Homens são, usualmente, ingênuos. Mulheres são, maioria esmagadora, diabólicas, perspicazes, lobas ferozes em pele de cordeiro, lingerie com rendas, unhas pintadas e perfumes franceses.
Homens agem, sem qualquer traço de maldade, de maneira rude, como se suas idades somente pudessem ser estabelecidas por Carbono 14. Selvagens, viajaram diretamente da era Cretácea para os dias de hoje. Fico surpreso que os espécimes atuais não tenham cascos ou alimentem-se de arbustos soltos por terrenos baldios, porque as maneiras destes são exatamente iguais àquelas dos habitantes das cavernas.
Mulheres, ao contrário, evoluíram. Dotadas de capacidade única para pensar, planejar em detalhes, executar e, o que mais interessa, contar às amigas - todas elas - suas mais novas estratégias de combate aos mentecaptos peludos. É uma guerra não declarada. Guerra fria. Calculista.
Caro leitor desatento, você imaginou que aquelas louças não lavadas, as camisas suadas do futebol de segunda à noite jogadas no chão do quarto, a pasta de dente esquecida aberta, as unhas do pé cortadas e deixadas sobre a cama, a cutucada para tirar fiapos de camiseta branca do umbigo, sorrateiramente escondidos sob o sofá, o futebol na TV às quartas quando ela preferia um jantar romântico, passariam incólumes? Não há possibilidade alguma.
Discretas, são a mais perfeita tradução de crime realmente organizado. Se nossas autoridades acham o tráfico de entorpecentes difícil de combater, dada a complexidade de suas teias de poder, é porque nunca voltaram suas atenções a essa quadrilha mundialmente esquadrinhada e silenciosa. Agem dentro dos nossos lares, no banco do passageiro dos nossos carros, repousam ao nosso lado, brindam com nosso vinho, usam nossas camisetas para dormir e, não satisfeitas, ainda são presenteadas com jóias e carros do ano.
Sábias. Deixam transparecer que suas armas fatais são a sensualidade, o sexo frágil, um vestido curto, uma lingerie nova, uma massagem nos pés com creme sei-lá-o-que, um parmeggiana ao ponto com molho extra. Quando, incontestavelmente – e achavam que nenhum homem entenderia isso – utilizam-se de uma arma muito mais poderosa, mais perversa e infalível: a lista do mercado.
Entendo. Parece uma afirmação completamente sem sentido, desprovida da mobilização de sequer dois pares de neurônio. É exatamente isso que a torna tão perfeita. Ninguém jamais ousou pensar que uma reles lista pudesse ser, na verdade, uma arma capaz de nos levar à beira de um ataque de nervos – só não os temos porque, afinal, somos homens e, sendo assim, não sabemos o que é ataque, muito menos de nervos (a não ser que o centroavante perna-de-pau perca aquele gol-feito na final do campeonato).
A ingenuidade masculina não tem limites. Tudo começa com a maldita consciência pesada. Num domingo qualquer, enquanto a esposa limpa os armários, cuida das crianças, faz e serve almoço, você, absorto em seu próprio mundo, cutuca as ranhuras do calcanhar, deitado sem camisa no sofá, assistindo a um programa de esportes qualquer. Quando se dá conta da mancada, prontifica-se a “fazer o mercado”. E, esperto, para que nada saia errado pede gentilmente que a patroa escreva tudo o que ela quer num papel.
Está aberta a temporada de caça.
Com a lista em mãos, chega ao mercado e lê “carne para molho”. Fácil. Dirige-se à gôndola de resfriados e vê-se diante de uma eternidade de nomes, tipos, cortes, cores diferentes. Tenho certeza de que nunca imaginou que um boi pudesse ser dividido em tantos pedaços. Como todo homem, você não sabe qual a melhor carne para molho, então decide ir pelo preço, já que sua esposa foi fiscal do Sarney e estagiária da Sunab. Preço importa deveras. Leva o coxão duro, junto com sua sentença de morte. Coxão duro não é carne. É quase sola de sapato, sua besta!
Retoma a lista: iogurte. Outro corredor, um mundo de iogurtes integrais, desnatados, semi-desnatados, com frutas, com mel, com frutas E mel, com fibras, sem gordura, em litro, em pote. Em seus pensamentos, ouve-se um “putaqueopariu”. Checa a lista de novo. Somente “iogurte”. Sem descrições complementares. Gentil, toma o telefone e liga para casa. Você não é burro e quer agradar, certo? Errado. A resposta dela já está pronta antes mesmo de você ter nascido:
“Ah, traz qualquer um, amor! Confio no seu bom gosto”.
Pronto, o poder de decisão está em suas mãos. Tolo.
Item 3: “leite em pó para as crianças”. Corredor de Cereais, farináceos e enlatados. Você conhece a distribuição dos produtos de cabeça. Sabe que os meninos tomam o leite da marca X, mas… não tem. O que faz? Utiliza o seu previamente elogiado "bom gosto" para escolher iogurte e decide levar o leite em pó da marca Y. Pronto, despeça-se da sua cabeça. Ela será separada do seu pescoço num golpe rápido. Eis o que o espera quando chegar em casa:
“Leite Y? Esse leite é um horror, Lacerda!”
“Mas, amorzinho! Não tinha outro. Usei o meu bom gosto e…”
“Que bom gosto, mentecapto? É para comprar o que está NA LISTA. É pedir muito?”
“Mas…”
“Não estou mais ouvindo. Chega. Bem que minha mãe dizia que você era um zero à esquerda…”
“Mas…”
Eu avisei. Você não quis acreditar. Diga se essa cena doméstica não lhe é familiar? Coloque uma coisa na sua cabeça: todas as possíveis reações vêm sendo estudadas há anos. Se você disser A, ela tem uma resposta. Se você disser B, ela tem outra resposta. Se você não disser nada, ela tem duas respostas e, de quebra, um cróque na sua cabeça.
Outro ponto: existem mulheres que atuam como formigas-operárias. São a linha de frente, passam o dia inteiro no mercado, só para azucrinar e passar informações. Você as reconhecerá facilmente, porque levam três filhos daqueles bem chatos à tiracolo, circulam sem organização alguma e estão sempre ao celular. Falando de você para sua esposa, enquanto os filhos brigam ao seu lado para tirar sua atenção. Experimente ir às 10 horas da manhã, identifique uma legião dessas e volte por volta das 19. Surpresa! A tropa estará lá.
É duro, é banal, mas é verdade. Você tem sido enganado por todos esses anos. Os mercados são dominados pelas mulheres. Quantos operadores de caixa você conhece? E operadoras? É um campo de batalha varejista. Repare que a sua lista jamais terá itens que estejam expostos na frente do mercado. Sempre estarão no fundo, para que você se torne alvo e não tenha rota de fuga fácil. Elas querem que você sofra. Elas querem enlouquecer você.
Mas isso não vai ficar assim. Como o responsável por desmascarar essa autêntica tropa de elite, trabalhei por anos em um meticuloso – e talvez a nossa única salvação – plano de contra-ataque. O sucesso desse projeto depende muito do empenho de todos os homens (homens!) do mundo.
Os 5 Dis:
- DISseminar: espalhe esta notícia bombástica para tantos homens quanto conhecer. Só homens (cuidado, muito cuidado na seleção… hoje em dia está fácil demais incluir por engano um traidor, um vira-casaca-de-pele, entre nós.).
- DISsuadir: não ouse contar à sua esposa tudo o que – agora – sabe. Ela fará cara de desentendida e dirá que você, para variar, está bêbado e louco.
- DISsimular: esconda a raiva, por mais difícil que seja. Lembre-se, ela é diabólica. Ou suas cuecas correm sérios riscos.
- DIStorcer: altere já o formato da lista. Crie colunas adicionais, com três opções de marcas alternativas e preços máximos por unidade. Insira uma nota informando que “caso nenhum produto se encaixe naquele perfil, será imediatamente invalidado, seguindo para o próximo item da lista”.
- DISciplinar: tenha a mais completa disciplina para atingir os objetivos. “Juntos, chegaremos lá”, já dizia um dos nossos.
E, pelo amor de (qualquer) Deus (em que você acredite), jamais diga à minha esposa que fui eu quem descobriu, espalhou e bolou tudo isso.
Sou corajoso, mas não sou burro! E me dê licença, porque acabo de entrar no mercado…