coisas, a tal tradução definitiva.

Comecei pelo meu baú de brinquedos antigos.
Soldados, bonecos, forte-apache, carrinhos de ferro.
Autorama, gibis antigos com as páginas já amareladas.
Velhos boletins dos primeiros anos de escola.
O primeiro modelo de vídeo-game – nem ligava mais.
E seus joysticks já devorados pelo cachorro.
NADA.

Virei para o armário.
Eram camisas, calças, sapatos, tênis.
Até aquela velha camiseta, já rasgada de tanto usar.
Um moletom surrado – e delicioso – que uso para dormir,
naquelas noites em que nem a manta dá conta do frio.
E outras tantas roupas que há muito não uso.
(e as quais doarei na próxima Campanha do Agasalho…)
NADA.

Apelei.
Liguei o computador.
Entre tantos programas, aqueles últimos lançamentos.
Até mesmo nas ferramentas de ajuda.
Deveria encontrar algo.
Quem sabe na tal da internet?
NADA. Nem em configurações, nem em painel de controle.

Ops! Na casinha do cachorro. É isso. Como deixei passar?
Tomei algumas lambidas – claro!
Mas precisava ser rápido.
Atirei a bolinha para me livrar dele.
Revirei a casinha. Na água, no meio da ração.
NADA. Será que o danado havia devorado esse tal de ETERNO também?

Fui para a cozinha. Despensa aberta, olhos de lince.
É um. É dois. É três. Atacar!
Lata de achocolatado para um lado, pacote de biscoitos para o outro.
Meus prediletos, aliás.
Duas ou três latas de leite condensado – Hummm, leite condensado!
Empilhei alguns pacotes de macarrão.
NADA.

Não disse que não ia ser fácil?
Quase impossível.
Mesmo assim, não desisti.
Tinha que encontrar em algum lugar algo que fosse realmente ETERNO.

Fui para sala. Gaveta de DVDs e CDs.
Entre tantos títulos diferentes, ao menos um, iria me ajudar.
E foi um tal de filmes para lá, shows para cá, games espalhados no sofá.
Pelo menos encontrei aquele velho walk-man, com uma fita K-7 dentro.
Há anos que nem me lembrava mais dele.
NADA.

Passei a achar que ETERNO não existia.
Era invenção de gente maluca.
Já havia procurado em todos os lugares.
Todos os cantos possíveis.
Não existia.
Definitivamente.

Exausto, joguei meu corpo no sofá.
Coloquei os fones do walk-man e, sem pretensão alguma,
Apertei o “play”.
Sensacional! Uma fita com músicas que havia gravado,
para uma menina da 6a. série que paquerei por anos a fio.
Para começar a viajar do sofá de volta à minha infância,
foi um piscar de olhos.

Aquelas manhãs frias em que a mamãe me acordava para eu ir para a escola.
E eu debaixo do cobertor, quentinho, pedia: “Mais cinco minutos, pu favô!” – ela deixava.
O café quente, mesa posta, uniforme pronto e passado.
Um beijo de “boa aula”.
Até o puxão de orelha pela nota vermelha em Geografia.
(mas por que eu tinha que saber algo sobre os Montes Urais?)
As festinhas de Dia das Mães e Dia dos Pais…
Eu me fantasiava e ensaiava para muito para fazer bonito.
Até que me saía bem (mas ficava com uma vergonha danada!)
Aquele cafuné quando a gripe brava me pegava…
Com chá quente e bolachas. E a bronca no dia seguinte por andar descalço no chão frio!
Aquele beijo tarde da noite, quando meu pai chegava exausto do trabalho.
E eu fingia que estava dormindo – mas não estava, não! Confesso.
Aquele abraço gostoso quando me formei na 8ª. série.
Abraço que consigo sentir ainda, até hoje. É só fechar meus olhos…
O presente surpresa no Natal.
Meu prato predileto num almoço de domingo.
Um sopro delicado no Mertiolate ardido borrifado no ralado do joelho.
A risada contida quando tirei aquele bigodinho ridículo pela primeira vez.
A torcida declarada na época de vestibular.
E a festa divertida por eu ter passado.

Espere um pouco.
Que estranho… começo a achar que encontrei algo ETERNO!

Por que hoje, pensando bem, somos nós que fazemos tudo que nossos pais um dia fizeram.
Mas por nossos filhos.
Eles que, certamente, um dia farão por nossos netos.
E que farão pelos nossos bisnetos…

ENCONTREI!

Era tão simples! Estava tão na cara.

ETERNO é o amor que os pais sentem pelos filhos.
ETERNO é o carinho que dedicamos aos nossos pimpolhos.
ETERNA é a atenção que nos dão mesmo quando não precisamos (ou achamos que não)
ETERNA é a amizade deles que temos tão perto de nós, e para sempre.
ETERNA é a gratidão que nós, filhos, hoje temos a oportunidade de demonstrar.

ETERNO é o NOSSO amor por vocês, nossos pais, nossas mães, nossos verdadeiros amigos!
ETERNO é o nosso sincero MUITO, MAS MUITO OBRIGADO POR TUDO! De coração.

Dos seus ETERNOS filhos, netos, bisnetos…..
(p.s.: Alguém aí pode me dizer o que são os tais Montes Urais ? Não sei até hoje…)

Meus particulares campeonatos-relâmpago

18 de novembro de 2008

 

Eles chegam sem avisar. Supreendem-me e, quando dou por mim, estou no meio de uma competição maluca, sem prêmios, troféus ou medalhas. Apenas o sentimento de missão cumprida ou o desgosto por não ter conseguido atingir o objetivo.

Sim, falo dos meus próprios campeonatos-relâmpago (e, nesse momento, arrisco-me a ser chamado de louco, insano, doidivanas, mas e daí?).

Dirigo meu carro por uma via qualquer. Estou tranquilo, nada acontece. Assobio a música do rádio. Batuco no volante. Ouço até os passarinhos cantando pela redondeza. Quando avisto, logo à frente, um farol aberto. É o gatilho para a competição. Penso comigo: ‘preciso passar pelo farol antes que ele mude para amarelo, sem acelerar ou brecar’. Prendo a respiração. Os pássaros, agora, são completamente ignorados. Um titio desavisado aproveita a chance para atravessar a rua. Eu resmungo: ’sai, titio, sai… SSAAAAIII’. Nos instantes finais, um pedido: ‘não muda agora, não muda… por favor… está quase’. E a realização: ‘Passei! He he he! Urrúúú’.

E volto a batucar placidamente no volante, satisfeito por ter conquistado praticamente um índice olímpico. Como se nada tivesse acontecido.

Esses campeonatinhos se estendem a todas as categorias possíveis. No metrô, por exemplo. Passo pela catraca e ouço um trem se aproximando. Logo penso: ‘descer as escadas e entrar no último vagão, sem correr’. E apresso o passo. Quase uma marcha atlética. Mas sem correr. O trem chega à estação. Uma enfermeira lendo mais um parágrafo de Julia - aqueles livretos comprados em banca de jornal - caminha vagarosamente, sem imaginar que um maluco tem uma tarefa árdua a cumprir. O coração palpita. Desvio da moça vestida de branco dos pés à cabeça. O trem pára. Alcanço a escadaria e desço de dois em dois degraus. As portas abrem. Agora é a parte mais difícil, livrar-me dos usuários que vêm no contra-fluxo. Tomo a faixa da direita, limpo o suor da testa. Penso: ’segura a peruca… segura… estou chegando". A campainha toca. Só mais um segundo. Quando as portas esboçam reação e começam a fechar, eis que pulo por entre as duas e, vencedor, olho orgulhoso para os usuários. Um ar trinfante no rosto - mesmo que ninguém saiba o que acabou de acontecer.

No supermercado. Faço minhas compras e vou ao caixa. Pego uma fila qualquer. Olho para as filas ao lado e, em segredo, elejo um adversário. Como regra, esse oponente tem que ter o mesmo número de pessoas que eu à frente. Ganha quem conseguir passar pelo caixa, pagar, colocar as compras empacotadas no carrinho e sair em direção ao estacionamento. Não existe um adversário específico. Pode ser uma moça com roupa de academia, o carrinho recheado de produtos diet, light, frutas, saladas, granola e água de côco. Pode ser um senhor gorducho com cervejas, carnes, sal grosso e carvão. Ou uma senhora lutando para manter as duas crianças quietas enquanto equilibra os trinta e dois produtos de limpeza diferentes na esteira do caixa. Normalmente, essa competição eu perco. Sempre escolho uma fila na qual o casal à minha frente insiste em passar dois ou três cartões de débito e, ainda, pagar a diferença em dinheiro.

No futebol. Recebo a bola na área, ainda no campo de defesa. Sem que nenhum jogador do meu time, ao menos, imagine o que está para acontecer, viro-me para o ataque, um campo inteiro à minha frente. Respiro fundo e penso: "driblar todos os jogadores e chegar até a outra área". Só lá poderei tocar para algum companheiro. E parto. Esse é mais um exemplo de competição perdida logo na largada, dada a minha - digamos - restrita habilidade com a bola nos pés. Isso quando não há um agravante: perco a bola já para o primeiro oponente, que limpa a jogada e marca o tento. Além de perder o meu campeonatinho, sou indicado - à força - para ir para o gol.

É. Relendo este texto, acho que sou meio maluco mesmo. Pelo menos, garanto, é diversão na certa, ajuda a passar o tempo (principalmente no trânsito caótico das grandes cidades), não tem contra-indicação, não solta as tiras, não prejudica ninguém e - o melhor - você escolhe competidores, modalidades e regras. Essa última, pondendo ainda ser alterada DURANTE o campeonato, sem que tenha que levar o assunto ao STJD.

Abraços.

 

Das coisas que eu não entendo

31 de outubro de 2008

 

Imagine um quintal retangular.

Imagine, agora, que essa mesma área conta com uma, apenas uma, não mais do que uma solitária saída d’água, num dos cantos.

No vai da valsa, essa tal saída d’água acaba por acomodar um despretensioso e singelo ralo.

Você solicita à uma dupla de profissionais - um arquiteto e outro engenheiro - que retirem o piso antigo e instalem, no lugar, um piso novinho em folha.

Tarefa dificílima, os nobres trabalhadores conversam, debatem, medem, fazem contas e decidem por um plano de ação.

Chamam o Seu Benedito e pedem que ele faça o trabalho. Mão na massa, literalmente.

Dias depois, você volta para ver como ficou. Aproveita que está só e resolve esguichar o excesso de sujeira.

Cara esperto, vários anos de praia, começa a jogar a água pelo canto oposto ao ralo, para que todos os caminhos levem a sujeira por água abaixo.

É quando você se surpreende ao perceber que a tal saída d’agua tem o poder mágico de desafiar as leis da Física, em especial aquela que explica a força da gravidade. Sim, porque, por algum motivo sobrenatural, segundo o qual mentes com QI menores do que 200 são incapazes de entender, o novo piso fez com que o ralo ficasse no ponto mais alto do quintal. Pior, a água, aquela filha duma quenga banguela, IN-SIS-TE em deslizar para o lado oposto, só de sacanagem.

Você, então, com a paz interior que Papai do Céu lhe deu, pede uma conferência com o engenheiro e o arquiteto. Despeja um balde de água AO LADO DO RALO e, maldosamente, observa os olhos dos profissionais seguindo o percurso daquele Rio Nilo até o outro lado. Ao que se segue a pergunta: "É impressão minha, ou algo aqui está errado?". Um engole seco, o outro coça a cabeça.

Você pede uma explicação, afinal gostaria de entender a lógica do serviço. Eles citam até Karl Marx, mas não conseguem convencê-lo.

Conclusão: alguém aí poderia me explicar POR QUE RAIOS as caídas de água dos pisos NUNCA ficam nos pontos mais baixos?

 

Por um radinho de pilha - final

17 de outubro de 2008

Sentou-se nos banquinhos de madeira no centro do corredor. Abriu a pochete, puxou o maço, filou um cigarrinho – estava longe de casa e precisava dar um tempo para os miolos – acendeu e, enquanto soltava a primeira baforada, tirou os pés dos 752. Os dedos já estavam latejando. Precisavam de uma esticadinha. “Ahhh, que sensação boa!”. O cara que inventou o sapato certamente não tinha a menor idéia de como era bom tirá-los.

Já estava um pouco cansado e não podia mais demorar. Dona Zuleika não o esperaria para almoçar. Achava absurdo que um velho aposentado se atrasasse para algum compromisso. E almoços eram compromissos. Para ela, mas eram. Como podia chegar ao ponto de perder uma manhã inteira, faltar ao dominó com os amigos na pracinha, deixar as pombas famintas por não terem recebido lascas de pão amanhecido, para procurar – e não achar – um rádio? Imagina, então, se a vitrola quebrasse e precisasse comprar uma nova?

Tomou novamente o circular Penha-Tietê. Desceu a duas quadras de casa e muito atrasado para o almoço. Já passava da uma e quinze. Dona Zuleika estaria com um bico enorme. Bico de pelicano. Respirou fundo. Resolveu passar na padaria do Seu Manoel para tomar um golinho da “marvada” e só depois encarar o diabo de bóbes no cabelo.

Pediu “dois dedinhos” para o copeiro e passou a comentar com o chapeiro a jornada do dia. Contou em detalhes as aventuras. Contou indignado sobre o tal de MP-não-sei-o-quê. Falou sobre o tal Jair e, só depois de o chapeiro explicar, entendeu que o cara trazia contrabando do Paraguai. Sorte dele não ter comprado, senão além de ficar sem almoço, ainda seria capaz de levar umas boas bofetadas. Ia ter que dormir no chão da sala.

O chapeiro, conhecido como Bahia, havia feito um curso por correspondência, daqueles que vinham anunciados nos gibis antigos, e entendia alguma coisa de eletrônica. Seu José não perdeu tempo. Em menos de cinco minutos, foi até em casa, ignorou Dona Zuleika, largou sapato, calça e camisa num canto do quarto, vestiu a bermuda surrada, a sandália de couro marrom e desceu de volta para a padoca. Sentou-se no mesmo banquinho e entregou os pedaços ao chapeiro.

Bahia deu uma boa olhada. Pediu para o Tonhão, outro copeiro, fazer as vezes dele na produção dos sanduíches. Pegou uma faca sem ponta, remontou o aparelho e ligou. Seu José só olhava, perna esquerda chacoalhando nervosamente. Ainda bem que tinha tirado o 752. O dedinho estava quase preto de tão doído. Mas o velho companheiro não havia dado sinal de vida.

Inconformado, Bahia abriu a gaveta e sacou uma lanterna. Usava a dita cuja para encontrar tomates, alfaces e queijo prato quando as chuvas de verão interrompiam o fornecimento de energia. Abriu a tampa, virou-a para baixo e pegou as pilhas. Trocou com as do radinho. Mirou o dedo no botão de ligar, olhou para o Seu José e desferiu:

- Agora é a hora da verdade. Faça figas, Seu Zé.

Ligou. Ouviram o locutor do programa vespertino anunciando a troca da torradeira da Dona Ana, do Cangaíba, pelo aparelho de ginástica abdominal passiva novo, na caixa, do Tavares, morador da Vila Medeiros. Entreolharam-se. Seu José abriu um sorriso agradecido. Estava feliz, com lágrimas nos olhos. Seu amigo havia ressucitado. Passou a acreditar que aquilo era um sinal divino de que o tricolor finalmente voltaria a ganhar o campeonato. Do outro lado do balcão, Bahia dava graças a Deus por ter finalmente utilizado aquele conhecimento do curso de correspondência para alguma coisa.

O problema eram as pilhas. Somente as pilhas. Haviam acabado, já estavam até enferrujadas. Quando caiu no estádio, as peças se soltaram porque o rádio era velho, mas nenhuma delas havia quebrado.

No momento seguinte, sentiu que o urso estava com uma vontade enorme de voltar para casa e fazer a festa a noite toda com a Dona Zuleika.

Por um radinho de pilha - Capítulo 5

9 de outubro de 2008

 

Correu para a loja seguinte. Estava com dor de cabeça, tamanha a surra de palavras que havia levado. Mudaria a estratégia. Haveria de perguntar logo de cara, para o vendedor mais próximo da entrada da outra loja, se tinha aquele – somente aquele e mais nada agregado – equipamento. Avistou uma moça gordinha, a calça do uniforme deveria estar uns dois números abaixo do manequim dela, camisa branca com o logo da empresa no bolso, cabelo enrolado num cóque preso por uma caneta Bic sem tampa.

- Bom dia, moça! A senhora teria, por acaso, rádios de pilha para vender? PI-LHA! Sem MP-não-sei-o-que, sem negócio de “ternécs” para baixar música. Nada disso. Só um radinho simples. Tem?

- Olha, vovô – retrucou, sem ao menos olhar para o cliente. Pergunte ao rapaz da seção de rádio, está bem? Eu trabalho com lavadoras. Não sei se tem ou se não tem o que o senhor precisa. Também não faço questão de saber. Gente mais inconveniente, viu? Não se tem sossego num lugar desses, não?

Claro que não havia entendido nada, novamente. Só fez pedir desculpas e seguir loja adentro. Tudo o que sabia era que precisava procurar alguém da seção correta, porque a meiga moça da entrada da loja havia rosnado isso no começo da resposta. Sem opção, entrou. Deu uma nova olhada para a porta, para garantir que o Rottweiller de uniforme estava longe.

- Que doida!

Encontrou a tal seção e, logo ao lado, atendendo um casal, um rapaz que parecia mais simpático e de bem com a vida. Parou ao lado para ouvir a conversa, disfarçando, como se estivesse analisando outro produto qualquer. O cara respondia aquilo que era perguntado. Nem mais, nem menos. Só apresentava novas opções se os clientes perguntassem. Dava desconto e dividia qualquer equipamento em dez vezes. Era a sorte grande. Esperou até que o casal saísse satisfeito com o negócio que haviam acabado de fazer, comprando um sistema de som que só na caixa caberia um Fusca de tão grande.

Aproximou-se. Estava com medo, dada a experiência anterior com o ser raivoso na entrada. Quando percebeu o sorriso na face do rapaz, tomou coragem e perguntou:

- Moço, veja se pode me ajudar. Meu radinho de pilha quebrou e, agora, preciso comprar um novo. Mas é só radinho mesmo, AM-FM, e de pilha. Para ouvir no estádio, sabe? Em dia de jogo. Não precisa ter mais nada. Só rádio. O senhor tem? Tem?

- Bom dia, senhor…?

- José.

- Ótimo! Seu José, meu nome é Carlos. Veja se entendi: o senhor precisa de um rádio pequeno, daqueles que a gente coloca no ouvido e escuta os lances, não é? De preferência, precisa ser pequeno, para caber no bolso da camisa.

- Isso mesmo! Finalmente encontrei alguém que sabe do que eu estou falando.

- É, Seu José. Saber eu sei mas, infelizmente, não tem esse aparelho aqui na loja, não. As empresas agora lançam uns equipamentos estranhos, sabe? Cheios de frescura. Tudo digital. Mas se o senhor quiser…. chega mais….

Puxou Seu José pelo ombro, levando-o vagarosamente para um canto onde não havia outros vendedores.

- É o seguinte, Seu José. Eu tenho um primo que pode arrumar esse aparelho para o senhor. Baratinho. Peço as opções para ele, o senhor escolhe, paga – tem que ser adiantado e em dinheiro – e em uma semana, no máximo, o senhor terá o seu rádio novinho em folha, pronto para ir ao estádio. O que acha?

- Seu primo trabalha aqui?

Seguiu-se uma risada alta do vendedor, surpreso com a pergunta. Logo após, o complemento:

- Nãããooo, Seu José. O Jair, meu primo, negocia equipamentos eletrônicos IM-POR-TA-DOS, para pessoas que procuram sempre pelos melhores produtos. Assim com o senhor. Inovação. Top de linha. Tudo de primeira.

- Ah, entendi! Então devo procurá-lo na seção de importados, é isso?

- O senhor é realmente engraçado, viu Seu José? Deixa eu explicar melhor. Eu tenho um primo, entendeu? O Jair. Ele faz viagens ao exterior e, quando alguém distinto como o senhor precisa de algum eletrônico, ele compra lá fora e traz para cá. Aí a pessoa recebe um aparelho novinho, que nem saiu no Brasil ainda. E mais barato que os eletrônicos dessa loja aqui. Só vantagem, está vendo?

- Mas esse seu primo vai de avião?

- Não, não. Ele morre de medo de avião. Então vai de ônibus. É mais seguro, sabe?

- Mas de ônibus não demora muito? Não entendo muito de Geografia, mas os Estados Unidos são longe para caramba.

- E quem disse que precisa ir para os “estêites” para comprar produto bom, Seu José? Ele vai aqui no Paraguai mesmo, que é mais perto e tem muita variedade. Bem mais rápido, mais barato. Bate e volta.

- Mas ele dá nota fiscal? Porque o produto tem garantia, não tem?

- Nota, não, mas garantia tem, Seu José. A garantia sou eu. Se der problema, é só trazer o rádio para mim que levo para o Jair e peço para ele trocar. Sem demora. Rapidinho. E aí? Negócio fechado? Posso ligar para ele?

- Sei, não. É que a minha senhora é capaz de ficar brava comigo. Ela é toda certinha. Conta os centavos. Se eu não levar a nota, vai achar que gastei o dinheiro com alguma outra coisa. Depois, é um mês inteiro ouvindo bronca. Vou dar mais uma volta, está bem? Muito obrigado.

- Sem problemas, seu José. Leve aqui o meu cartão. Se quiser, é só ligar no meu celular. Negócio bom e para poucos, hein?

Ainda não havia entendido direito se o tal de Jair trabalhava naquela loja. Mas sabia que, se comprasse sem nota, estaria frito. Dona Zuleika o assaria junto com as batatas do almoço. E o serviria para a família, com molho madeira e uma maçã na boca.

Por um radinho de pilha - Capítulo 4

6 de outubro de 2008

 

Voltou a se admirar com as possibilidades de eletrônicos à disposição. Circulou mais um pouco e, quando já estava saciado de apreciar as novidades, passou a procurar o que o tinha levado até lá: o radinho de pilha. Seguiu até a seção correta, procurou, olhou, fez cara de dúvida e, quando pensou em finalmente se render e pedir ajuda para o tal do Orlando, eis que a assombração surgiu do nada e se antecipou:

- Quer uma ajuda? Vi que o senhor franziu a sobrancelha e tenho certeza de que posso ser útil. Hein? Hum? Ahn? Posso?

- Claro, Armando! É que estou procurando um rádio para ouvir meu futebol no domingo. E estava pensando num modelo…

Fora interrompido.

- Pois o senhor veio ao lugar certo! Temos vááááários modelos, com MP3 player, karaokê, oito mil watts de potência, som digital surround, duas entradas para vídeo-game, sub-woofers, twiters e o melhor de tudo: o preço à vista em três vezes sem juros.

- Eu estava pensando em algo mais simples, um pouco menor. É um rádio somente para…

Nova interrupção.

- Não tem problema. Temos aqui os ultra-micro-systems, com bluetooth, câmera integrada, sistema de alarme anti-furto. E esse aqui, em especial, está numa super promoção. Consigo dividir para o senhor em oito - nem uma, nem duas, nem três, mas OI-TO - vezes no cartão. É pegar ou largar. Posso embrulhar? É para presente? Qual cartão o senhor utiliza? Crédito ou débito? Vai levar agora ou mando entregar?

- OR-LAN-DO! Eu preciso de um rádio de PI-LHA. AM-FM, botão liga-desliga que serve também de volume. É para levar ao estádio, para acompanhar as partidas do meu tricolor.

- Pilha? Mas para que isso, meu senhor? Já estão totalmente ultrapassados, não se usa mais essa velharia. E sinto que o senhor é um cara antenado, que gosta de tecnologia. Hoje em dia, temos os MP3 players. O senhor baixa as músicas da internet, faz o upload para o aparelho e pode ouvir mais de quinze mil cantigas. Não é o máximo? E tenho no estoque quatro cores diferentes. O senhor pode escolher entre….

- Tem rádio?

- Azul…. Não. Só rádio, não. Vermelho, verde, ou….

- Rádio de pilha. Tem?

- Amarelo. O senhor não quer levar esse super CD player que tem rádio FM? Os esportistas hoje em dia utilizam para correr. Colocam o fone no ouvido, apertam play e só param a correria quando o CD acaba. E tem rádio. Mas esse aqui eu só posso fazer à vista.

- RÁ-DI-Ô! Só rádio. De pilha. Tem ou não tem?

- Infelizmente não, senhor. Fico devendo. Quem sabe no próximo lote, não é? Essas empresas lançam cada produto maluco que só vendo. Teve aquela vez….

- Obrigado. Muito gentil. Passar bem.

- Mas e para a esposa? Ela não está precisando de uma batedeira nova?

- Adeus! 
 

 

Por um radinho de pilha - Capítulo 3

1 de outubro de 2008

 

Saltou do circular Penha-Tietê na porta do shopping. Mais alguns passos e estaria dentro daquele mundo de lojas, daquele universo do consumismo. Roupas, livros, calçados, bolsas, perfume, farmácia…

- Mas cadê a loja que vende rádio?

Continuou andando e, depois de passar pela praça de alimentação, avistou um balcão onde uma moça bem maquiada gentilmente sorria para os transeuntes enquanto lixava as unhas. Na frente, uma placa onde lia-se “Informações”. Meio sem graça – odiava o primeiro contato com alguém que não conhecia – aproximou-se e perguntou:

- Mocinha, posso pedir uma informação?

- Claro, senhor. Afinal, este é um balcão de “informações”, como pode notar pelo que está escrito na placa. Em que posso ser útil?

- He he! É verdade… Desculpe. É que meu radinho de pilha quebrou e queria comprar um novo. Andei metade do prédio e não encontrei uma loja sequer que venda rádio. A senhorita saberia…

Fora interrompido por um discurso pronto, certamente desenvolvido por algum assistente pós-graduado em Marketing de relacionamento, cidadão que fica fechado numa sala com ar condicionado e jamais ouviu esse blábláblá sendo declamado ao vivo, para saber o quão irritante é.

- Rádios e eletrônicos em geral o senhor encontrará na seção Diamante do nosso shopping, onde as melhores lojas do ramo estão à sua disposição, com promoções imperdíveis. O senhor está na seção Rubi, que liga a praça de alimentação às lojas de material esportivo. Para ir à seção Diamante, volte três corredores, vire à direita, siga até a loja de brinquedos, entre à esquerda. É no final do corredor. Obrigada e o Shopping Pedras Preciosas agradece sua visita. Tenha uma ótima compra. E não perca os lançamentos do cinema. Na compra de dois ingressos, a pipoca doce é grátis.

Estava mais confuso agora. Resolveu andar um pouco mais, pela outra metade do prédio. Uma hora haveria de topar com uma loja de eletrônicos. Não tinha pressa. Ainda eram dez e pouco e Dona Zuleika não servia o almoço antes da uma.

De repente, logo ali, no final do corredor, encontrou não uma, mas quatro (repito, QUATRO) lojas de eletrônicos. Todas abertas, só para ele. Ao entrar na primeira, um dos vendedores logo se aproximou, oferecendo ajuda. Seu José, educado, respondeu o já famoso:

- Só estou olhando, obrigado!

Continuava seus passos, olhos vidrados nos rádios enormes com caixas maiores ainda, etiquetas com vários números dependuradas nas laterais dos aparelhos. Percebeu que o vendedor o seguia. Dava um passo, o cara também. Parava, o cara também. Olhava para ele, recebia um sorriso. Encabulado, repetiu:

- Obrigado, mas estou só olhando.

- Pois o senhor fique à vontade. Se precisar de ajuda, qualquer ajuda, meu nome é Orlando, está bem? OR-LAN-DO – ofereceu-se, repetindo o nome pausadamente, como se Seu José tivesse algum problema de audição ou cara de bobo para não entender.

E, óbvio, não poderia perder aquela piada.

- Obrigado, mocinho. Se eu precisar, juro que chamo você. FER-NAN-DO, não é? – Questionou, sorriso maroto no canto da boca.

- OR-LAN-DO! Estarei por perto, OK? Se precisar, já sabe: OR-LAN-DO.

 

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